quinta-feira, 3 de junho de 2010

Manoel se abestalha com Gaza

Frederico Mendonça de Oliveira

“Ó Maria, tu viste o que fizeram com os barcos de ajuda humanitária que tentavam chegar a Gaza?? Um comando israelense atacou a frota e matou um tanto de civis desarmados, uns falam em nove, outros em 19. Onde vai parar essa desgraceira de horrores no Oriente Médio?”, exclama interrogativamente Manoel para sua linda Maria, afundada em suas pesquisas de faculdade. “O mundo inteiro está abestalhado e indignado com tamanha monstruosidade, e olhe que isso ocorreu em águas internacionais! Estaremos chegando ao despedaçamento final?”, vocifera Manoel ao ver as notícias e reações generalizadas de repúdio a uma agressão de tal dimensão, e contra um grupo que participava de uma iniciativa humanitária, como TODA a imprensa mostrava. Mesmo perdido no Arraial das Bagas, nas montanhas do Sul de Minas, nosso herói acompanha o que rola pelo mundo e sonha com a cessação da barbaridade no Oriente Médio. Enter.
“Bem, a Humanidade está sendo transformada em algo muito feio, o contrário que um dia pensáramos que seria. Estão todos burrificados, alienados, coisificados, todos viraram zumbis, tudo parece irreal, basta ver do que é capaz uma vizinhança antes pacata no que se conflagra em defesa de uma idéia espúria lançada por um aventureiro do setor white neckband... de uma hora para outra caem as máscaras, e nos vemos diante de seres perversos, primários, assemelhados a primatas de porrete na mão, seres desalmados e grosseiros, tirânicos, cegos de ódio, e tudo isso estava oculto em sorrisos de cordialidade durante anos... e ninguém de bons instintos imaginaria o que aqueles sorrisos tinham de falsidade e maus instintos ocultos!”, cogita Manoel consigo, para não interromper a profunda concentração de sua amada. “O que os israelenses praticaram contra o comboio foi simplesmente ódio, um ódio profundo e milenar, que cheira a massacres! E esse mesmo ódio aflora de seres ignaros, boçais, que posam de gente evoluída mas que não passa de um bando de andróides falantes – e falam como o rabo deles, embora haja alguns glúteos contempláveis nesse meio corrompido, mas esses glúteos não salvam a fala de suas portadoras – e de uma legião de aspirantes às benesses da corrupção!”, e Manoel pára pra contemplar o gato que incomoda Maria subindo no laptop em que ela escreve, e ela não se aborrece, até se diverte e aproveita para confraternizar com o lindo bichano. Enter.
E eis que o assunto do ataque covarde e criminoso, aliás hediondo, não sai da mídia desde o início da semana, e a igreja católica não aborda, nesse Corpus Christi, a monstruosidade daqueles que negam o Cristo. Aliás, a Igreja não se posicionou contra 1917, mesmo tendo sido massacrados milhares de sacerdotes católicos quando da ascensão do bolchevismo. A negação de Deus e da família, a implantação de um materialismo que pretendeu vencer a Natureza, a violência de Estado nos negros tempos de Stálin, o massacre de mais de 100 milhões de não simpatizantes desde 1917 até hoje, o massacre, quando da instalação do regime bolchevista, de quase sete mil sacerdotes, de 6.776 professores, de 8.500 médicos, de 54.850 oficiais do Exército, de 260 mil soldados, de 150 mil oficiais da polícia, de 48 mil gendarmes, de 355 mil intelectuais, de 198 mil trabalhadores, de 915 mil camponeses, tudo isso foi inexplicavelmente ignorado pela Igreja, deixando livre o caminho para o avanço do regime mais estúpido desde que a Humanidade superou a era das invasões de bárbaros. Afinal, o que significa o Vaticano com toda a sua opulência? Nada, pelo visto, a não ser a opulência em si, e um grande desejo de viver desfrutando da glória decadente da Igreja Católica Apostólica Romana, e quanto ao resto, como disse o Brasa alçado a Rei na ditadura tupiniquim, “que tudo mais vá pro inferno!”... Enter.
