sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Manoel e o colapso dos institutos

Frederico Mendonça de Oliveira

“Pois é, pois pois. Fiquei sabendo, ó Maria, que uma funcionária de uma empresa foi despedida por ter aliviado seus gases intestinais não sei se com estampido, se com fetidez sulfídrica, se com os dois. Não sei quem sentiu ou ouviu o malfadado flato, o fato é que isto valeu uma demissão para a pobre emitente do gás liberado em ambiente adverso. Mas parece-me a mim e a muitos outros seres atentos para com tais fatos aberrativos ou naturais – quem não alivia seus intestinos pressionados por gases? – que livrar-se de gases é lícito, desde que não causando lesão ou dano a pessoas ou ambientes. Que te parece, ó linda? Concordas com a demissão da pobre?”, pergunta Manoel, considerando os curvilíneos volumes de sua amada, que se ajeita na cadeira para dar prosseguimento ao diálogo. Enter.
“Tu não acreditas, ó Manoel, mas acabo de dar de cara com uma notícia enviada por uma colega de escola secundária que sempre me envia fatos bizarros para curtição. Trata-se do teor de um despacho judicial tratando justamente desse assunto. Veja aqui no vídeo”. E Maria abre sua caixa postal e exibe o material para seu abestalhado Manoel. A combinação de termos e de ambientes, isto é, o juridiquês empolado usando até latim para se referir a emissões gasosas de intestinos e as imagens que passam por nossas mentes lembrando tribunais e, claro, as partes emitentes dos gases e a sonoridade característica e sempre hilariante deles acaba gerando uma propensão ao divertimento, e Manoel já olha para as palavras do texto com expressão a caminho do riso. E o texto acaba realmente risível, inusitada que é a combinação de tais conteúdos. Segue o texto. Enter.
“RECORRENTE: Coorpu's Com Serv de Produtos Para Estet/ RECORRIDO: Marcia da Silva Conceição/ EMENTA - PENA DISCIPLINAR. FLATULÊNCIA NO LOCAL DE TRABALHO.
Por princípio, a Justiça não deve ocupar-se de miuçalhas (de minimis non curat pretor). Na vida contratual, todavia, pequenas faltas podem acumular-se como precedentes curriculares negativos, pavimentando o caminho para a justa causa, como ocorreu in casu. Daí porque a atenção dispensada à inusitada advertência que precedeu a dispensa da reclamante. Impossível validar a aplicação de punição por flatulência no local de trabalho, vez que se trata de reação orgânica natural à ingestão de alimentos e ar, os quais, combinados com outros elementos presentes no corpo humano, resultam em gases que se acumulam no tubo digestivo, que o organismo necessita expelir, via oral ou anal.
Abusiva a presunção patronal de que tal ocorrência configura conduta social a ser reprimida, por atentatória à disciplina contratual e aos bons costumes. Agride a razoabilidade a pretensão de submeter o organismo humano ao jus variandi, punindo indiscretas manifestações da flora intestinal sobre as quais empregado e empregador não têm pleno domínio. Estrepitosos ou sutis, os flatos nem sempre são indulgentes com as nossas pobres convenções sociais.” Enter.
“Vê, Manoel, como tudo é tão relativo. Todos sabemos das pressões sociais agindo em nossa fisiologia, todos vivemos às voltas com evitar emitir gases em momentos ou locais considerados impróprios, mas punir quem deixa escapar um sonoro e/ou malcheiroso pum me parece algo além dos limites. Se o autor do disparo o faz de forma acintosa contra um superior, aquilo de assestar a via de liberação em direção ao endereço e deliberadamente efetuar o disparo, acredita-se até na procedência de uma justa causa. Mas se foi involuntário, se escapou, malgrado os efeitos da liberação, seja a contrariedade gerada com lidar com gases oriundos de entranhas outras e portanto portadores de conteúdos mefíticos indesejáveis para terceiros, seja pela quebra de uma convenção de compostura no trabalho, é bem vinda a indulgência para com o pobre emissor”, considera Maria diante de um olhar derretido de Manoel. O casal tem por princípio não incluir emissões quando juntos ou apenas próximos. Mas o fato de uma empresa despedir uma pobre peidante cheira a pedantismo. “Tu viste, ó Manoel, aquele vídeo no Youtube em que um funcionário recebe, em sua apertada repartição, seus colegas de trabalho que levam para ele o bolo de aniversário, e eis que o aniversariante, sem saber do séquito que invade seu espaço – ele estava de costas – ali adentrava com o bolo, emite uma bomba sonora em direção aos pobres?”, pergunta Maria. Você pode, querido leitor, assistir às cenas dessa situação que Maria lembrou, basta clicar no link abaixo. E Manoel, vendo as cenas, comenta: “Mas que podemos fazer diante de uma rata dessas senão sair correndo do local para evitar inspirar conteúdos de entranhas outras?? Aliás, foi o que me pareceu que os envolvidos fizeram...”, comenta nosso herói diante do fato inesperado vivido por todos. (http://www.youtube.com/watch?v=NkblnnAF1sE) Enter.
E Maria aponta no texto enviado por sua amiga algo que não vira antes e que corrobora suas palavras de forma inequívoca: “A imposição dolosa, aos circunstantes, dos ardores da flora intestinal, pode configurar, no limite, incontinência de conduta, passível de punição pelo empregador. Já a eliminação involuntária, conquanto possa gerar constrangimentos e, até mesmo, piadas e brincadeiras, não há de ter reflexo para a vida contratual.” E Manoel pensa nos seus longínquos tempos de escola fundamental, em que as brincadeiras com pum eram diárias, sendo verdadeiro sucesso em salas de aula – especialmente quando o risco era grande, no caso de o professor ter maus instintos – e de como isso enriqueceu sua vida com um acervo de lembranças em que a inocência ia se perdendo através de práticas de pequenos desvios, e ainda de como isso trouxe de forma indolor a compreensão da nossa falibilidade humana. Enter final.
E Manoel conta para Maria sua experiência com o Realismo português, quando, lendo O Crime do Padre Amaro, deparou com aquela abertura falando de o pároco José Miguéis, de Leiria, não ter compostura de sacerdote, chegando a arrotar no confessionário e a desencorajar com maus modos as fiéis carolas que lhe vinham falar de jejuns: “Ora, coma-lhe e beba-lhe, criatura!”. Maria se deliciava ouvindo a fala de Manoel, cheia de deslumbramento, e acabou por falar sobre a falência irremediável de todos os institutos: “Tu vês, ó Manoel, que a estrutura da lei, a considerar o crescimento desordenado das populações Brasil a dentro e mundo afora, chegou a um impasse de pane total. Todos os valores se relativizaram a tal ponto que seria necessário reformular tudo, desde a Constituição até os conteúdos de cargos de comando, e com isso estaríamos diante de tamanha e tão árdua tarefa que a vida passaria a andar para trás. Quanto maior o número de leis, pior a república, diz o adágio latino – mala raepublica plurimae leges –, e vemos o colapso geral quando toda uma estrutura da Justiça é acionada por conta de um simples pum!”. E Manoel: “É, minha linda: a civilização acabou!”, e os dois deixam a adorável copa-cozinha e fica lá o gato dormindo, dando um toque de beleza à cena. E viva Santo Expedito! Oremos. Bye, babes!
Ah! Vale lembrar: estamos sob censura desde 11/04/08, aliás, mantida por Gilmar Mendes, e a restrição vai totalizando 939 dias. Abraço pra turma do Estadão, há 490 dias também sob mordaça...

