sexta-feira, 23 de abril de 2010

Manoel e a morte do presidente polonês

Frederico Mendonça de Oliveira

“Avião Tupolev TU 154 cai com presidente polonês e comitiva de quase cem autoridades polonesas e morrem todos???”, pergunta-se em voz alta Manoel, alvoroçado com a notícia. Só que ele ainda não sabia de tudo, e sua amada Maria, lendo suavemente a notícia que se segue, deixou boquiaberto seu apaixonado marido. Ela pausadamente passou o texto que via no computador: “O presidente da Polônia, Lech Kaczynski, morreu na queda de um avião neste sábado (10), na região do aeroporto de Smolensk, no oeste da Rússia, informou o porta-voz do Ministério de Relações Exteriores da Polônia, Piotr Paszkowski. Havia 97 pessoas a bordo, segundo as autoridades russas, e ninguém sobreviveu. Não há ainda informações precisas sobre as circunstâncias da queda da aeronave, um Tupolev TU-154, que decolou de Varsóvia. As autoridades locais informam que o avião caiu cerca de 1,5 km do pouso, durante manobra de aproximação ao aeroporto de Smolensk. O acidente ocorreu às 10h50 locais (3h50 de Brasília)”. E Manoel se abestalha: “Você disse Smolensky, ó minha Maria? É isso que está escrito aí? Meu Deus, então isso é Katin outra vez! Meu Deus!! Outra vez???”, estatela-se nosso herói. Bem, por que tanto impacto? Por que Manoel se alvoroçou ao ouvir o nome Smolensky, e por que citou Katin? Isto é o que saberemos agora. Enter.
“Primeiro, é pouco provável a possibilidade de mero acidente numa circunstância dessas. Tratava-se de um avião presidencial, cheio de autoridades. Um piloto para essa função tem de ser um mestre graduadíssimo! Falha humana? Pouco provável... Falha técnica do tipo fadiga estrutural ou peça desgastada causando colapso da aeronave? Muito menos provável ainda. Sabotagem? Ora, em todo desastre em que se encontrem reunidos membros de uma organização importante isso é perfeitamente pensável – vide Alcântara, aquela explosão inaceitável ocorrendo justamente quando estava reunida pela primeira e única vez na história da base toda a equipe de cientistas aeroespaciais brasileiros. Portanto, a hipótese de sabotagem ou atentado é mais que procedente”, considera Manoel para sua lindamente atenta Maria. “Mas a coisa seria apenas hipótese entre outras visões até opositivas em conteúdo – não fosse Smolensky e a intenção da viagem. Aí, não nos resta senão botar não uma pulga, mas um cágado atrás da orelha. O que acontece, minha linda, é que eles iam lá homenagear os milhares de oficiais poloneses mortos pelos soviéticos entre setembro e outubro de 1941 na floresta de Katin. Isso é uma chaga na história dos dois países e uma chaga na História. Se a turma ia lá mexer na ferida, fica um tanto estranho demais essa ‘queima’ ser simples acidente. Os soviéticos, naqueles dias de Stálin, tentaram jogar a culpa nos alemães, mas não colou: acabou que a coisa tresandou, e os comunas se viram pilhados como responsáveis diretos pela tenebrosa chacina, tudo completamente comprovado, tudo irrespondível. Começou com a averiguação dos projéteis encontrados nas nucas dos cadáveres: projéteis Greco, impróprios para as armas dos alemães, Mauser e Walter. E aí ficou claro que os soviéticos caíram em escandalosa incriminação”. Nosso herói respira, se recompõe apoiado na pia em que se encosta há dez anos tomando cerveja e conversando com sua amada, sempre sentada na diagonal dele na copa, dificilmente sem gato no colo. Manoel para e reflete, e se inspira de novo, olhos brilhando de lembrar coisas. Enter.