“Ó Manoel, vê se me ajudas aqui com este gato!”, solicita Maria entre risadas divertidas enquanto o bichano fica tentando dar bofetõezinhos nos dedos dela, que tentam escrever no teclado do laptop. O lindo gato vai a contragosto para o colo de nosso herói, enquanto Maria se diverte relatando o que o gato estava aprontando. Sabedor das coisas de seu félix, Manoel o atrai para dentro de uma caixa de papelão e o faz envolver-se com um bastão atravessado no teto da caixa até o chão desta, e eis o lindo animal às voltas com o bastão, e Maria ainda sorrindo volta a seu estudo, e Manoel vai dar uma olhada nos noticiários eletrônicos, e eis que logo ele depara com loucuras novas sobre o horror de Gaza, e fica perplexo com verificar que a estupidez de Lula já ganha espaço para gozação desrespeitosa na mídia internacional, e eis nosso herói suspirando de ver o Brasil agora transformado em alvo de achincalhe no Oriente Médio, na Alemanha, no Oriente Médio. A lógica do discurso cretino de nosso “representante” despertou a consciência sobre o ridículo que é um imbecil ser presidente de uma nação que já assombrou com a Bossa Nova, o Cinema Novo, com nossa literatura e nossas artes plásticas, até com nosso futebol, contemporâneo da Bossa Nova, pois fomos campeões do mundo em 1958, ano de lançamento de Chega de Saudade. E Lula mal sabe disso, é um ignorantaço de carteirinha, um grosseirão sem modos à mesa, um ébrio sem freio, um apedeuta exibido e sem compostura, um tipo histriônico esquecido pelo etil de sua responsabilidade de pelo menos ser figurativo sem tentar figurar. Enter.
E aí a coisa fedeu. Manoel admite serem absolutamente procedentes as sacanagens sobre esse caipiraço que não se enxerga, e abre um vídeo em que aparecem israelenses fingindo entrevistar o “presidente Lula”, e disso decorre um verdadeiro ultraje a nossa dignidade, e o pior é que TEM COMPLETO FUNDAMENTO. A tristeza é ver quanto trabalho tivemos em nossas vidas, quanto trabalho estão tendo nossos irmãos brasileiros dignos e como tudo isso vira bosta, como disseram Rita Lee e Moacir Franco, quando justamente o partido que se dizia dos trabalhadores assume o poder e transforma o País num caldeirão de um Hulk, com aquela cara patética sorrindo pra nós! “Pela primeira vez na vida concordo de cabo a rabo com israelenses”, rosna surdamente nosso herói, que chama sua Maria para que ela constate o ultraje presente no vídeo dos eleitos. Ficam ambos abestalhados diante do pesado achincalhe, conscientes de que nada pode contestar o que está mostrado, e que pela primeira vez se faz justiça a este bufão metido entre chefes de Estado e querendo se meter em assuntos de gravidade que ele nem sonha alcançar. Enter final.
“E o Obama, que não passa de um Lula refinado, como considerou milha linda, dizendo que ‘Lula é o cara’! Ora, querem saber de uma coisa?? Vou tomar uma atitude verdadeiramente eficaz!” E, sob o olhar ensolarado de sua Maria, que sorri toda, Manoel abre a geladeira e tira uma garrafa branca (de tão gelada) de cerveja, e a palavra final é: “Fazer o qüê, ó Maria??”, e a paz de sempre brilha no lar de nosso herói, agora aplacado pelo pão líquido que nos faz ficar ricos só de destampar a garrafa e deitar o líquido na taça. E viva Santo Expedito! Oremos. Bye, babes!