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Manoel e a anunciada prisão de Tiririca

Frederico Mendonça de Oliveira

“Não há mais sentido em nada nesse Brasil, ó Maria! Será que nós é que estamos amalucados e o Brasil está em perfeito estado de saúde mental?? Agora o promotor Maurício Lopes, segundo a Folha, ‘pediu à Justiça que o deputado eleito Francisco Everardo Oliveira Silva (PR-SP), o Tiririca, seja condenado a cinco anos de prisão. Essa é a pena máxima para o crime de falsidade ideológica, do qual o humorista é acusado.’, diz a notícia. Não existe muito a duvidar nessa história de o Tiririca ser candidato: foi um golpe bem tramado por espertalhões, uma armação que tentou antes outros nomes conhecidos, como o Dráuzio Varela e uma certa Sabrina Sato, que dizem ser ‘apresentadora’ – cá pra nós, ó linda, apresentadora de quê?? –, e que acabou encontrando o Tiririca, e ele topou a aventura de cara, seguramente porque palhaçada é seu feitio e sua função nesta vida”, expõe Manoel a sua amada, que dobra roupas cheirosas que ela acabou de tirar do varal lá embaixo, com religiosidade total. A reportagem ainda aponta aspectos que seriam sustentação técnica para o pedido de prisão: “Segundo o promotor, Tiririca entregou à Justiça Eleitoral declarações falsas sobre sua alfabetização e a propriedade de bens. A lei prevê que a punição no caso pode ir de um a cinco anos de prisão. ‘Pedi a condenação na pena máxima tendo em vista a repercussão social do crime e a natureza da falsificação, que foi feita para produzir uma fraude eleitoral de rumorosa consequência jurídica e social’, afirmou Lopes”, segundo a mesma Folha. A colunista Mônica Bérgamo também aborda a coisa, pendendo para o lado do palhaço: “Ainda às voltas com acusações de que não saberia escrever e por isso não poderia assumir o cargo de deputado federal, o palhaço Tiririca teve parecer favorável da Justiça Eleitoral para a aprovação de suas contas de campanha”, diz a pregoeira dos ricos da Paulicéia e do Brasil, quiçá do mundo. Em outro momento, cai no saco o que se segue: “A atuação do promotor no caso já levou a Corregedoria do Ministério Público a abrir uma investigação para apurar eventuais excessos dele na busca por uma condenação do humorista”. Enter.
“Enquanto isso, ó Maria, o crime avança no nosso saudoso Rio de nossos primeiros vagidos de amor. Os revoltosos – que o sistema chama de bandidos – estão provando por A mais B que não há mais o que os detenha, que estão de tal forma integrados e inerentes ao tecido social que não há mais possibilidade histórica de extirpá-los. Eles são o pecado essencial do sistema se manifestando de forma irrefreável. Para exterminar essa manifestação, seria necessário exterminar a origem dela, e a origem dela é o próprio corpo social... que se deixou cooptar pela malignidade do capitalismo brasileiro e carioca em especial, e agora temos um terrível corpo social duplo indissociável, como gêmeos toracópagos dotados de um só coração. Se se tentar livrar um do outro, os dois morrem, porque o coração é único... E tudo isso nos leva a perguntar o que Pilatos perguntou: ‘Quid est veritas?’, na verdade contendo, isto, o sentido oculto da percepção da decadência iminente do império romano. Mas para nós aqui, ó linda, fica a coisa na superfície mesmo. É que o chamado Congresso congrega NADA: congrega mesmo é uma caterva de desconhecidos que em nada representam o povo que os guindou a tal condição. ‘Onde está a verdade?’ Esta inversão de valores revela o erro, a malignidade presente na gênese do processo político-social, e do que decorre a sociedade entrar em processo de autofagia e de conflagração. Células em confronto mortal, em suma, quando deveria ser o oposto!”, considera Manoel chapado com o paroxismo que explode no Rio e que brevemente acabará tomando todo o território nacional como nova instituição viva. Enter.
Toca o pianista John Bunch na Jazz Radio (www.jazzradio.com) com seu trio, uma linda balada, I’ll Get By, um requinte só. Enquanto isso, no Rio, a guerra se agrava. Manoel considera fatos e conteúdos: “A população até já considera que chacinar os revoltosos – na verdade, excluídos, não propriamente marginais, mas, sim, marginalizados –, seja solução. Mas não é: é desespero de causa, e isso não traz solução. O erro vem de longe, e não há como retomar o começo e repensar o rumo, corrigindo o desvio que gerou essa desgraça toda. Aliás, isso começou a se agravar estupidamente concomitantemente à entrada da Globo no ar. Alguns lúcidos dirão que a violência se desenhou, gestou e nasceu nos anos da ditadura. Certo, mas não se pode esquecer que a Globo entrou no ar no verão de 1964/1965, e agiu contra a população de forma imensamente mais destrutiva que 20 ditaduras militares... As ditaduras do Chile e na Argentina mataram horrores, mas os dois países não despencaram em valores sociais como nós, porque lá não teve Globo, não teve a destruição institucional que esse horror televisivo detonou aqui. A explosão populacional e a deseducação intervencional chegando à piada da boçalização teratogênica via TV não poderiam ter chegado senão a essa atual desgraça, uma conjuntura em que os opostos estão caoticamente abraçados numa dança mortal e trágica!”, fala Manoel depois de constatar que a ação policial e militar deixam cair a máscara. E Maria, depois de organizadas todas as roupas, intervém. Enter final.
“Pois isso vai dar em mais derramamento de sangue, vai gerar um círculo vicioso em que o lado chamado criminoso estará cumprindo é o papel que deveria ter sido desempenhado pela chamada boa sociedade. Hoje estamos à mercê de quem? Estamos desarmados, de joelhos! As instituições foram desmanteladas todas, o marginalizado está em sua condição de opositor do regime e está armado – e ataca pra valer. E nós? Adubamos isso com nossa omissão e aceitação do cinismo desse sistema comandado por pulhas, sudras, canalhas, patifes, vilões, seja qual for a colocação política deles, que pululam nos três poderes e em tudo que cerca essa arquitetura infernal??? Somos cínicos, cagões ou pusilânimes? Cínicos são os que só almejam benefícios; cagões, os que se defecam só de pensar em assumir qualquer responsabilidade; pusilânimes, os que preferem apodrecer confortavelmente com carrão na garagem e inserção social através de planos e mais planos. Seria isso uma estrutura LEGAL???”, indaga Maria com olhos ardentes de indignação. Enter final.
“O que nos resta é a mais cínica de todas as decisões, mas é a única alternativa: ficar na moita em casa, quietos, rezando para que o ódio social não nos atinja. A corrupção já nos alvejou, mas isso acaba saindo na urina, porque lidar com pulhas à distância é suportável e superável. Mas o cinismo, em certas horas, é a saída digna, por mais paradoxal que pareça. O Brasil já era, o mundo já era. Não poderemos reverter isso. É ter fé em Deus e que venha o que vier: juntos enfrentaremos qualquer coisa”, conclui Manoel sob o olhar concentrado de sua Maria. “A nós nos resta o nosso amor e Deus, filho!”, conclui Maria. E o mundo lá fora vira apenas um pesadelo, e a paz inunda o espaço em que manda o Cristo. E viva Santo Expedito! Oremos. ’Té a próxima, babes!
Ah! Vale lembrar: estamos sob censura desde 11/04/08, aliás, mantida por Gilmar Mendes, e a restrição vai totalizando 932 dias. Abraço pra turma do Estadão, há 483 dias também na mordaça...