“Pois é, minha linda. Li há bons dez anos O Massacre de Katin, do Sérgio Oliveira, gaúcho, pesquisador de grande garra. Escrita simples mas correta e muito rica e direta. Pois ainda reli, consultei também por várias vezes, e o que tenho a dizer é mais sério ainda. É que a atual Rússia tenta cinicamente deletar da História essa mancha incriminadora, aliás ato de inadmissível barbárie, e a Polônia verga até hoje lembrando seus filhos, a elite militar do país, todos covardemente assassinados. E ultimamente o Putin – que não sei se não passa de um putinho, basta lembrar a aliança dele com o boçal Bush – até andou admitindo a responsabilidade total da União Soviética no massacre. Isto depois de, por diversas vezes, a Rússia tentar escapulir da responsabilidade. E agora a Polônia se posiciona sem escolha, porque o problema se encavalou a partir dessa tragédia tão no espírito de uma ‘coincidência’”. E Manoel e Maria se entreolham espantados, quando Maria mostra no monitor a imagem do piloto polonês Robert Kubica, da Renault, uma fisionomia pra lá de intrigada, mas também com algum traço de incredulidade e de abjeção diante do fato. E as declarações dele são cautelosas até, mas apontam para uma dúvida cruel: “O acidente também tirou a vida da cúpula do (atual) exército do país. A aeronave rumava para a cidade de Katyn, onde haveria uma cerimônia para lembrar o 70º aniversário do massacre ocorrido durante a Segunda Guerra Mundial - milhares de prisioneiros de guerra foram assassinados pelos soviéticos. Estou muito abalado e entristecido pela notícia desta tragédia, que não tem precedentes em nossa nação. O dia de lembrar as vítimas de Katyn se tornou uma data de luto para o povo da Polônia, disse Kubica, com cara de encafifado. Enter.
“E agora, que fazer??”, pergunta-se Manoel olhando para sua concentrada Maria, que encara o caso com uma atenção especial e muito aprofundada se comparada à atenção com que sempre olha questões políticas. Na verdade, trata-se de uma questão diplomática extremamente delicada, e temos uma Polônia que não pode deixar de se sentir atingida em cheio e violentamente humilhada pela segunda vez em 70 anos e pela mesma gravíssima questão”, dispara nosso herói equilibradamente excitado pelos conteúdos da nova possível chacina. “A dúvida será atroz, não mais poderá sair da cabeça dos poloneses a idéia de uma bomba a bordo, de uma peça especialmente sabotada para colapsar sob as condições críticas do pouso, mesmo de um míssil terra-ar ou ar-ar. Neste último caso, bastaria um caça disparar um míssil tipo Sidewinder ou um Sparrow em versão russa e dar meia-volta e sumir. Se houvesse alguém que testemunhasse isso se atreveria a abrir o bico? Enfim, mataram milhares de oficiais na Segunda Guerra; agora morrem 97 em suspeitíssima tragédia... e alguém vai querer seguir atrás dessas perdas? Alguém vai querer se expor a uma sanha dessa ‘natureza’?”, rumina Manoel. Enter final.
Um discretíssimo sorriso banha o rosto de Maria quando ela vê Manoel estacar diante da geladeira e ficar quieto ali pensativo. Ele põe a mão na porta e... Maria já vai pegar o copo especial dele, uma caldeireta com grife de cervejaria... e também pega o copinho dela, um copo usado em São Paulo para servir “pingado”, também miniatura do “garoto” que era usado no Rio na década de 50. Sai a loura do congelador, e eles ternamente brindam, concentrados, e passam a conversar em silêncio, tacitamente dizendo: “Deus olhe pela Polônia!”. E viva Santo Expedito! Oremos. Bye, babes!