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sexta-feira, 28 de maio de 2010

Manoel, bandeiras e “bandeiras” do Brasil

Frederico Mendonça de Oliveira

Diante da ridícula exibição de bandeiras brasileiras em função da copa do mundo de futebol que se aproxima, os objetos vestidos do Sistema já revelam seu envolvimento com essa patarata empetecando suas casas com aquele verdeamareloazulebranco digamos... coisa de otário. Chegam a esticar em fachadas de casas pavilhões imensos, como se estivéssemos em enfrentamento em que valesse nossa honra, que aliás já perdemos de há muito, e não há mais como recuperá-la. E Manoel considera essa palhaçada, típica de bonecos vestidos e de cérebros de frango de granja, e vai conversando com sua linda Maria sobre tal patacoada, que encarta outras, outras ainda, e acaba que vamos parar até na Vila Rica dos tempos da Inconfidência Mineira, depois Conjuração Mineira, hoje não se sabe o quê. E Maria se diverte e até meio que se encanta com ver que a testosterona de seu apaixonado marido ainda sobra para emular conjeturas verticais, como que ereções mentais diante da completa brochada brasilis no que tange a usar o bestunto. Enter.
“Ó Maria, que lamentável é ver o quanto estão cegos os brasileiros de hoje diante de valores políticos, pátrios, institucionais, sociais, até mesmo de símbolos nacionais. Mas, convenhamos, quem pode resistir pensando após anos e anos de Xuxa, Trapalhões, novelas das oito e demais, Sílvio Santos, futebol alienante, quem suporta décadas seguidas desse massacre sem acabar lesado de alguma forma? Porra, água mole em pedra dura... ou, similar a isso: uma mentira dita mil vezes torna-se verdade! Então os brasileiros de hoje são em sua maioria vítimas dessa burrificação, e isso é um butim de guerra, porque existe de fato invasão e destruição interna... incluindo a letal ação real da TV durante esse quase meio século, e isso foi e é bombardeio cerrado, nos despoja de nossos conteúdos e enriquece o inimigo! E a pergunta, ó Maria, é: a quem isso aproveita? Quem é, na verdade, o inimigo?”, e Manoel até se excita com divisar tais valores. Primeiro, a bandeira nacional: “Quem é que tem qualquer noção quanto ao que significa o losango amarelo na horizontal? Ninguém! Ninguém!! O que se divulgou sobre os significados da bandeira é ridículo: ‘o verde de nossas matas – que vão sendo monstruosamente devastadas -, o amarelo de nosso ouro – onde anda esse ouro, foi parar em que mãos? -, o azul de nosso céu’ – que hoje é um céu constrangido por ver o que está sob ele. Lembra-me até Castro Alves: ‘Senhor Deus dos desgraçados/ dizei-me vós, Senhor Deus/Se é verdade ou é mentira/ Tanto horror perante os céus!’... Meu Deus! Pois ensinaram toda essa besteirada na década de 1950! Se já era cascataça então, que dirá hoje, depois de devastada e extinta a nação! E a bandeira ainda fala em ‘ordem e progresso’, quando o País vive plena desordem e pleno retrocesso!” Enter.
“E por falar em lemas disparatados em bandeiras, que dizer do absurdo ‘libertas quae sera tamen’?, que nas escolas ensinam como sendo ‘liberdade ainda que tardia’? É impressionante como engrupem as crianças desde tão longa data e como, depois adultos, prosseguem engrupidos, e só algum privilegiado saca o real significado desse disparate, que vive nas fuças de todos o tempo todo, concretizando a enganação, neste caso uma bela patacoada! Afinal, Virgílio escreveu ‘Libertas quae sera tamen respexit inertem candidior postquam tondenti barba cadebat’, significando: ‘liberdade que, tardia, contudo, me viu já improdutivo, quando, ao fazer a barba, esta já caía branca’. É trecho das Églogas, Virgílio tinha então 25 anos. Pois veja, o que está na equivocada bandeira de Minas é: ‘Liberdade que, tardia, contudo’; se fosse ‘liberdade ainda que tardia, seria ‘Libertam quamquam sera’, pois quamquam é conjunção concessiva, significando embora, ainda que, mesmo que, conquanto. Já tamen é conjunção coordenativa adversativa, e significa contudo. Não faz sentido fora do contexto, ó pá! Será que NINGUÉM ainda viu isso, ó Maria? Será que aqui não existem pensadores, latinistas, gramáticos, gente que grite contra um disparate sesquipedal como este??”, e Maria se concentra nessa porcariada, que ela jamais perceberia não fosse a ação intelectual ininterrupta e incansável de seu apaixonado Manoel. E, interessante, portuguesa de Torres Vedras, Maria se sente envergonhada ao constatar a desbundação tupiniquim, que não enxerga nem mesmo o valor de suas bandeiras... "Que 'bandeira!'", conclui ela. Enter.
E Maria viaja na maionese até sua querida e saudosa “santa terrinha”, onde as bandeiras são sagradas MESMO, e onde todos não só veneram sua bandeira nacional como também sabem EXATAMENTE o que significam seus elementos constitutivos, estandarte cristão na essência, e eis Maria constrangida de ver que ninguém no Brasil entende o seu pavilhão nacional, ninguém nem vê que o dístico positivista vira piada frente à realidade que os brasileiros enfrentam. Enter.
Chega o amigo músico de Manoel, depois de um telefonema de articulação, e a conversa pega fogo: o amigo tem um amigo que peita as autoridades do Arraial das Bagas, e sua/dele trajetória é fumegante: esse homem ímpar entrou com processo contra a chapa vencedora das eleições para o Executivo do município por ter descoberto uma doação de campanha feita por uma entidade que não tem fins lucrativos – portanto impedida de fazer doações dessa natureza, pelo fato de receber dotação federal. No arraial, a coisa foi devidamente escamoteada, foi indeferida a petição. Feito recurso para instância superior, na capital do estado, veio de lá uma “decisão” surrealista: foi constatado o crime eleitoral, mas quem julgou o recurso “entendeu” que “a doação não foi decisiva para o resultado do pleito”, e assim ficou. Feito recurso para a instância máxima, na capital federal, uma ministra falou alto: “determinar o retorno dos autos ao tribunal de origem para que nova decisão seja proferida”. “Cumpra-se a lei, dê-se a sentença!”, ordenou a primeira criatura decente nesse percurso. E agora o amigo do amigo espera a sentença, que demora, demora, e ele já pensa em fazer outra aprontação pública, no nível do que já vinha fazendo, virando um banner humano plantado na porta do fórum denunciando não haver justiça eleitoral no arraial. Foi alvo de processos criminais e até de tentativa de lesão corporal a faca, na porta da Câmara. Enter final.
E agora vemos a cena: Manoel aconselhando o amigo a dizer para o amigo deste que procure meios eficazes, que não se exponha a violências, já que vem sofrendo processos e perseguição, e considere que o corporativismo é um fato monolítico no arraial... “Avisa lá que os brasileiros estão vivendo numa selva, vê se acalmas o homem! Prudência e caldo de galinha não fazem mal a ninguém!...” E ficou assim. E viva Santo Expedito! Oremos. Té mais, babes!
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sexta-feira, 21 de maio de 2010