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Manoel e “A Corte dos Padrinhos”

Frederico Mendonça de Oliveira

“Veja aqui, ó Maria, o que saiu na tal da Veja: sob o título de ‘A Corte dos Padrinhos’, tendo como subtítulo ‘A nova corregedora do Conselho Nacional de Justiça diz que é comum a troca de favores entre magistrados e políticos’, e ainda mostrando pequeno detalhe com os dizeres ‘PROMISCUIDADE – Eliana Calmon: Para ascender na carreira, o juiz precisa dos políticos. E eles cobram a conta’, a revista dos ricos da Pindorama mostra as entranhas da atual Justiça, é de estarrecer! Estaria chegando o Armagedon??” pergunta-se Manoel, abestalhado com tamanha explicitação de desvalores. Comecemos por dar uma olhada na abordagem da matéria. Enter.
“A ministra Eliana Calmon é conhecida no mundo jurídico por chamar as coisas pelo que elas são. Há onze anos no Superior Tribunal de Justiça (STJ), Eliana já se envolveu em brigas ferozes com colegas – a mais recente delas com o então presidente Cesar Asfor Rocha. Recém empossada no cargo de corregedora do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), a ministra passa a deter, pelos próximos dois anos, a missão de fiscalizar o desempenho de juízes de todo o país. A tarefa será árdua. Criado oficialmente em 2004, o CNJ nasceu sob críticas dos juízes, que rejeitavam a ideia de ser submetidos a um órgão de controle externo. Nos últimos dois anos, o conselho abriu mais de 100 processos para investigar magistrados e afastou 34. Em entrevista a VEJA, Eliana Calmon mostra o porquê de sua fama. Ela diz que o Judiciário está contaminado pela politicagem miúda, o que faz com que juízes produzam decisões sob medida para atender aos interesses dos políticos, que, por sua vez, são os patrocinadores das indicações dos ministros.” Sob o impacto de tal reportagem, Manoel não pode deixar de considerar que o Brasil da cracolândia e do mensalão de repente pode dar sinais de regeneração de seus tecidos corrompidos. E apresenta para sua sempre atenta e absorvente Maria o teor da matéria da revista – que ele jamais lê senão quando é necessário executar varreduras abrangentes na imprensa sobre algum assunto que entra em cadeia. Esta Veja apareceu por acaso – ou “por acaso”, que nosso herói não é nada cego... Enter.
“Eis a bomba, quase inacreditável: a corregedora solta os pitbulls, ó linda: respondendo a uma pergunta do repórter Rodrigo Rangel, sobre terem pipocado tantas denúncias de corrupção no Judiciário, ela disparou: ‘Durante anos, ninguém tomou conta dos juízes, pouco se fiscalizou. A corrupção começa embaixo. Não é incomum um desembargador corrupto usar o juiz de primeira instância como escudo para suas ações. Ele telefona para o juiz e lhe pede uma liminar, um habeas corpus ou uma sentença. Os juízes que se sujeitam a isso são candidatos naturais a futuras promoções. Os que se negam a fazer esse tipo de coisa, os corretos, ficam onde estão.’ Então quer dizer que... bem, deixemos que fale Eliana Calmon. ‘O ideal seria que as promoções acontecessem por mérito. Hoje é a política que define o preenchimento de vagas nos tribunais superiores. Os piores magistrados terminam sendo os mais louvados. O ignorante, o despreparado, não cria problema com ninguém porque sabe que num embate ele levará a pior. Esse chegará ao topo do Judiciário’. Com mil meirinhos, ó Maria, onde estamos???”, pergunta Manoel entre estupefato e boquiaberto, a pólvora da elucidação fedendo no ar. Enter.
“Indagada sobre os tribunais superiores, para os quais o presidente da República é que nomeia, olhe o que ela solta: ‘Estamos falando de outra questão muito séria. É como o braço político se infiltra no Judiciário. Recentemente, para atender a um pedido político, o STJ chegou à conclusão de que denúncia anônima não pode ser considerada pelo tribunal (O ministro Cesar Asfor Rocha se bateu com ela nessa questão, veremos a seguir). É uma tese equivocada, que serve muito bem a interesses políticos. O STJ chegou à conclusão de que denúncia anônima não pode ser considerada pelo tribunal. De fato, uma simples carta apócrifa não deve valer. Mas, se a Polícia Federal recebe a denúncia, investiga e vê que é verdade, e a investigação chega com todas as provas, você vai desconsiderar? Isso não tem cabimento. A denúncia anônima só vale se o denunciado é traficante? Há uma mistura e uma intimidade indecente com o poder”. E Eliana Calmon prossegue: ‘Para ascender na carreira, o juiz precisa dos políticos. Nos tribunais superiores, o critério é única e exclusivamente político’. É de doer, ó linda!”, murmura Manoel, acabrunhado. Enter.
A reportagem/entrevista prossegue, e a corregedora revela ter sido promovida pela via política SIM, mas se negando sempre a agir sob pressões e conchavos. E garante que jamais teve nenhuma cobrança pesando sobre ela, mostrando que vira bicho se isso acontecer – e que, por isso, não acontece. Mas lá veio mais chumbo: avaliando a conduta dos magistrados, ela enche a boca para criticar duramente a vaidade e a empáfia que dominam a classe: “Nós, magistrados, temos a tendência a ficar prepotentes e vaidosos. Isso faz com que o juiz se ache um super-homem decidindo a vida alheia. Nossa roupa tem renda, botão, cinturão, fivela, uma mangona, uma camisa por dentro com gola de ponta virada. Não pode. Essas togas, essas vestes talares, essa prática de entrar no recinto de julgamento) em fila indiana, tudo isso faz com que a gente fique cada vez mais inflado. Precisamos ter cuidado para ter práticas de humildade dentro do Judiciário. É preciso acabar com essa doença que é a ‘juizite’”. Enter.
“O já citado Cesar Asfor Rocha é candidato a vaga no Supremo. Segundo consta, minha linda, ele estaria contra haver, na raiz de um processo que tenha passado por investigações e caudaloso levantamento de provas, uma denúncia anônima. Eliana e ele discordaram, e ela vê nisso vestígio de aliança política na atitude dele. Na verdade, onde quer que se trabalhe ou viva hoje, topamos com deformidades as mais gritantes. Veja o caso de nosso amigo Fox, um paladino da legalidade neste arraial sofrendo perseguições covardes e até criminosas, porque se colocou de forma serena mas intransigente pelo cumprimento da lei. É nojento vermos os próprios cidadãos exercendo discriminação, constrangimento e agressões de toda sorte contra um cidadão UNICAMENTE PORQUE ELE CUMPRIU SEU DEVER DE CIDADÃO!!!, ó linda!, e isso é Brasil, mas isso também é mundo, e o Cristo sabia disso!...”, conclui Manoel ressabiado. Enter final.
Maria acaba que fala: “Parece que temos mais uma mulher para mudar o rumo das coisas na Pindorama, ó Manoel... mas não é bem isso: existem as Erenices por aí. Eliana Calmon é apenas infensa a corrupção. Existem outros, e oremos para que mais e mais vão chegando os libertadores. Eles são do Cristo!...”, encerra Maria com o gato embolotado em seu colo, sob o olhar enternecido de um Manoel esperançoso. E viva Santo Expedito! Oremos. Bye, babes!
Ah! Vale lembrar: estamos sob censura desde 11/04/08, aliás, mantida por Gilmar Mendes, e a restrição vai totalizando 925 dias. Abraço pra turma do Estadão, há 476 dias também na mordaça...
Postado por Frederico Mendonça de Oliveira - Fredera