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Manoel e as desesperadas crianças livres. E Sandra Annenberg

Frederico Mendonça de Oliveira

Manoel entra em supermercado para pegar coisitas que sua amada Maria lhe pediu, e pronto: criança amalucada pela frente. Decidido quanto ao percurso dentro do estabelecimento, que ele quer mínimo e o mais eficiente, ei-lo obstado por garoto tresloucado de alegria falsa realizando “outing” perante platéia imaginária ou mesmo presente, mas alheia. Manoel fica esperando que o doidivanazinho dê passagem, e a mãe do infelizinho nem aí: escolhe batatas & cenouras ignorando o filho. Este, em êxtase de estupidez sob o vácuo absurdo da liberdade que lhe impuseram, dança estupidamente com uma laranja verde na mão, parecendo um bêbado confiante na própria exibição perante platéia deslumbrada. Pula como bobo e dança parecendo psicopata desvairado, e Manoel, contristado, apenas aguarda contemplando a cena patética e buscando por onde fugir. Enter.
São as crianças “libertadas” pelas novas convenções estabelecidas pelos que detonam a vida no globo. Os donos do mundo material querem agora as crianças com toda a liberdade do mundo, que não sejam frustradas nem contrariadas e vivam em plenitude em contexto de todo favorável. Esquecidos propositalmente das diferenças individuais, embora deva haver direito igual para todos, o que jamais funcionou na prática, os “eleitos de Deus” e senhores do mundo e das leis impõem agora que crianças sejam soberanas e que adultos devam respeitá-las. “Perfeito, ó pás; mas... e os adultos? As crianças devem respeitá-los também? Ou seria isso ‘limitar a liberdade da infância’?”. O moleque tresloucado prossegue obstruindo a passagem, representando sua arte em plenitude, Manoel prossegue pensando por onde evadir-se – ou se vai dar meia volta e tentar outro corredor entre prateleiras outras onde não apareça um doidivanazinho aloprado fazendo “outing”. “Que diabos levará uma criança a achar que está causando deslumbramento ao agir como um maluquete? Estará ele feliz com isso? Ou será que apenas manifesta seu desequilíbrio proveniente da falta de amor dos pais?”, e seu pensamento vai até os já distantes dias de sua infância, quando o pau comia ee ele vacilasse diante dos adultos. Se se comportasse como esse moleque naqueles tempos, levaria logo uma sacudidela braba e ouviria: “Estás maluco? Queres ir prum hospício? Sossegue, moleque!”, e assim os adultos ensinavam bons modos, harmonia, ensinavam à criança como não causar inquietação em torno de si. Lição de vida, pois. Dada pelos pais, tios, avós, para ele aprender em casa e em família como ter conduta equilibrada. Caso contrário, a rua ensinará... Enter.
A mãe do maluquinho, uma criatura estranha absorta em suas escolhas, observa o infeliz destrambelhado e diz: “Paulinho, vem cá!...”, e o pobre louquinho ignora a chamada, que seria puro pretexto para continuar sua palhaçada infeliz. “Atualmente é só isso pelas ruas e lojas: filhos praticando desobediência explícita, e os pais exibindo sua impotência em público, aliás parecendo achar isso realmente digno de exibição. A inépcia, parece, enche essa gente de um orgulho masoquista. Demonstram incapacidade para lidar com crianças tanto quanto se mostram completamente divorciados delas. Como dizia a psicóloga Lúcia Bello, naquele distante 1978 em que eu fazia terapia por ter enveredado por caminho que eu, no fundo, sabia falso, ‘Infelizmente..., graças a Deus’. Isto é: eu me queixo das coisas que me incomodam, mas no fundo é isso mesmo que procuro. Esses pais dizem: ‘Não tenho tempo, infelizmente, para meus filhos’, eles dizem da boca pra fora; no fundo, querem se livrar o máximo possível de qualquer responsabilidade para com estes pentelhos. ‘Infelizmente não tenho tempo; e é isso mesmo que quero: vão pro diabo essas pestes que me tolhem!’. E o que será dessas ‘pestes’?”, pergunta-se meio sacaneado nosso herói, conjeturando sobre um futuro sombrio espreitando essas pobres vidas desassistidas. Enter.