Manoel e a civilização terminal

Frederico Mendonça de Oliveira

“Falar sobre crianças sempre foi algo em que a crítica não cabe nem de todo nem de pouco: a tendência é ver os infantes pelo aspecto da esperança, de considerá-los como um bem que Deus nos deu para selar a concretização do futuro... sempre foi assim, pelo menos foi o que sempre vi, ó Maria. Mas parece que estamos inaugurando outra era: os seres lúcidos não podem mais se permitir essa visão idealista que mostra a criança como o agente do porvir melhorado. Sermos de alguma forma vítimas de enganação é uma coisa; enganarmo-nos a nós mesmos é muito diferente!”, conjetura Manoel contemplando a figura helênica, ereta, luminosa mesmo, de sua amada. É que as experiências dos últimos anos feriram profundamente a fé de nosso herói, tamanha a monstruosidade que explodiu bem em suas ventas. Desçamos aos tortuosos e asquerosos meandros em que foi jogado este lusitano que adotou o Brasil como pátria e que hoje se vê abalado por tanta constatação de degenerescência em tudo, tudo, TUDO nesta Pindorama hoje terminal, assolada por um câncer que se agrava a cada dia, cada hora, cada minuto, cada segundo! Enter.
“Impossível não vergar sob uma nostalgia que em certos momentos chega ao âmbito do atroz!”, revela Manoel um tanto emocionado, enquanto a linda Maria prepara alimentos para os gatos, entretida no que faz e ao mesmo tempo atenta em tudo para com seu marido apaixonado. “Como imaginar que poetas tenham sido varridos das mentes e da cultura de um povo para serem criminosa e sordidamente substituídos por seres míseros, bugres cínicos, menestréis da merda e portadores de cloacas sonoras que emitem ganidos lancinantes? Ainda há pouco eu me lembrava da beleza dos poetas portugueses, dos brasileiros, de toda essa beleza que se acumulou ao longo dos séculos e que hoje é preterida monstruosamente em benefício de uma corja de oligóides – nada contra os oligóides: só que estes estão no galho errado! – a quem foi entregue o pódio da canção brasileira há tão pouco tempo ocupada por Tom Jobim! A canção, ó Maria, é a prostituta da música, porque é a que mais facilmente se vende, a que naturalmente tende a se vender! E veja o que se apresenta hoje como canção brasileira – os salteadores do poder no Brasil chamam canção de música, os crápulas –, uma deformidade primária só, parecem crias de pais irmãos, parecem frutos de coito incestuoso, essas formas míseras vomitadas por tipos que apresentam mentalidade no nível de frangos de granja!”, metralha nosso herói para sua Maria, que o ouve assimilando a indignação que ele deixa explodir, e ambos compreendem que, aprisionada essa indignação, infarto e derrame são quase que inevitáveis. “Lembras-te, ó Maria, daquele primeiro 'sucesso' da repulsiva dupla Leandro e Leonardo, dois bugraços musicalmente desprezíveis, rasteiros, e que falava em ‘pegar um avião para a felicidade’, metáfora no patamar da miséria intelectual, compatível com o asco daqueles bigodes maranhenses que então ocupavam a cadeira da mais alta magistratura na Pindorama?”, considera Manoel para se liberar do engulho que o assalta ao contemplar essa regressão maligna que assola todos os brasileiros, saibam disso ou não. Enter.
“Pois hoje vejo crianças e o que me acomete é temor, é desprezo, é desencanto! Não pelos infantes em si, uns joguetes nas mãos dos pais e do Sistema em crime, mas pelo que já fazem deles, pobres diabos em plena deformação, projetos de otários, de corruptos ou de craqueiros!”. E Manoel pensa em António Nobre, poeta que tinha fixação com a morte e que criou estes lindos versos: “Em tudo via a Velha/ Em tudo via a Morte/ um berço que dormia/ era um caixão pra cova/ via a foice no céu/ quando era lua nova”. “Vendo esses pequenos de hoje, ó Maria, não consigo ver senão o que estão fazendo deles e imagino o que os espera: Sistema em crime, eles integrados nisso; corrupção generalizada, eles integrando isso desde meninos; pais negando a si mesmos e ausentes, amebóides, e eles sob essa influência desde que retirados dos úteros das que os gestaram depois de um coito apenas para descarga de tensão fisiológica; degenerescência solta, eles navegando alegres nessa maré! Que se pode esperar desses infelizes?? Poderemos nos enganar diante de uma cena social tão nítida, poderemos ver céu azul e aberto quando estamos sob tenebrosas e ameaçadoras nuvens negras? Pois lamento, ó Maria: o futuro que espera esses pobres é mais cruel do que essa realidade que hoje vivem, mergulhados no cinismo, hipócritas já assumidos, pobres diabos sem caráter desde que começaram a lidar com esta vida. Os traficantes de amanhã sabem que terão clientela maciça e ávida, porque a droga será o sucedâneo terrível do vácuo maligno que muitos, muitos sofrerão como consequência de terem sido até levados ao crime e à corrupção pelas mãos dos próprios pais e das ‘autoridades’, que hoje não são senão lacaios sem pátria, gerenciadores da miséria imposta ao País pelos Conquistadores do Mundo!". Enter.
Vemos os comentários de nosso herói e consideramos o dia a dia: lamentavelmente, temos de encartar a visão crítica desse grande coração sofrido, e não podemos deixar de considerar que hoje temos algo muito pior que a era Xuxa; agora, a deformidade é diretamente induzida pelos próprios pais, que se refugiaram na estupidez assumida e consentida e que na verdade não passam de público estatelado diante de Big Brothers, Sílvios Santos, Gugus e monstruosidades outras; e são tantas!, são incontáveis, a cada dia são mais numerosas e mais massacrantes! Manoel enxerga o que está diante de todos e que todos se negam a ver: a desgraça futura está estampada nas crianças de hoje, seres completamente sem pais, sem pátria, sem parâmetros, sem qualquer capacidade para discernir valores; prisioneiros, desde o nascimento, de um esquema que faz deles zumbis, cínicos, calhordas, hipócritas, fúteis, vazios, imediatistas e completamente reféns de desejos. Que poderemos esperar de uma conjuntura dessas? Enter final.
“É a derrocada fragorosa da Civilização. Quem semeia ventos... mas os cegos não farejam a miséria que plantam e não estão preocupados com o que retornará disso, implacavelmente. Deus não falha, ó Maria, e o cataclismo se aproxima. Uma anti-estética vai esmagando a realidade, e isso é o trovão que anuncia a chegada da tormenta devastadora. Seremos todos envolvidos nesse horror, e não poderá ninguém condenar a ação de ninguém: cabe apenas a Deus e seus auxiliares celestes aplicar as devidas penas aos que estão em débito. Não se pode esperar, outrossim, como disse o Cristo, que árvores más dêem bons frutos, nem que mau plantio dê boa colheita. Colheremos o que plantamos, e se nossos irmãos se desencaminham como vemos, não seremos nós os que os julgarão. Não tentamos impedi-los de se destruir e de destruir o mundo, porque nada os demove. São zumbis andróides conduzindo sua própria desventura e promovendo a destruição geral, a começar por destruir seus próprios filhos!”. E Manoel contempla a pracita hetera, cheia de infantes deformados pelos próprios pais e observa a cara de paisagem cínica dos que puseram seus infelizes desde cedo para coonestar corrupção. E pede a Deus que ilumine esses seres desencaminhados, e que tenha dó dessas infelizes crianças. E viva Santo Expedito! Oremos. Bye, babes!