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Manoel considera a Justiça e a “Justiça”

Frederico Mendonça de Oliveira

“Veja, ó Maria, que patacoada vai aflorando nos anais (êpa!) do poder constituído na Pindorama: as autoridades que deveriam zelar pelo rigor da aplicação da lei em todos os âmbitos, especialmente se são eles os autores de delitos, querem ser protegidos se flagrados cometendo esses mesmos delitos, o que dá à lei duas caras, e isso é simplesmente o escancaramento do estabelecimento de dois pesos e duas medidas no corpo da Justiça. Bem que muitos gritam que a lei é feita para os ricos, o que, a ser verdade, definitivamente não nos contempla, huahuahuá!!!”, e nosso herói, tomado de humor vertical logo na manhã da quinta-feira passada, quando viu a manchete do JB Online, come suas bananas depois de jogar outras para os sabiás, sanhaços, cambacicas, bem-te-vis, gaturamos e saíras que acorrem ao telhado da edícola para se alimentar da ração a eles carinhosamente destinada. Manoel e Maria têm o consolo de serem visitados por essas maravilhas aladas de Deus diariamente, enquanto que em torno de sua casa bestas aliciadas pela alucinação do poder pululam em festim diário da boçalidade. “Pois veja que notícia nos mandam nas fuças logo de manhã, minha linda: ‘Punição maior para juízes empaca na Câmara - Ana Paula Siqueira, de Brasília - Embora tenha sido aprovada por unanimidade pelo plenário do Senado, a proposta de emenda à Constituição (PEC) que prevê a demissão – e não a aposentadoria antecipada – de juízes que cometerem faltas graves recebeu parecer contrário na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, ontem, um dia depois que o presidente da Associação dos Magistrados do Brasil, Mozart Valadares, visitou o presidente da CCJ, o deputado Eliseu Padilha (PMDB-RS). O parecer, no entanto, não significa o fim da linha para a PEC.
Em seu relatório, Padilha considera a proposta inconstitucional por violar a vitaliciedade dos membros da magistratura. O relator argumenta que os direitos constitucionais garantem independência ao julgador. Segundo ele, acabar com a garantia da vitaliciedade abrirá perigoso precedente para que os juízes não alinhados com a cúpula dos tribunais possam ser excluídos injustamente da magistratura.’, e Manoel, depois de ler esta fala tão estranha para sua atenta Maria, diverte-se com o emaranhado de maracutaias e imperfeições que enfeitam o cotidiano de nosso deletério poder constituído. “Só falta dizerem que querem dispor de toda a blindagem possível para que sejam intocáveis, desfrutando de um rol de benefícios e favorecimentos, isso é o que aflora dessa fala desse Padilha, pelo menos para o alcance de meu pobre bestunto!, e ainda querem brecar o Tiririca!”, dispara nosso herói, enojado com a desfaçatez de entidades doentias que pululam em Câmaras e quejandos. Enter.
Mas não fica por aí a bronca santa de nosso herói. Um amigo de arraial próximo, aliás provecto jazzista e atento observador da bosta brasilis, mandou esta pérola que tem como protagonista o excelso e divinal ex-presidente do Supremo, Gilmar Mendes: “Protógenes é condenado por crimes na Operação Satiagraha: pela primeira vez na história do Judiciário brasileiro, o distinto público tem notícia de uma decisão da Justiça Federal, primeiro no PIG (Partido da Imprensa Golpista). Trata-se de uma delirante decisão (figura nisso o nome Ali Mazlun) que condenou o ínclito delegado Protógenes Queiroz a atender a vítimas de queimaduras. A delirante decisão condenou o ínclito delegado por forjar provas, espionar presidente da República e assumir o controle da ABIN com o intento mediático de se eleger deputado federal. O delírio tem um objetivo explícito de impedir que o ínclito delegado se diplome deputado federal e possa subir à tribuna para ler o que ainda não se conhece da Operação Satiagraha. A decisão delirante foi tomada por um conhecido juiz federal que se livrou de boa por causa de uma decisão suprema do ex-Supremo Presidente Supremo do Supremo Tribunal Federal. Aquele que maculou irremediavelmente a imagem do Judiciário brasileiro ao conceder em 48 horas dois Habeas Corpus ao passador de bola apanhado no ato de passar bola Daniel Dantas. Impedir que Protógenes Queiroz assuma a cadeira de deputado federal é o sonho de consumo do Daniel Dantas. Que agora, por coincidência, é o que pretende a delirante decisão publicada no Conjur, também conhecido como Estadão. Daniel Dantas continua solto. E o ínclito delegado vai ter que pensar queimaduras. Viva o Brasil!”. “Que tal, ó Maria?? Condenam o delegado que agiu contra a bandidagem e mantêm a liberdade para o notório salafra... não lhe parece algo parecido com a experiência pessoal de cada um de nós, ó linda?”, brinca Manoel diante de tão inspiradora constatação. E nosso herói logo bota pra funcionar sua bem treinada cachimônia, voltando à carga. Enter.
“Tu lembras do Protógenes, ó minha deusa? Pois bem. Quando da prisão do Paulo Maluf, anos atrás, um fotógrafo captou um flagrante da chegada da Blaser da PF, dentro da qual se viam, em primeiro plano, o motorista e o acompanhante deste. Ao fundo, ensombrecido, o rosto patético de Paulo Maluf, que ocupava o banco traseiro. Essa foto saiu em manchete de primeira página da Folha. Detalhe: o cara ao lado do motorista ostentava um boné, que tinha escrito na parte frontal, simplesmente ‘ISRAEL ARMY’. Ora porra, com mil engravatados: esse boné era apenas enfeite? Seria algum brinde que o cara exibia por esporte, por exercício de humor (negro, por sinal)? E quem seria o cara? Estaria mesmo a serviço de Israel ou apenas se dava o direito de brincar com a verdade ao usar tal boné em missão oficial? Pois veja, ó linda: anos depois, lendo uma porcaria de matéria sobre o escândalo envolvendo o filho do Tuma (parece que secretário de Justiça, coisa por aí), um que parece um cachaço, dei de cara com uma foto de um sujeito envolvido no curuquerê com o tal Tuminha, e que me pareceu MUITO FAMILIAR. Na legenda, o nome dele, veja só: Protógens Queiroz. Pensei, pensei, não matei a charada. E o dia foi indo, até que veio o estalo: ERA AQUELE DO BONÉ NA BLASER EM QUE LEVAVAM O MALUF!!! Que bosta é essa? Que cipoal emaranhado está virando o poder!” Enter final.
“Agora o mesmo Protógenes é eleito deputado federal no vácuo do Tiririca, é condenado não se sabe por que vestal (Houaiss, 2-2) do Olimpo das Divindades do Paço de Radamanto da Pindorama, e o banqueiro envolvido com sujeira braba está aí, soltinho da silva, com aquele semblante de foca distraída, foca fazendo cara de paisagem ártica. E ficamos sem saber onde entra – e por que diabos – aquele boné com aqueles dizeres ‘Israel Army’ enfiado na cuca do Protógenes naquele dia em que Maluf ingressou em curta temporada de algemas e sol nascendo quadrado”, conclui nosso herói, enquanto Maria prossegue com um olho no peixe, outro no gato, afundada em seus estudos com que a Federal a rouba de seu amado. E viva Santo Expedito! Oremos. Té pra semana, babes!
Ah! Vale lembrar: estamos sob censura desde 11/04/08, aliás, mantida por Gilmar Mendes, e a restrição vai totalizando 918 dias. Abraço pra turma do Estadão, há 469 dias também na mordaça...