Cobradores e motoristas de ônibus andam putos com o que os pais deixam as crianças fazerem com o veículo em movimento; pessoal de supermercado, de lojas, de bancos, todos andam putos de ver a grosseira falta de responsabilidade e atenção de pais para com as crianças que os acompanham. “Outro dia um pai fazia compras no supermercado enquanto seu filho fazia estripulias e correrias pelos corredores. Até que o menino derrubou e quebrou quatro garrafas de vinho importado. Quando apresentamos a conta do prejuízo, o pai alegou que não pagaria, até porque as garrafas não estavam bem arrumadas na prateleira, e a culpa não era do menino”, relatou revoltado o gerente de um supermercado amigo de Manoel, revelando ainda que não teve como cobrar do cliente safado o prejuízo causado por sua falta de atenção com seu filho. “A prosseguir essa toada, vai ser preju atrás de preju, e as crianças vão até achar que fazer isso é um novo divertimento, uma nova brincadeira – e isso não vai ter remédio!”, comentou Manoel com o gerente, que só soltou um “Pior (é) que é!...”, e o surrealismo vai tomando conta dos nossos dias, transformando o viver num absurdo, numa peça teatral em que o eixo é a ausência de sentido na vida. Enter final.
“Ontem de manhã, um menino louco no ônibus, que agia como um transtornado mental surtado; à tarde, no banco, um doidivanazinho ainda com a fantasia da festa na escola fazia seu teatro de exibicionismo desesperado causando mal estar em todos os clientes, que são obrigados a presenciar demência infantil consentida ou, pior, ignorada e até mesmo incentivada pelos pais. Agora, saio para uma compra rápida e lá está outro louquete se exibindo diante de sua platéia imaginária, sem contar que, em outro corredor do supermercado, um casal de irmãos de seus oito a dez anos corriam e gritavam por entre prateleiras e clientes como se ali fosse espaço para recreio infantil. Puta merda, que diabos virarão esses infelizes?”, e lá vai nosso herói com mais um galo na testa para a rua, levando poucas sacolas e muita indignação – porque na verdade verifica serem os pais uns coniventes safados, felizes com a liberação dos fedelhos, na verdade agradecendo pelas “novas regras”, até porque encontrando nelas a brecha para se eximir de responsabilidades e, mais asqueroso ainda, promover a estética da estupidez, que neles cai como uma luva. “E tome camisas listradas, e vamos vivendo uma hospicialização do cotidiano, atendendo aos interesses dos que destroem tudo para imperar geral!”. E por falar em camisas listradas, os que se destroem assistindo a coisas como o Jornal Hoje acabaram estranhando – ENFIM!!! – os comentários da abissal Sandra Annenberg, que, reportando o fato de a ressaca do mar no litoral fluminense estar devolvendo para a praia joias, dinheiros e objetos de valor, o que atrai pessoas interessadas em achar os objetos, “devolveu”: "Quero crer que o que está sendo devolvido pelo mar seja devolvido também para os donos que perderam", disse. Manoel comenta com Maria, que só reflete sobre esse lixo, silente e linda: “O Hoje é jornaleco funesto e horrendo; com comentários como os dessa criatura, confirma ser pura escatologia, e temperada com cretinices!” E viva Santo Expedito! Oremos. Bye, babes!