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sexta-feira, 14 de maio de 2010

Manoel e o assédio do mundo em colapso

Frederico Mendonça de Oliveira

“Olhe, minha deusa, acho que não entro mais em loja nenhuma!”, reflete em voz alta Manoel pra sua doce Maria, que organiza roupas limpas no armário do quarto do casal. “O mercado sabe muito bem que não tem mais aquela força de dez anos: agora a turma se virou para outros interesses definidos, como ter carro e eletroeletrônicos, e o resto ficou secundário... ou coisa parecida: afinal, gado obedece ao pastor, mas também tem suas escolhas, inclusive ocorrendo estouros e coisas que tais!”, considera nosso herói, fatigado de ter de varar um verdadeiro corredor polonês entre bugres e bugras, todos azumbizados, todos mesmerizados pelo ópio do Sistema. “Pobres coitados, sabe Deus quando superarão isso!... mas é preciso enfrentar para superar, senão o aperfeiçoamento não ocorre”, vai Manoel considerando, em pantomima de admirável perfeição com a tarefa de sua Maria, que organiza os ícones do lar purificando o espaço com sua diligente tarefa doméstica. De repente, Maria recebe com alegria o gatinho mais novo, já adolescente até, e ele pula sobre a cama e se dirige para confraternizar carinhosamente com ela. Manoel olha com ternura para o carinho entre os dois, seu coração se adocica. Enter.
Fora dura a manhã, cheia de tropeços estéticos, cheia de momentos embaraçosos. Os novos seres humanos, os que embarcaram de cabeça na política perversa da nova etapa de dominação, transformaram o que chamaríamos de “cenário social e humano” em uma ininterrupta visão de decadência, uma cena patética em seus conteúdos. As roupas dos objetos do Sistema que passam por pessoas já denotam e conotam valores em vertiginosa decomposição. A desordem visual envolvendo esses zumbis gera um desmantelamento no conjunto, e nós introjetamos esses conteúdos de forma inevitável, pois eles se fixam em nossas retinas-memória, o que significa dizer que elas se incorporaram a nossa experiência pessoal. Não há como deletar isso, mesmo que ponhamos de lado na mente e “esqueçamos”. “Não esqueceremos jamais!”, sentencia Manoel, cenho levemente franzido. “Mesmo que não retornem à ribalta da memória de cenas, estarão em nós para sempre, nos bastidores, nas coxias, nos refolhos. Então é claro que devemos nos preservar de absorver essas cenas, primeiro porque de nada valem, já que servem apenas a quem as protagoniza, prejudicando-as; segundo, porque são matéria inútil para nossa bagagem existencial, aumentando quantidade sem nada acrescentar em qualidade; aliás, constituindo-se exclusivamente em peso prejudicial para nossa jornada. Pois é difícil: esses “conteúdos” nos assaltam, como os sacos de plástico na gaveta da geladeira, que parece quererem se agarrar a nossas mãos, ‘lutando’ por não serem largados. E a isso acrescente-se a pantomima das ruas e do comércio, onde mecanicamente se dizem e se fazem coisas de maneira totalmente irracional, estabelecendo uma assimetria onerosa, cansativa, da qual temos de fugir de forma sistemática e ininterrupta”. Manoel interrompe suas digressões e se envolve docemente com sua Maria e o gato, ambos formando uma cena que valeria uma foto e mesmo uma escultura. E um sossego desce entre os três, enquanto a cachorrada vil da vizinhança deformada late em desespero e ansiedade. Enter.
“Zebras e mandruvás nas ruas e nas lojas, aquelas roupas estúpidas listradas e fragmentadoras, em preto e branco ou – normalmente – estupidamente coloridas e os que as envergam o fazem com aparente orgulho, crentes de que estão fazendo bela figura. Nisso, eis que, fugidos das lojas em que somos vergastados frontalmente pelo ciniquíssimo ‘Posso ajudar em alguma coisa?’, agora somos também espetados pelas caixas de supermercados, onde ainda encontrávamos alguma liberdade, com um inusitado e estupidíssimo ‘Quer mais alguma coisa?’!! Ora, se percorremos o espaço do supermercado e selecionamos o que queríamos, o que quereríamos mais depois de paga a despesa? Só se fosse vermos os... os... ora, deixemos pra lá!”, rosna Manoel com um meio sorriso malicioso no semblante e sob o olhar compreensivo de sua Maria, que sabe muito bem da veia humorística do marido e do teor de sua/dele testosterona... Enter.
“Quer que eu embrulho?”, pergunta maquinalmente a atendente de uma loja de babilaques onde nosso herói adquiriu um porta-níqueis. Primeiro: embrulhar pra quê? Se vai logo ser posto em uso, nada de embrulhar, né? “E não é ‘quer que eu EMBRULHO’, bugra de Deus! Só faltava você querer que eu pedisse: ‘Embrulha pra EU!, como dizem os aldeães nestas montanhas de Baphomet”, e Manoel sente a lancinante fisgada da nostalgia ao ver o idioma sendo estraçalhado pela proletarização petista e ao lembrar de tempos em que só os braçais mais primários bostejavam o dialeto dos desassistidos. “Se o Português de hoje desce ao patamar da sucata e da miséria falada e escrita, que dizer do que terá sido feito de todos aqueles que construíram nossa Literatura, nosso vernáculo, nossa Língua Portuguesa, hoje apenas um programinha daquele Cipro, que vivia dando pipetadas em detalhezinhos, contagoteando caganifâncias que servem como um dedal d’água num oceano de merda?”, e nosso herói ainda ouve a mulher baranga, também sendo atendida, na caixa ao lado, soltar ao celular um “Eu já pedi pra ele VIM, ele deve estar chegando.” “Bem”, considera Manoel, “se essa pobre sabe escrever – claro, segurando o lápis ou a caneta esferográfica com horrenda deformação de pega, os dedos como que se esmagando uns contra os outros e contra o torturante cilindro de escrita –, talvez escreva, neste caso, VIR, mas eis aí algo que eu gostaria de verificar!, um bilhete saído desta mente e destas mãos!...”, cogita Manoel consigo, em resignada consideração da diacronia miserabilizada. Enter final.
“Meu amigo e mestre Marco Antônio Cavalcanti me mandou raridades, já estou agarrado a uma delas, A Letra Escarlate, de Nathanael Howthorne. Veio além disso um Dom Quixote em Espanhol, de editora argentina que imprimia no México. E veio o poema, o sempre contundente poema, este pelos 65 de nosso herói. Para este irmão querido Manoel fez um haicai: “Deus, com devoção/ prepara lento um romance/ em teu coração”, e quem seria Manoel, no dizer dele mesmo, para fazer um poema para um gigante como Marco Antônio? “Saiu o haicaizinho, e olhe lá!”, e lá vai Manoel afundar as ventas no romance de Hardy. Maria, a seu lado, lê A Carne, do Júlio Ribeiro, volta e meia torcendo o pequeno e lindo nariz – que fica mais lindo ainda no inverno, quando o frio avermelha sua ponta. E Manoel não resiste, e tome beijá-lo, em êxtase, deixando Maria meio tonta com tamanho afagamento... E viva Santo Expedito! Oremos. Bye, babes!

Ah! Vale lembrar que estamos sob censura desde 11/04/08, a restrição já vai totalizando 765 dias. Abraço pra turma do Estadão, que também atura isso há 287 dias...

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Manoel, mandruvás, zebras e o “posso ajudar?”

