sexta-feira, 2 de abril de 2010

Manoel e o afrodescendente tresloucado solto por aí

Frederico Mendonça de Oliveira

“Pois é: se estivéssemos naquela virada dos anos 50 para os 60 no Brasil, poderíamos usar o termo usado por Stanislaw Ponte Preta, aliás Sérgio Porto, cronista impagável, para sua composição inesquecível, Samba do Crioulo Doido. Hoje é isso aí: ‘Binário do Afrodescendente Tresloucado’, senão dá processo... Reportar podemos; falar abertamente, não”, reflete Manoel a respeito de tanta loucura que vemos explodir diante de nossos narizes sem nada poder fazer. É que nosso herói sofre
sendo alvejado de todos os lados com manifestações de insanidade mental individual e coletiva, e pensa em Deus e no Cristo, e acaba diante do congelador, sossegando o espírito através de considerar deglutir os goles inebriantes de uma loura gelada. Fazer o quê? Chorar sob o cobertor? Mas, como, cobertor?, em pleno começo de outono, com o calor de verão ainda tórrido, derretendo asfalto? Mas vamos ao desfile das loucuras explícitas. Enter.
Naqueles tempos da pesada, quando chegava a Bossa Nova e no mesmo ano o Brasil virava campeão mundial de futebol, vivíamos um temor diante do que pensávamos ser doenças sociais curáveis. Uma delas, o aumento da presença do automóvel. Mas a revista Senhor, lançada por aqueles tempos, apresentava uma profética charge: pai e filho, de cima de uma cobertura em Copacabana, olhavam lá pra baixo, e o pai dizia pro filho: “Tá vendo, meu filho? Nunca mais conseguiram tirar os carros do grande engarrafamento de 1990!”. E Manoel, então em seus 15 e já no Brasil, viu aquilo e guardou em sua prodigiosa memória. Pois hoje ele comenta com sua amada Maria: “Tu vês? Estive no centro deste Arraial das Bagas e presenciei um espetáculo absurdo: parece existirem mais carros que gente no centro e adjacências dele neste arraial! Um dia esta merda vai travar, e vai acontecer aqui, nesta aldeia entre montanhas, o que foi profetizado na charge do fim da década de 50!” E Maria, pela primeira vez assumindo uma fala direta neste espaço, comentou: “Pois veja, querido, o que saiu hoje na Folha: ‘Vendas (de automóveis) cresceram 17,9% ante o mesmo intervalo no ano passado estimuladas pelos últimos meses do IPI reduzido, que vigorou até ontem’; a continuar isso, estaremos entupidos de carros sem poder andar nas ruas senão por sobre eles!”. E o casal se entreolha ternamente, seguro de nada poder contra a degenerescência, mas consciente de que, se estão enfrentando esta conjuntura, não será senão porque para ela contribuíram de alguma forma no passado intangível. Enter.
E a imprensa noticia os engarrafamentos monumentais, as horas e horas perdidas por habitantes de capitais no trânsito diário, mas prossegue intransigentemente a serviço das indústrias de veículos, especialmente porque elas pagam anúncios caríssimos, muito embora tudo leve a uma compreensão do irremediável: se cresce a demanda de veículos dentro de um espaço limitado e que não acompanha tal crescimento hoje beirando o vertiginoso, teremos colapsos graves de fluxo de tráfego em breve, e disseminados por todo o país. “É o capitalismo selvagem devastando através de instaurar a era do automóvel, doença maligna em nossa história, que traz com ela outros transtornos horrendos, que são as doenças decorrentes do aumento do sedentarismo, porque o motorista acaba também um sedentário à direção, um ser que acaba amplificando seu sedentarismo já consolidado no trabalho, no escritório, no banco, mas, pior, obrigatório na poltrona diante da TV, e mais sedentarizado ainda nesses dias tecnológicos, porque assistindo TV e mudando de canal usando controle remoto... que visão aterrorizante, ó Maria!”. E Maria, ocupada em suas funções, que desempenha com religiosidade santa, aquiesce lentamente com a cabeça enquanto avalia as roupas lavadas e cheirosas de seu toque de fêmea feliz e que dobra com cuidado e reverência. “E o mais importante é a completa falta de consciência diante do que se avizinha assustadoramente! Todos só querem saber de ter carro e dirigir, não se importando com o que isso haverá de significar em curto prazo!” Enter.
E a tudo isso acaba que podemos chamar de hipocrisia deslavada. “Forniquem-se todos: se os capitalistas querem lucro, o planeta que vá pro inferno!”, é o que parece dizerem os que comandam o poder mundial da finança perversa, desumana, dos meios de comunicação desagragadores de valores e instituições e que têm as armas na mão para quando for necessário meter mísseis e bombas contra nacionalidades não suscetíveis à sanha devoradora dos donos do mundo. E agora vem essa história de pedofilia envolvendo o Papa. “Sim, sim, pode existir isso, sim, e não podemos apostar na santidade dos que cercam Sua Santidade. Se aconteceu, se acontece, é tomar providências, e que quem tiver culpa no cartório, que pague. Mas.... que moral tem essa imprensa porca, difusora de depravação explícita, de podridão desenfreada, para “se escandalizar” diante de qualquer coisa? Lembram do cônsul de Israel no Brasil em 2000, Arie Scher? Lembram que estourou como um traque – não tem igreja católica no meio, não vira bomba... – a notícia de que o cara era agente internacional de prostituição e que foram encontradas com o professor Georges Schteinberg, seu amigo e amante, 12 fitas de vídeo e 154 fotos eróticas de menores, e que tudo isso foi produzido na cobertura de Scher, em Ipanema, e que ele se refugiou na embaixada e se pirulitou do Brasil ajudado por poderosos – que impediram a ação da Polícia Federal – e que nunca mais se falou nisso? O juiz da Infância e da Juventude Siro Darlan lamentou a impunidade em nota à imprensa: “O bandido escapou, e a Polícia Federal sabia do caso”. Segundo matéria na Isto É de 12/7/2000, “a maioria das fotos apreendidas mostra meninas nuas na piscina, outras revelam intimidades entre o professor e o cônsul” e “uma das mensagens (que o cônsul mandava para seus amigos no mundo inteiro) seguiu com a foto de uma jovem de biquíni sentada no carro do consulado. Agora sabem que Scher está envolvido com prostituição infantil”. “Então, ‘imprensa’, como é que fica? O mundo inteiro soube disso? O Brasil inteiro? Merda nenhuma! Só ficou sabendo quem esquadrinha a revista que revelou a bagaça...”. Enter final.
“E que dizer dessa pouca vergonha de BBB, em que mulas e bugres se esfregam e trepam nas fuças do público telespectador? E que dizer de coisas como ‘dança da garrafa’, em que crianças faziam gestos eróticos dançando em trajes menores com a genitália roçando o gargalo de uma garrafa? Ora, crápulas imundos, vão lavar essa bunda!!”. Bem, nosso herói está longe de apoiar pedofilia, mas se reta com o fato de a mesma imprensa que incita à depravação venha com ares de perplexidade denunciar pedofilia no Vaticano embora cale sobre outros escândalos que não lhe interessa divulgar... “Vão pro diabo, pulhas!”, rosna Manoel. E viva Santo Expedito! Oremos. Bye, babes!

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