terça-feira, 6 de abril de 2010

Manoel, o caos urbano e a degenerescência geral

Frederico Mendonça de Oliveira

Carros, idioma e o simples empunhar de uma caneta. O ruído emitido por emissoras da mídia absolutamente amorais, quando não descaradamente imorais. O lixo de imagens e conteúdos despejado pela TV aberta. A corrupção generalizada e completamente implantada no País. “Meu Deus, o que querem os brasileiros ao se permitirem degenerar social e moralmente em tal velocidade??”, pergunta-se um Manoel abestalhado com o que tem sofrido até dentro de sua própria casa. “Se ligar a TV, lá vem porcariada grossa; se ligar o rádio, o mesmo. Só se vê gente estúpida pulando à nossa frente ou seres abissais berrando boçalidades no ar. São os ‘famosos’, que não precisam de nada para alcançar a fama, basta conseguir furar o esquema e se enturmar entre seus semelhantes, igualmente asininos. Hoje a boa aparência mais vulgar é objeto de admiração babosa. O sujeito tem aspecto legalzinho? Pois já se candidata a ser famoso”, dispara nosso herói, entre irritado e comiserado. Então vale viajarmos com ele em seu calvário, ele que tem um coração do tamanho de uma jaca e sofre como se para nos salvar a todos. Enter.
Eis Manoel indo resolver coisitas intransferíveis de seu cotidiano, ei-lo se aventurando pelo arraial afora. Foi parar lá pras periferias de oeste, que ele não conhecia. Ficou abismado com a quantidade assustadora de habitações inacabadas espalhadas por uma área urbana periférica de perder de vista: “Meu Deus!, já existem no arraial favelas de classe média baixa, aquela gente ignara que se reproduz como coelhos e porquinhos da Índia e entopem as ruas do centro como procissão de zumbis em busca de inserção social que jamais alcançarão – simplesmente por serem eles mesmos a desintegração viva do social. Parecem seres em decomposição da própria imagem, pois vestem roupas como que em proposital e assumido desalinho, panos coloridos enormes em excesso de dimensões, parecem querer representar o papel de espantalhos. E o são...”. E, considerando esses seres completamente perdidos no turbilhão atroz do capitalismo selvagem tupiniquim sulmineiro, Manoel avalia a ação dos causadores de tamanha distorção. “Quem estará por trás de tal desgraça que vai dilacerando o plano social e transformando o povo brasileiro numa legião de humanóides vagando estupidamente como mortos-vivos em busca de desejos fúteis?” Enter.
Bem, era necessário comprar terra vegetal com húmus de minhoca para replantar pimenteiras, cebolinha, tomateiros, rúculas, coisinhas que Maria adora ter fresquinhas à mesa. E lá vai o nosso pobre entrar na loja de um real, e começa o perigo. Lá vem alguém em sua direção seguramente perguntar se “pode ajudar em alguma coisa”. “Oh!, raios, deixa eu fugir daqui, para poder procurar à vontade o que eu quero”. Escapou do canifraz malaco e sorridente que vinha em sua direção. Achou a terra embalada em sacos, sem problemas, botou dois debaixo do braço; achou os sacos de 100 litros, estavam bem ali, pertinho da terra ensacada. Ligou de celular pra Maria, e recebeu dela a incumbência de trazer pano para a cozinha e a lembrança de comprar forminhas de empada, usada por ele para acender a churrasqueira e o fogão a lenha (que os macacos sem rabo chamam de “fogão de lenha” ou de “fogão à lenha”, duas asneiras bem ao estilo da macacada destas montanhas. “Se fosse fogão de lenha, ele se queimaria a cada acendida, e se acabaria, transformado em cinzas; e se fosse fogão à lenha seria um fogão colocado sobre a lenha, ou no meio dela, diabos! Será que não pensam??” Então Manoel acaba que faz a compra sem ser importunado. Aí vem a coisa de passar na caixa para pagar. E lá está a moça escrevendo como se seus dedos fossem garras de predador tentando esmagar a presa. Ninguém mais sabe empunhar uma caneta: não há mais qualquer princípio nesse sentido, como, de resto, não há mais qualquer princípio em nenhum sentido, mantendo-se, para certos casos considerados importantes, a aparência dos princípios. Acabada a sessão, retoma-se a barbárie, que ninguém é de ferro. Comiserado com ver a moça perguntar “Quer que eu embrulho?”, Manoel deixa a loja doído de constatar a morte do idioma de Camões. Enter.