Frederico Mendonça de Oliveira

“Diabos me carreguem, mas não há mais como entender e como dar rumo para este mundo, ó Maria!”, comenta o perplexo Manoel com sua concentrada Maria. Nosso herói acabava de chegar do centro, onde fora com o amigo resolver as pinóias da tarefa demissional e da aposentadoria dele. Pois o percurso pelo arraial, por mais que se alcance alguma abstração, sempre pesa – no mínimo! – do ponto de vista estético: a “paisagem humana” petista, ulterior consumação de uma visão de degenerescência em curso desde meados da década de 80, quando a MPB foi preterida em função da introdução da lambada, do agrobrega e do pagode pasteurizado, se instalou de forma opressiva, como se fora uma invasão de hordas de bárbaros, aparentemente inofensivos, mas indiscutivelmente temíveis. E nosso herói queda avaliando os conteúdos do “cenário social”, e eis que uma constatação preocupante o invade: a da irreversibilidade desse quadro, a partir inclusive de considerar a irreversibilidade da coisa política, visível mas na verdade escancaradamente dissociada do compromisso com o social. “Se a política virou as costas para o que seria uma intervenção benéfica no social, a derrocada é obrigatória!”, reflete entre dentes este pensador exilado de todo, mas assumido mais que nunca como pensador. Enter.
“Ó Maria, já começa tudo ao vermos a estética manifestada nas ruas. Quando estávamos no Rio da década de 80, o emporcalhamento dos muros, paredes ou qualquer espaço onde coubesse uma pichação era a imagem de um caos, de um desarranjo visível através de um discurso enigmático, indecifrável mas desgraçadamente presente de maneira sufocante, torturante. Era o grito dos excluídos lançado nas paredes, nos muros, nos monumentos arquitetônicos, e tudo não passava de uma desesperada tentativa de se fazer visto por todos, já que estava determinado pelo Estado, naquela ditadura amolecada, que aqueles seres jamais seriam ouvidos. A exclusão era algo imposto, implacável, e a macacada revidava usando paredes e arquitetura em geral como suporte para seu protesto, escolhendo a violência visual como discurso. Puta merda!, falei bonito!”, considera alegremente Manoel vendo que sua linda Maria até estampava nos olhos e no canto da boca um sorriso divertido de aprovação. “Pois é: se naqueles tempos ficávamos penalizados e até mortificados com enfrentar aquele emporcalhamento do espaço social aberto, e se a pichação parece que hoje caiu de moda, eis que agora a coisa parece que virou. As pessoas andam emporcalhando é a si mesmas, começando com essa mania estúpida de tatuagem, passando pela bizarria da auto tortura dos piercings, desembocando no mau gosto do que antes era um vestir-se, apenas. Andamos pelas ruas e entramos em supermercados e parece que estamos em outra dimensão, como se tivéssemos o tamanho de insetos, e nos vemos entre mandruvás, aquelas lagartas providas de anéis coloridos, aliás para espantar predadores. E se saímos dessa dimensão e voltamos ao tamanho normal, veja só, de repente nos vemos entre zebras, como se integrássemos a vida animal nas planícies africanas: nesse caso, seríamos gnus ou impalas, pois de repente nos vemos misturados a zebras...”, conclui com jeito crítico um tanto pra comédia nosso herói, diante do semblante receptivo de sua Maria. Enter.
Nosso herói apenas considera a maneira bisonha como os objetos vestidos hoje se cobrem de roupas. Uns parecem espantalhos, se vestem de maneira tal que lembram os palhaços cuja extravagância no vestir faziam rir platéias nos circos do passado. Hoje não há mais circos como outrora, mas as ruas e espaços de convivência das comunidades viraram picadeiros coalhados de palhaços. Outros optam pelas camisas listradas, algumas em cores berrantes, outras apenas “fatiando” quem as enverga de maneira a produzir certo movimento visual, que as faz mais visíveis. Manoel lembra o velório do último coronel do arraial, que morreu de indigestão. O corpo estava colocado no altar, os pés voltados para o fundo do templo. A câmera grande angular estava a uns metro e meio de altura, captando toda a nave apinhada de gente e, em ângulo de grua, fazendo um grande plano de conjunto, pegava a imagem desde o altar até a porta do templo, lá ao fundo. Foi quando entrou um arraialeiro bem conhecido, grandalhão e bobalhão, e veio de lá da porta se chegando em direção ao caixão em meio ao poviléu. A camisa dele era listrada, e de uma extravagância tal de cores e dimensões que roubou totalmente a cena do tão badalado velório. “É mole?”, perguntava Manoel pra sua amada, que tinha os olhos pestanudos espetados no ar relembrando em riso suave as imagens trazidas por nosso herói. Enter.
“E esta mania de virar zebras, onde vai parar isso? Eles se acham muares, asininos, e por isso assumem esse visual? Ou será que estão é metaforizando serem presidiários do Sistema, envergando roupas de listras horizontais pretas e brancas?”, e a linda Maria se ri gostosamente, embora jamais deixando sua contenção de nobreza, elegância natural dela. “Parecem doidos, como que desejando virar um troço, como se a camisa devesse ser a identidade deles, que parece terem assumido a perda da identidade facial!”, farpeia nosso herói, e Maria fecha a fisionomia, como que aprofundando uma compreensão carregada de piedade e preocupação. Enter final.
“E tudo rima, ó minha linda: se entramos num diabo de loja, lá vem de assalto a inconveniente pergunta: “Posso ajudar em alguma coisa?”, como se não soubéssemos ler, não soubéssemos escolher, não soubéssemos o que queremos, como se fôssemos ninguém. Mas, ó pá, pensando bem, os seres que entram hoje em lojas são, em sua grande maioria, consumidores imbecilizados, e o que interessa é o ato, que é intensificado pela ação do vendedor, por sua vez ávido em ganhar o seu...”. E toca a campainha, e lá se vai nosso herói receber o amigo já esperado. E Maria volta a seus fazeres domésticos pensativa, com os gatos a lhe roçarem as pernas roliças e harmônicas. E viva Santo Expedito! Oremos. Bye, babes!
Ah! Vale lembrar que estamos sob censura desde 11/04/08, a restrição já vai totalizando 758 dias. Abraço pra turma do Estadão, que também atura isso há muitos meses.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Manoel considera a barbárie social contida