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Manoel, Maria e o caso de amor na escola do Rio

Frederico Mendonça de Oliveira

“Veja esta, ó Maria: a professora carioca levava a namoradinha de 13 anos pro motel e rolava coisa real entre as duas. Uma outra menina de mesma idade esteve nesses encontros algumas vezes, mas jura não ter participado nem ter sido alvo de qualquer interesse da professora. ‘Só olhava’, segundo ela. Bem, e agora? Vem a polícia salvar a moralidade da ‘pátria’ e são acionadas as autoridades e instituições, incluindo programas sensacionalistas de débeis mentais explorando essa titica... e daí? Até onde esse relacionamento pode produzir danos reais à sociedade ou a pessoas?”, pergunta Manoel a sua atenta Maria, mulher de alto quilate, que avalia a questão a partir de sua consciência do universo da mulher. “Eis aí uma questão para sérios estudos, ó Manoel. A meu ver, não é caso de polícia, porque a menina está aí tranquila e manifestando sua posição de forma serena e plena de convicção. Ela diz amar a professora, e isso é digno de consideração. A propósito, sai um cafezinho aí? Faço eu?”, pergunta Maria com olhar aquilino engendrando avaliações para o aprofundamento que já começa sobre um trelelê de imprensa nestes dias de lixo. Enter.
Café perfumando a copa, Maria abre: “Vamos à investigação. Veja o que diz a menina: ‘(Menor diz amar professora) A menor X., de 13 anos, afirmou que ama a professora de Matemática Cristiane Teixeira Maciel Barreiras, de 33 anos, e que vai esperar até que ela seja solta’. Bem, isso cria uma linha de avaliação. Uma pessoa, por ser menor, não tem sentimentos? E prossegue amando quem a estupra e corrompe, como acusam os mantenedores da moralidade pública? ‘Eu continuo amando ela (sic), não vou deixar de amar pelas coisas que estão acontecendo e, se for preciso, espero até ela sair da cadeia — disse a garota’. Caraco, ó Manoel, meu coração de mulher enxerga o sentimento real dessa menina! Pelo menos por agora, enquanto não balançam, digamos, a médio prazo, por pressões diversas, a estrutura emocional da menina. Além disso, não se trata de um episódio, de um fato isolado, em que uma pessoa experimentada em seduzir conduz uma adolescente inexperiente a um episódio inesperado, marcado por confusão e imprevisibilidade, coisas combinadas a espírito de aventura e transgressão de convenções estáticas, tudo típico de juventude. Enfim, não foi um incidente fortuito, algo inopinado: as duas vinham se relacionando desde maio, ou seja, tem ESTABILIDADE NA RELAÇÃO, são no mínimo cinco meses de affair! Isso tem de ser levado em conta! A firmeza da menor desmonta o espírito dos acusadores, que a querem indefesa sob a ação de um monstro deformador!... Pensando bem – e aliás pensar bem é o que mais fazemos, e o que menos fazem os brasileiros hoje, quiçá os terráqueos em sua maioria –, essa menina de 13 anos pode ser muito mais madura emocional e sexualmente do que toda essa matilha de hipócritas ladrando pela moral pública!”, fala a linda Maria com olhar ardente, sob a indignação ainda viva de ter visto um âncora, aliás notório tipo desprezível, em programa sensacionalista de TV em que acusa a professora Cristiane de crime hediondo. Enter.
A professora, segundo notícias esparsas, foi presa em flagrante, na quarta-feira, indiciada por estupro de vulnerável e corrupção de menores. Estupro de vulnerável é uma figura penal recente, de 2009, e seu texto diz: “Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 (catorze) anos”. A pena cominada para o caso é reclusão, de oito a 15 anos. Maria e Manoel se entreolham entre abismados e indignados, pois fica bem claro que a lei passa a presumir questões, sendo já em seu texto um pré-julgamento! Antes da promulgação dessa lei, a realidade era outra, como se segue: “No Direito Penal brasileiro, estupro de vulnerável é um tipo penal criado com a lei 12015 de agosto de 2009, que substituiu o antigo artigo 224 do Código Penal, que por sua vez tratava da presunção de violência. Com o novo crime, a presunção de violência passa a ser, em tese, absoluta, e não mais relativa. Enter.
“Ora, pois! Então o sentimento da menina é completamente invalidado! A Justiça, portanto, neste caso, se apodera dos conteúdos que envolvem a menina, que é, aparentemente, pelo menos, muito mais madura e lúcida que a desses guardiães da moralidade pública!...”, comenta sorridente Manoel, vendo também nos olhos vivos de sua amada a percepção da patacoada. “Pois bem!”, ataca Maria: “Esses guardiães – prefiro guardiães a guardiões; parece menos grosseiro – da moral e dos costumes não piam diante da podridão a que TODA A SOCIEDADE, SEM LIMITE DE IDADE, tem acesso através da internet. Todos podem ver tudo que quiserem, sem qualquer medida preventiva. Crianças têm, também, na TV aberta, a mais virulenta campanha diária de exibição de violência e sexo, e essas maravilhas, que brandem essa lei 12015 em defesa de uma menor mais convicta de sua posição do que eles, ficam aí arrotando, bostejando e peidando leis e padrões enquanto a menina sofre com o afastamento e com o que fazem com sua amada. Estranho, isso: parece que o que move a mãe é um tipo de ciúme, e o que move os guardiães é uma grande insegurança... e, quem sabe, bem no meio deles, rola pedofilia direto e reto, como acontecia anos atrás com aquele cônsul de Israel no Rio, pedófilo de nome Arie Scherr, que a polícia tratou de livrar de qualquer encrenca mesmo estando tudo comprovado por fotos, filmes e material em computadores... Os menores aliciados por esse cônsul não tiveram ninguém por eles. Essa lei, ó Manoel, não vigorava ainda, deve ser isso...”, fala Maria com olhar mordaz, quase sorrindo mas mantendo a linha que é seu estilo nobre de compostura fidalga lá de Torres Vedras. Enter final.
“Pensando bem, ó Manoel, é um belo romance. Esta menina deve ser daquelas como a da piada, em que uma preocupada mãe chega pra filha de 13 anos e fala; ‘Minha filha, precisamos ter uma conversa sobre sexo’; ao que a filha pergunta: ‘O que você quer saber, mãe?’. Parece que é o que acontece nesse caso: a menina deve ter maturidade muito maior que a da mãe... e deve viver com a professora uma relação muito mais real, consistente e profunda que a que presenciou entre os pais. Conheço um caso em que meninas da vizinhança, pelos dez anos, faziam verdadeiras surubas, entre bonecas e panelinhas e fogõezinhos de brinquedo... e os guardiães não enxergam isso?? Não, isso não é caso de polícia!”, encerra Maria sob o olhar feliz de Manoel e a chegada sinuosa do gato. “Vai chegar a hora em que ninguém mais vai entender é porra nenhuma!!”, exclama nosso herói sob o olhar filosófico de sua Maria, já de gato ao colo. E viva Santo Expedito! Oremos. Bye, babes!
Ah! Vale lembrar que estamos sob censura desde 11/04/08, e que a restrição já vai totalizando 911 dias. Abraço pra turma do Estadão, que também atura isso há 462 dias...

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Manoel, Tiririca e o fio da meada perdido