E nosso herói se lembra de uma situação rara, em que se assumiu um radical em defesa de seus princípios morais, idiomáticos e estéticos. Ele assistia a seu amigo músico trabalhando: o cara gravava com um sujeito também músico e dono/operador de estúdio. Lá pras tantas a gravação foi interrompida para atender a um chamado telefônico. Era da empresa de manutenção de computadores, avisavam que as máquinas deixadas lá já estavam prontas. Manoel contemplava a conversação. O cara disse: “Sim, pode trazer, pode VIM”. Depois de pequena pausa, em que do outro lado perguntavam qual era o endereço, ele responde: “Sabe onde é o restOrante do Simeão? É ao lado”. E, voltando-se para o amigo de Manoel, que esperava de guitarra calada acabar a negociação, perguntou: “Quer que eu gravo?” Diante desse surto de grosseria e mau gosto, Manoel fez um discreto sinal para seu amigo e foi saindo de fininho, sem ser notado pelo bugre depredador da língua. Depois confessou ao amigo que não mais falaria com esse tipo que defeca no idioma, tipo aliás por quem antes nutria certo respeito e admiração por ser ele muito hábil em algumas coisas. E lá foi Manoel em frente, quando abriu um jornal e logo o fechou, soltando um muxoxo triste: em destaque, uma frase em que se vê a terminalidade da língua portuguesa: “Feliz igual pinto no lixo”. Considerando que quem escreveu isso é mesmo despreparado e mal alcança regras de fala, porque fala como ouve falarem, Manoel até compreende a pobreza, mas regra é regra: uma coisa é igual A outra, não “igual outra”. Em outra ocasião, leu na Caros Amigos um juiz – homem, portanto, a quem não se atribuiria falar de baixo nível – falar “dali dez dias”. Bem, esse cara cursou faculdade, tem instrução, e fala como um bugre?? Será que esse indivíduo fala assim em audiência ou em palestra para públicos seletos? Onde está pelo menos o senso estético?? Enter final.
E assim vai a vaca pro brejo. Nosso herói foi até um bairro afastado pegar um violão que foi reformado por um fabricante de instrumentos. “A teratologia se instala nos seres, nas instituições, e a feiúra se manifesta em plenitude, explodindo em estética de periferia, aquele cenário em que a necessidade se impõe como prioridade. Então, em espaços urbanos periféricos, o que importa é a coisa imediata. É fundamental morar. Então levanta-se um barraco de alvenaria e enfia-se a macacada dentro dele. O visual cede ao pragmatismo, e como o único prazer de pobre é fornicar, porque hoje é de graça e muitíssimo fácil, vai crescendo a população de bugres em progressão geométrica. E o cenário é o da feiúra instituída, porque o feio está no processo da escatologia de que falaram os profetas. Não há mais salvação para quem sonhou com um progresso real da Humanidade. Hoje, vale o que os conquistadores do mundo querem que seja feito. Morte à beleza, morte à nobreza de caráter, morte às instituições, morte ao ambiente, morte à inteligência, morte ao planeta, morte aos anseios de aperfeiçoamento do homem. Vale agora é ir como a boiada dentro do trem sem saber que vai em direção ao matadouro: mesmo sem saber o fim que a espera, a Humanidade caminha a passos firmes para o abismo, para o despedaçamento de tudo, para o cataclismo”. E viva Santo Expedito! Oremos. Bye, babes!