Frederico Mendonça de Oliveira

“Ó Maria, vou até o centro com o confrade Fox, que ele tem uma rescisão na delegacia do Ministério do Trabalho. Queres que eu traga algo daqueles meandros?”, pergunta Manoel para sua amada, atracada já de manhãzinha com os afazeres, próxima por sua vibração sempre receptiva para seu Manoel; distante, porque concentrada de todo na condução do dia no lar. “Se quiseres alguma besteirinha para ti, para incrementar o almoço, compre. Para mim, nada.”, responde ela. Beijando sua perfumosa mulher, Manoel sai para o cenário da bestialidade conflagrada, que já se desenrola a céu aberto no arraial. O amigo Fox já vinha passando para subirem de ônibus – ambos rejeitam radical e conscientemente o automóvel, um dos ingredientes mais ativos na manifestação da decomposição urbana e humana –, e já percorrem em franco diálogo o quarteirão até o ponto do businho. O assunto logo se engata: o amigo Fox, recentemente dispensado de seu emprego, um serviço que não conseguia prestar há anos por boicote de bugres locais invejosos e degenerados, está indo enfrentar o acerto rescisório na delegacia do Ministério do Trabalho e Emprego, mais um ambiente kafkiano petista a suportar. O busildes chega, eles embarcam, meia dúzia de fuças os fitam bestamente. Olhares vacuns, vazios de teor ou conceitos, olhares de zumbis, de objetos sociais vestidos. A conversa entre Manoel e Fox prossegue, agora pespontada por episódios de constatação de ambos diante do quadro “humano” que os cerca. Enter.
“Ah, as novas mulheres jovens, mães de classe média!...”, desabafa Manoel com seu amigo, ambos considerando umas dondocas empetecadas de malhas de cores contrastantes e berrantes deambulando a esmo pela rua. Andam assim, de tênis de marca, cabelos com reflexo, carros do ano, crianças estupidificadas a tiracolo, miniaturas refletindo quem elas são. Roupas apertadas, de ginástica, buscando sensualidade mas despencando no brega, todas parecem umas réplicas de anamariabragas. Os filhos a tiracolo, ansiosos, perdidões, parecem mesmo lourojosés. Dentro das mentes delas, desejos. Produtos de consumo, desde o shampoo até o desodorante de pés. Vestimentas e calçados, só os apregoados como top da indústria das aparências e do conforto. Os panos, coisas impensáveis, indicativos de vazio mental. Malhas esportivas, calças de lycra, relógios espalhafatosos e normalmente ridículos, jóias. E os lourojosés, projetos de consumidores obtusos e renunciantes da própria existência por injunção do Sistema, condenados ao Português do “vô vim”, do “nóis vai”, do “trais pra eu”, do “daqui dez dias” e à busca estúpida e inútil da satisfação material imediata, esses são os “homens de amanhã”... “Homens de amanhã?? Estes são os homens da pré-história da Humanidade!”, comenta Manoel com Fox, que com ele contempla os “seres” que formigam tolamente pela superfície deste arraial, superfície que mais se assemelha a profundezas... e a dupla vai subindo o morro aboletada no coletivo e sacando tudo à volta. Enter.
E lá vemos os dois diante da delegacia do “Ministério do Trabalho e Emprego”. Fantástico!: está fechada a corrente e cadeado, e na varanda está afixado um cartaz informando estarem os funcionários da instituição em greve por tempo indeterminado, e o cartaz ainda expressa um conceito justificando a greve como “para melhorar” atendimento ou eficiência. Uma cascata lá, um agá. Manoel e Fox trocam um olhar de ficha caída na cuca, e a pergunta lá vem: “E essa, agora??”, e logo Fox liga de celular pro advogado, que o aconselha a ligar pro empregador. E lá vai a sucessão de passos atrás do prejuízo – afinal, os dois subiram pra isso, já perderam parte da manhã nessa batalha, agora vão fazer o quê? “Bem, agora é aturar a novidade e correr atrás do tempo perdido”, considera Manoel pra o amigo lúcido diante do óbice. E já os vemos de volta ao centro, destoando vibratoriamente da grosseria coletivizada e instituída que pulula pelo espaço urbano visivelmente apocalíptico. Vendedores ambulantes, jovens vestidos com extravagância típica do desamparo em todas as dimensões, seres vagando parece que unicamente para levar a passear a carantonha exprimindo o próprio fracasso, outros exibindo sem cerimônia a facies da infelicidade a que se resignaram como irreversível. E carros, carros, carrões, veículos, anúncios em profusão para vender, para excitar o consumo, e zumbis vagando a esmo, percursos vazios pelo teor do simplesmente obrigatório, a obediência servil à obrigação como sendo vida, quando é exatamente o oposto. E tome carrocinha de água de côco, de sorvete barato, recolhedores de lixo e papel, meninas esticando faixa quando o sinal fecha, moleques sem rumo macaqueando perdidos e excitados por pura energia da infância, cachorros integrando a cena do Estado em frangalhos. Nenhum gato visível, claro, que gatos não integram barafundas ridículas. Enter.
“Engraçado, caro Fox, observe que a explosão e o despedaçamento são visíveis como ingredientes desse quadro dantesco de social em absoluto colapso vivo, mas alguma força mantém esse estado de coisas sob contenção e controle!...”, considera Manoel meio que descoroçoado, como que somente cumprindo a obrigação filosófica de praticar a consciência crítica. O amigo Fox, músico mas pensador, homem dado ao estudo e à leitura em profundidade, mete sua frase jazzística em apoio à colocação de Manoel: “Alguma força controla isso, óbvio, porque é a mesma que engendra isso. Só nos resta questionar se isso poderá escapar ao controle dos responsáveis por esse quadro conjuntural. Talvez sejamos supreendidos por um desmoronamento desse edifício de horror, mas a mim parece que somente através da fúria dos elementos, porque toda essa feiúra e tanta desarmonia devem estar agredindo a ordem e a estética da Natureza". Enter final.
E nossos enviados ao mundo dos zumbis já naturalmente se encaminham de volta para seus domicílios, frustrados apenas por terem perdido tempo e por verem a perspectiva de prolongamento dessa tarefa de recolher os caraminguás devidos ao impoluto Fox, artista assumido como tal e de todo desinteressado de qualquer aparição pública tocando sua música refinada. Música, esta, imprópria para ouvidos córneos, moucos, emporcalhados e incrustados por matéria sonora deletéria que o Sistema despeja como terrorismo visando abestalhar, alienar, burrificar. E lá tomam o busildes de volta, vazio morro acima, fugindo da turba ignara que pulula alhures. “Sabe-se lá que fazem em casa essas criaturas que vagam por aí, réplicas de seres humanos entupidas de desejos e sob tratamento de choque televisivo”, considera Manoel em conversa de despedida com Fox enquanto os dois contemplam a fauna imbecil que formiga ou se aboleta burramente pela pracita sem objetivo que não uma subserviência cega ao poder absurdo e intangível. E Fox completa, bem humorado: “Per publicam viam ne ambules”, e os dois amigos se despedem com o riso cúmplice dos sabedores das coisas. E Manoel volta para sua linda Maria, que já perfuma a casa com os aromas do almoço. E viva Santo Expedito! Oremos. Bye, babes!

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Manoel e a morte do presidente polonês