Frederico Mendonça de Oliveira

“Ó Maria, tu não terias votado às ocultas no Tiririca, sei que não é teu feitio. Mas muita gente fez isso. Sendo secreto o voto, muita coisa acontece que acaba surpreendendo depois... Será que todos os milhão e quatrocentos que votaram no palhaço revelaram sua intenção? Sei lá... Lembro-me de um candidato a vereador num arraialito próximo a este que, depois da contagem de votos, verificou ter tido apenas UM, o dele. Nem a mulher nem os filhos – que dirá amigos ou outros – votaram nele!... Na segunda-feira depois da apuração vi o pobre subindo a rua principal do arraial, semblante arrasado. Exibia isso publicamente, manifestava-se deprimido convicto. Pois a ‘mulher pera’ (ou a ‘melão’, uma das duas) não teve um voto sequer; então nem ela teria votado em si!”, fala divertido Manoel, sob o olhar atento e prenhe de sua Maria, envolvida com seus papéis de estudo. Enter.
E Manoel prossegue em solilóquio, ferino para com o cenário surrealista que se nos apresenta: “Mas a coisa agora entrou em outra dimensão: passado o impacto da votação de quase milhão e meio no palhaço, agora vêm a ‘justiça eleitoral’ e as outras ‘justiças’ querendo brecar o ingresso do infeliz na ‘vida pública’. Não o querem ‘parlamentar’, pelo que vemos. E o Estadão publica essa belezoca, pasmem todos: ‘Segundo ele (Tiririca), os anos de atividade circense causaram lesão que dificulta a aproximação do dedo indicador ao polegar. A confissão de Tiririca confirma laudo do Instituto de Criminalística, elaborado a pedido do promotor eleitoral Maurício Antonio Ribeiro Lopes. Peritos do IC concluíram que o autor dos manuscritos examinados possui uma habilidade gráfica maior do que aquela que ele objetivou registrar ao longo do texto da declaração. No dia 1º deste mês, o promotor apresentou à Justiça pedido de cassação do registro de Tiririca sob a acusação de falsidade documental e ideológica’. Ora, pois, quanta fanfarronice institucionalóide, parece uma ressaca depois do porre eleitoral com que o palhaço e a população brindaram a história recente deste covil de safardanas que virou o edifício político brasileiro e a arquitetura de poder em geral, em todas as dimensões e instâncias! Que confa! O palhaço afirma que tem dificuldade de aproximar polegar do indicador por causa de lesão. Os caras dizem que não? Qual é, afinal?? E veja bem, ó Maria, tem mais merda debaixo desse tapete. Afinal, a consagração do Tiririca é uma contrafação feíssima para o sistemão que está armado aí...!”. Maria remexe em seus papéis de estudo, recompõe os coxões cruzados, respira fundo pensativa e prossegue atenta. Enter.
“Ora pois: por que só depois de o palhaço lavar a égua no pleito os ‘técnicos’ nisso e naquilo vêm trêfegos investigar isso e aquilo? Por que não investigaram no ato da inscrição do cara? Por que não puseram em dúvida a capacidade dele antes de rolar o processo eleitoral? Todos dormiam? Agora, quando até os gringos globalizadores no Exterior caem de pau fazendo galhofa com a sensacional vitória do palhaço e do que isso estampa como síntese de cena política no Brizêu, os ‘defensores da lei e dos valores democráticos’ querem varrer de cena a vergonha. Sim, a VERGONHA: tantos professores, tantos juristas, tantos jornalistas, tantos estudiosos, tantos artistas da pesada, todos socados em empreguinhos e em instituiçõezinhas de merda lutando pra ganhar uma miséria de sobrevivência poderiam se habilitar, e justamente os apedeutas de estádios, de circos televisivos e de palcos da miséria sonora e da mídia estupidificante se apresentam pra representar a população brasileira!... O que salta aos olhos é que os bons citados acima não ousam tentar ingressar no dantesco meio político por se sentirem incapazes de navegar em águas tão imundas e tétricas... Aliás, não foi o maestro petista quem disse que o que interessa é o jogo do poder, não a ética? Se é assim, os bons e os capazes fogem disso. Não querem meter a mão na merda, como disse outro global em fala combinada à do tal ‘maestro’. Se o Martin Luther King disse que ‘O que me preocupa não é o grito dos maus. É, sim, o silêncio dos bons’, não significa admitir que só existam maus e bons. A meu ver, linda, existem maus operando, maus quietos e só na espera de oportunidades – e esses são muitos, muitos! – e maus sem iniciativa nenhuma. Também existem bons, mas não podemos esquecer certa frase lida em manual muito discutido: ‘É preciso ter em vista que os homens de maus instintos são mais numerosos que os de bons instintos’. Talvez por isso a Humanidade viva em regressão, a despeito de progressos, por sinal a cada dia mais duvidosos, como os da ciência e da tecnologia”. Enter.
Maria finalmente intervém: “Ora, é o caso de perguntar se Tiririca é bom ou mau. Ou se quem o julga agora avaliando suas condições para exercício da legislatura para que foi ribombantemente eleito é bom ou mau. ‘Quid est veritas?’, perguntou Pilatos diante do Cristo, embananado frente a uma contradição viva entre condenar um inocente por pressão da multidão conduzida por agentes e inocentar um salteador notório que a mesma multidão ‘queria’ livre. Pois o Cristo teria (usando as mesmas letras!) solucionado o enigma: ‘Est vir qui adest’, isto é, ‘é o Homem a sua frente’. Mas o diabo é que não temos hoje nem Cristo nem Pilatos, só temos judas de todas as laias, e nosso tempo não trará soluções, só catástrofes e desgraças. Estão tentando crucificar o Tiririca depois de alçá-lo – QUEM??? – a uma glória que ele não sonharia alcançar. Hoje ele é, por ação de terceiros, uma INSTITUIÇÃO, que saiu pela culatra dos que articularam isso. Por que, então, eliminar o pobre depois de o erigirem? E teremos mais um episódio de cinismo revelando a podridão geral: a sociedade se dividirá entre detratores e defensores do Tiririca, e não virá uma decisão de consenso, mas o que o dedo invisível apontar. O mesmo dedo que ‘libertou’ Barrabás. Doa em quem doer, seja certo ou errado, falso ou verdadeiro, o dedo invisível imporá o resultado”, conclui Maria entre séria e marota, convicta de estar sendo clara e muito bem entendida... Enter final.
“Pois aí está, ó linda: até lamento não ter votado no cara. Aliás, seria uma beleza TODO O BRASIL votar no Tiririca: seria o MAIOR PLEBISCITO JÁ REALIZADO NA HISTÓRIA DA PINDORAMA!, pense bem! Por isso fantasiei que poderias ter em segredo votado nele, porque isso ajudaria numa definição que o tempo, muito mais que a História, revelará como sendo a verdade! Podem esses moralistas de ocasião pular como quiserem, mas a verdade está definida: se o Brasil se tornou um circo, seria perfeito que toda a população elegesse um palhaço, ó linda! Que bufonada! Jamais Tiririca teria pensado em nos divertir com tamanha piada!!!”, exulta Manoel. Maria se mantém com semblante de Mona Lisa e considera: “Até me comichou por vão desaforo votar no palhaço – uma verdade para esse circo –, mas tu sabes que não vergo a pruridos. Mas que nos tentou a todos nós, lá no fundo, isso tentou!”. E Manoel se perde no profundo dos olhos castanhos límpidos e sinceros de sua amada. E viva Santo Expedito! Oremos. Bye, babes!
Ah! Vale lembrar que estamos sob censura desde 11/04/08, e que a restrição já vai totalizando 904 dias. Abraço pra turma do Estadão, que também atura isso há 455 dias...

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Manoel, uma "ressurreição" e o caso Tiririca