Frederico Mendonça de Oliveira

“Avião Tupolev TU 154 cai com presidente polonês e comitiva de quase cem autoridades polonesas e morrem todos???”, pergunta-se em voz alta Manoel, alvoroçado com a notícia. Só que ele ainda não sabia de tudo, e sua amada Maria, lendo suavemente a notícia que se segue, deixou boquiaberto seu apaixonado marido. Ela pausadamente passou o texto que via no computador: “O presidente da Polônia, Lech Kaczynski, morreu na queda de um avião neste sábado (10), na região do aeroporto de Smolensk, no oeste da Rússia, informou o porta-voz do Ministério de Relações Exteriores da Polônia, Piotr Paszkowski. Havia 97 pessoas a bordo, segundo as autoridades russas, e ninguém sobreviveu. Não há ainda informações precisas sobre as circunstâncias da queda da aeronave, um Tupolev TU-154, que decolou de Varsóvia. As autoridades locais informam que o avião caiu cerca de 1,5 km do pouso, durante manobra de aproximação ao aeroporto de Smolensk. O acidente ocorreu às 10h50 locais (3h50 de Brasília)”. E Manoel se abestalha: “Você disse Smolensky, ó minha Maria? É isso que está escrito aí? Meu Deus, então isso é Katin outra vez! Meu Deus!! Outra vez???”, estatela-se nosso herói. Bem, por que tanto impacto? Por que Manoel se alvoroçou ao ouvir o nome Smolensky, e por que citou Katin? Isto é o que saberemos agora. Enter.
“Primeiro, é pouco provável a possibilidade de mero acidente numa circunstância dessas. Tratava-se de um avião presidencial, cheio de autoridades. Um piloto para essa função tem de ser um mestre graduadíssimo! Falha humana? Pouco provável... Falha técnica do tipo fadiga estrutural ou peça desgastada causando colapso da aeronave? Muito menos provável ainda. Sabotagem? Ora, em todo desastre em que se encontrem reunidos membros de uma organização importante isso é perfeitamente pensável – vide Alcântara, aquela explosão inaceitável ocorrendo justamente quando estava reunida pela primeira e única vez na história da base toda a equipe de cientistas aeroespaciais brasileiros. Portanto, a hipótese de sabotagem ou atentado é mais que procedente”, considera Manoel para sua lindamente atenta Maria. “Mas a coisa seria apenas hipótese entre outras visões até opositivas em conteúdo – não fosse Smolensky e a intenção da viagem. Aí, não nos resta senão botar não uma pulga, mas um cágado atrás da orelha. O que acontece, minha linda, é que eles iam lá homenagear os milhares de oficiais poloneses mortos pelos soviéticos entre setembro e outubro de 1941 na floresta de Katin. Isso é uma chaga na história dos dois países e uma chaga na História. Se a turma ia lá mexer na ferida, fica um tanto estranho demais essa ‘queima’ ser simples acidente. Os soviéticos, naqueles dias de Stálin, tentaram jogar a culpa nos alemães, mas não colou: acabou que a coisa tresandou, e os comunas se viram pilhados como responsáveis diretos pela tenebrosa chacina, tudo completamente comprovado, tudo irrespondível. Começou com a averiguação dos projéteis encontrados nas nucas dos cadáveres: projéteis Greco, impróprios para as armas dos alemães, Mauser e Walter. E aí ficou claro que os soviéticos caíram em escandalosa incriminação”. Nosso herói respira, se recompõe apoiado na pia em que se encosta há dez anos tomando cerveja e conversando com sua amada, sempre sentada na diagonal dele na copa, dificilmente sem gato no colo. Manoel para e reflete, e se inspira de novo, olhos brilhando de lembrar coisas. Enter.
“Pois é, minha linda. Li há bons dez anos O Massacre de Katin, do Sérgio Oliveira, gaúcho, pesquisador de grande garra. Escrita simples mas correta e muito rica e direta. Pois ainda reli, consultei também por várias vezes, e o que tenho a dizer é mais sério ainda. É que a atual Rússia tenta cinicamente deletar da História essa mancha incriminadora, aliás ato de inadmissível barbárie, e a Polônia verga até hoje lembrando seus filhos, a elite militar do país, todos covardemente assassinados. E ultimamente o Putin – que não sei se não passa de um putinho, basta lembrar a aliança dele com o boçal Bush – até andou admitindo a responsabilidade total da União Soviética no massacre. Isto depois de, por diversas vezes, a Rússia tentar escapulir da responsabilidade. E agora a Polônia se posiciona sem escolha, porque o problema se encavalou a partir dessa tragédia tão no espírito de uma ‘coincidência’”. E Manoel e Maria se entreolham espantados, quando Maria mostra no monitor a imagem do piloto polonês Robert Kubica, da Renault, uma fisionomia pra lá de intrigada, mas também com algum traço de incredulidade e de abjeção diante do fato. E as declarações dele são cautelosas até, mas apontam para uma dúvida cruel: “O acidente também tirou a vida da cúpula do (atual) exército do país. A aeronave rumava para a cidade de Katyn, onde haveria uma cerimônia para lembrar o 70º aniversário do massacre ocorrido durante a Segunda Guerra Mundial - milhares de prisioneiros de guerra foram assassinados pelos soviéticos. Estou muito abalado e entristecido pela notícia desta tragédia, que não tem precedentes em nossa nação. O dia de lembrar as vítimas de Katyn se tornou uma data de luto para o povo da Polônia, disse Kubica, com cara de encafifado. Enter.
“E agora, que fazer??”, pergunta-se Manoel olhando para sua concentrada Maria, que encara o caso com uma atenção especial e muito aprofundada se comparada à atenção com que sempre olha questões políticas. Na verdade, trata-se de uma questão diplomática extremamente delicada, e temos uma Polônia que não pode deixar de se sentir atingida em cheio e violentamente humilhada pela segunda vez em 70 anos e pela mesma gravíssima questão”, dispara nosso herói equilibradamente excitado pelos conteúdos da nova possível chacina. “A dúvida será atroz, não mais poderá sair da cabeça dos poloneses a idéia de uma bomba a bordo, de uma peça especialmente sabotada para colapsar sob as condições críticas do pouso, mesmo de um míssil terra-ar ou ar-ar. Neste último caso, bastaria um caça disparar um míssil tipo Sidewinder ou um Sparrow em versão russa e dar meia-volta e sumir. Se houvesse alguém que testemunhasse isso se atreveria a abrir o bico? Enfim, mataram milhares de oficiais na Segunda Guerra; agora morrem 97 em suspeitíssima tragédia... e alguém vai querer seguir atrás dessas perdas? Alguém vai querer se expor a uma sanha dessa ‘natureza’?”, rumina Manoel. Enter final.
Um discretíssimo sorriso banha o rosto de Maria quando ela vê Manoel estacar diante da geladeira e ficar quieto ali pensativo. Ele põe a mão na porta e... Maria já vai pegar o copo especial dele, uma caldeireta com grife de cervejaria... e também pega o copinho dela, um copo usado em São Paulo para servir “pingado”, também miniatura do “garoto” que era usado no Rio na década de 50. Sai a loura do congelador, e eles ternamente brindam, concentrados, e passam a conversar em silêncio, tacitamente dizendo: “Deus olhe pela Polônia!”. E viva Santo Expedito! Oremos. Bye, babes!