Frederico Mendonça de Oliveira

“Ó Maria, veja o que transcrevi de uma notícia de primeira página em jornalão!”, e nosso herói passa a ler em voz alta um texto em que se exercita em sua tarefa de jornalista: “Em João Pessoa, um aposentado de 80 anos era dado como morto. De repente, já posto no caixão, apresentou mobilidade vital, momentos antes de se iniciar o velório. O protagonista da situação era Pedro Porcino da Silva, 80, morador da zona rural de Pilar, e ocorreu com ele um caso raro na medicina: catalepsia, ou perda temporária de sinais vitais. A família viveu momentos de dúvida e emoção, logo tentando recorrer à Justiça, a filha Celma declarando à imprensa que 'A gente está muito feliz, mas a gente quer justiça. Isso não se faz com ninguém'". "Que achas, ó linda?”, pergunta Manoel a sua deusa, que o contempla com olhar matreiro, na expectativa. E Manoel prossegue; “Daqui por diante mudo o tom do texto, assumo o coloquial crítico, particularizando o discurso: 'Pois o cara estava duro e frio: estaria morto, pois. Quem o examinou – parece que mal, sem muita atenção, ou nenhuma, apenas empurrando o trabalho com a barriga – passou logo um burocrático atestado de óbito. A responsável por tal bobeira foi uma médica de Itabaiana. O idoso teria sofrido infarto fulminante, acometido de dor terebrante, sucumbindo em seguida. Mas o inesperado veio logo depois'. Segundo o jornal, "Três horas após chegar ao necrotério, quando estava sendo preparado (embalado para o velório e para descer ao túmulo), seu Pedro se mexeu no caixão". E volta Manoel: 'A família, até ali empenhada em aviar o defunto para o destino de praxe, deparou com inversão abrupta de fatos: o defunto não prosseguia defunto, reassomava no mundo dos vivos. Instalava-se um intenso quadro conflitante', conclui Manoel cofiando o bigode grisalho e rebelde, herança de seus ancestrais árabes. Enter.
“Pois veja, ó Maria, como o redator circunstante conduziu bem o texto: ‘Na manhã seguinte, seu Pedro foi transferido para a UTI de um hospital em João Pessoa, em estado grave e coma induzido. Nos dias seguintes ele surpreendeu a equipe médica. Após receber alta, o idoso deve comemorar com a família o aniversário de 80 anos, completado dois dias antes de ser dado como morto’. A conclusão da matéria é impecável, ó Maria, é até musical, um texto fluido, fechando com valores de fábula, teor de happy end equilibrado e vertical, só deixando dúvida quanto à temporalidade: ele recebeu a alta e deve então comemorar ou comemorará depois de recebê-la? Mesmo assim, dá alegria na gente ver um irmão brasileiro na Paraíba esgrimindo uma tão clara digitação!”, festeja Manoel divertindo sua Maria, que tem um terno olho nele e outro no gato, que chega ondulante e carismático. E a manhã se tinge de cores alegres, também ao sabor do Rob Madna Trio, que esbanja elegância no rádio traçando com delícia Fallin’ in Love with Love”, de Rogers e Hart, jóia do século passado, coisa de tempos de uma ainda viva civilização. Enter.
“A ressurreição é uma questão sempre espantosa, porque tema de essência para os vivos que consideram a inevitável morte, contingência inescapável... e, se algo balança os que enfrentam uma leitura profunda do Evangelho, é Lázaro. Que o Cristo seja o Deus encarnado, isto é uma coisa; quanto a Lázaro ser fato ou metáfora, aí todos oscilamos. Estaria ele catatônico, e teria ‘morrido’ justamente para que se cumprisse a Lei, para que o Cristo o chamasse de volta, parecendo isso o prodígio dos prodígios aos olhos dos vivos e para desespero dos fariseus, que já tramavam a morte do Homem? Pois vá: se o ‘camelo’ a que se refere o Cristo na parábola do homem rico hesitando em segui-Lo não é o animal, mas a baita corda com que se amarravam embarcações àquele tempo, com isso abre-se uma perspectiva no que se abordam os textos dos evangelistas, que podem estar cifrados para leigos... Veja: andar sobre as águas, fazer parar a tempestade, multiplicar pães e peixes, tudo é deslumbrante ao pé da letra tanto quanto sugere um encantado e precioso subtexto. O diabo é podermos penetrar nisso... mas a ‘ressurreição’ de 'seo' Pedro, além de ser para mim o primeiro caso de catalepsia revertida registrado em imprensa – conhecia isso de relatos, quase sempre anedóticos –, traz em si um vírus do grande mistério. E a todos encanta como experiência, acaba de algum modo virando festa para os envolvidos com o fato...”, considera Manoel, enquanto o rádio agora dá notícias do vaivém envolvendo nosso novo deputado, o palhaço Tiririca. Enter.
“Eis aí: falamos sobre ressurreição, e Tiririca adentra o recinto com toda a contradição que envolve seu ingresso na ‘vida política’ da Pindorama... e agora temos outra questão: sob o impacto da estrondosa eleição deste palhaço, morre ou renasce o Legislativo e a instituição política brasileira como um todo? O fato é que está instalado um conteúdo de limiar, de extremo, algo acabou e algo começou através de sufragar este mestre da baixa estima... Na verdade, algo da voz de Deus moveu os dedos dos eleitores para eleger o absurdo... porque de absurdos em cascata grossa todos andam fartos, e eleger Tiririca não passou, claro, de uma bofetada nas nádegas faciais desses engravatados que depravam o Legislativo – e não só o Legislativo, óbvio... então irrompe o efeito Tiririca sendo sugerido como remédio salvador porque absurdo, como se todos o usassem como placebo de alto impacto justamente por se saber ser inócuo, a partir do próprio slogan do candidato”, fala meio consigo Manoel, enquanto Maria se ocupa de receber os afagos do gato. Enter.
“Ora, Manoel, a catatonia já tomava o Legislativo há décadas..., e a eleição expressiva de Clodovil e de Agnaldo Timóteo, dois antiparlamentares por definição, décadas atrás já sinalizavam a descrença do eleitorado ante a intangibilidade apresentada pelos ‘parlamentares’, esses seres de outro mundo, outro idioma, outro ‘princípio moral’ tão diverso do nosso... e com isso víamos uma como que metáfora da necessidade de alterar o conteúdo da massa humana presente naquela pinóia. Claro, não eram os seres indicados para minorar ou alterar significativamente a deterioração já presente naquela massamorda parlamentar. Mas, vá lá, era um protesto, era uma piada, uma provocação, até para revelar que tipo de conceito os eleitores guardam a respeito dos profissionais da tramóia em que se transformaram os políticos em geral. A necessidade explicitada por todos é e vem sendo dar um choque para ressuscitar a instituição... mas todos sabem, ai de nós, da irregenerabilidade daquilo, e que nem uma droga do tipo ‘levanta-defunto’, como um Tiririca eleito por milhão e quatrocentão de votos, é capaz de fazer com que aquele covil desperte e volte a andar...”, emite Maria por entre seus lábios suaves, incapazes de deixar passar por entre eles uma palavra má, embora de tempos para cá se permitindo articular fortes conceitos. Enter final.
“E agora querem porque querem achar alguma coisa que ‘impeça’ o palhaço de integrar o corpo – ou o ‘corpo’ – de legisladores, talvez porque a repercussão da vitória eleitoral de um palhaço em nossa Câmara seja depreciativa para nós no Exterior... ‘Nós’, quem?? Quem pensa que pode recombinar categorias de valor tão opositivas como a do poder e a do povo numa coisa só? Doeu em vossos tobas elegermos o palhaço, ó pás? Bem, então parece que teremos alguma ressurreição por aí, porque o remédio Tiririca já começa a fazer efeito!...”, conclui Manoel entre gostosas risadas com sua Maria, e ei-los enlaçados por olhares arrulhantes... E viva Santo Expedito! Oremos. Té a próxima, babes!