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Manoel e o afrodescendente tresloucado solto por aí

Frederico Mendonça de Oliveira

“Pois é: se estivéssemos naquela virada dos anos 50 para os 60 no Brasil, poderíamos usar o termo usado por Stanislaw Ponte Preta, aliás Sérgio Porto, cronista impagável, para sua composição inesquecível, Samba do Crioulo Doido. Hoje é isso aí: ‘Binário do Afrodescendente Tresloucado’, senão dá processo... Reportar podemos; falar abertamente, não”, reflete Manoel a respeito de tanta loucura que vemos explodir diante de nossos narizes sem nada poder fazer. É que nosso herói sofre
sendo alvejado de todos os lados com manifestações de insanidade mental individual e coletiva, e pensa em Deus e no Cristo, e acaba diante do congelador, sossegando o espírito através de considerar deglutir os goles inebriantes de uma loura gelada. Fazer o quê? Chorar sob o cobertor? Mas, como, cobertor?, em pleno começo de outono, com o calor de verão ainda tórrido, derretendo asfalto? Mas vamos ao desfile das loucuras explícitas. Enter.
Naqueles tempos da pesada, quando chegava a Bossa Nova e no mesmo ano o Brasil virava campeão mundial de futebol, vivíamos um temor diante do que pensávamos ser doenças sociais curáveis. Uma delas, o aumento da presença do automóvel. Mas a revista Senhor, lançada por aqueles tempos, apresentava uma profética charge: pai e filho, de cima de uma cobertura em Copacabana, olhavam lá pra baixo, e o pai dizia pro filho: “Tá vendo, meu filho? Nunca mais conseguiram tirar os carros do grande engarrafamento de 1990!”. E Manoel, então em seus 15 e já no Brasil, viu aquilo e guardou em sua prodigiosa memória. Pois hoje ele comenta com sua amada Maria: “Tu vês? Estive no centro deste Arraial das Bagas e presenciei um espetáculo absurdo: parece existirem mais carros que gente no centro e adjacências dele neste arraial! Um dia esta merda vai travar, e vai acontecer aqui, nesta aldeia entre montanhas, o que foi profetizado na charge do fim da década de 50!” E Maria, pela primeira vez assumindo uma fala direta neste espaço, comentou: “Pois veja, querido, o que saiu hoje na Folha: ‘Vendas (de automóveis) cresceram 17,9% ante o mesmo intervalo no ano passado estimuladas pelos últimos meses do IPI reduzido, que vigorou até ontem’; a continuar isso, estaremos entupidos de carros sem poder andar nas ruas senão por sobre eles!”. E o casal se entreolha ternamente, seguro de nada poder contra a degenerescência, mas consciente de que, se estão enfrentando esta conjuntura, não será senão porque para ela contribuíram de alguma forma no passado intangível. Enter.
E a imprensa noticia os engarrafamentos monumentais, as horas e horas perdidas por habitantes de capitais no trânsito diário, mas prossegue intransigentemente a serviço das indústrias de veículos, especialmente porque elas pagam anúncios caríssimos, muito embora tudo leve a uma compreensão do irremediável: se cresce a demanda de veículos dentro de um espaço limitado e que não acompanha tal crescimento hoje beirando o vertiginoso, teremos colapsos graves de fluxo de tráfego em breve, e disseminados por todo o país. “É o capitalismo selvagem devastando através de instaurar a era do automóvel, doença maligna em nossa história, que traz com ela outros transtornos horrendos, que são as doenças decorrentes do aumento do sedentarismo, porque o motorista acaba também um sedentário à direção, um ser que acaba amplificando seu sedentarismo já consolidado no trabalho, no escritório, no banco, mas, pior, obrigatório na poltrona diante da TV, e mais sedentarizado ainda nesses dias tecnológicos, porque assistindo TV e mudando de canal usando controle remoto... que visão aterrorizante, ó Maria!”. E Maria, ocupada em suas funções, que desempenha com religiosidade santa, aquiesce lentamente com a cabeça enquanto avalia as roupas lavadas e cheirosas de seu toque de fêmea feliz e que dobra com cuidado e reverência. “E o mais importante é a completa falta de consciência diante do que se avizinha assustadoramente! Todos só querem saber de ter carro e dirigir, não se importando com o que isso haverá de significar em curto prazo!” Enter.
E a tudo isso acaba que podemos chamar de hipocrisia deslavada. “Forniquem-se todos: se os capitalistas querem lucro, o planeta que vá pro inferno!”, é o que parece dizerem os que comandam o poder mundial da finança perversa, desumana, dos meios de comunicação desagragadores de valores e instituições e que têm as armas na mão para quando for necessário meter mísseis e bombas contra nacionalidades não suscetíveis à sanha devoradora dos donos do mundo. E agora vem essa história de pedofilia envolvendo o Papa. “Sim, sim, pode existir isso, sim, e não podemos apostar na santidade dos que cercam Sua Santidade. Se aconteceu, se acontece, é tomar providências, e que quem tiver culpa no cartório, que pague. Mas.... que moral tem essa imprensa porca, difusora de depravação explícita, de podridão desenfreada, para “se escandalizar” diante de qualquer coisa? Lembram do cônsul de Israel no Brasil em 2000, Arie Scher? Lembram que estourou como um traque – não tem igreja católica no meio, não vira bomba... – a notícia de que o cara era agente internacional de prostituição e que foram encontradas com o professor Georges Schteinberg, seu amigo e amante, 12 fitas de vídeo e 154 fotos eróticas de menores, e que tudo isso foi produzido na cobertura de Scher, em Ipanema, e que ele se refugiou na embaixada e se pirulitou do Brasil ajudado por poderosos – que impediram a ação da Polícia Federal – e que nunca mais se falou nisso? O juiz da Infância e da Juventude Siro Darlan lamentou a impunidade em nota à imprensa: “O bandido escapou, e a Polícia Federal sabia do caso”. Segundo matéria na Isto É de 12/7/2000, “a maioria das fotos apreendidas mostra meninas nuas na piscina, outras revelam intimidades entre o professor e o cônsul” e “uma das mensagens (que o cônsul mandava para seus amigos no mundo inteiro) seguiu com a foto de uma jovem de biquíni sentada no carro do consulado. Agora sabem que Scher está envolvido com prostituição infantil”. “Então, ‘imprensa’, como é que fica? O mundo inteiro soube disso? O Brasil inteiro? Merda nenhuma! Só ficou sabendo quem esquadrinha a revista que revelou a bagaça...”. Enter final.
“E que dizer dessa pouca vergonha de BBB, em que mulas e bugres se esfregam e trepam nas fuças do público telespectador? E que dizer de coisas como ‘dança da garrafa’, em que crianças faziam gestos eróticos dançando em trajes menores com a genitália roçando o gargalo de uma garrafa? Ora, crápulas imundos, vão lavar essa bunda!!”. Bem, nosso herói está longe de apoiar pedofilia, mas se reta com o fato de a mesma imprensa que incita à depravação venha com ares de perplexidade denunciar pedofilia no Vaticano embora cale sobre outros escândalos que não lhe interessa divulgar... “Vão pro diabo, pulhas!”, rosna Manoel. E viva Santo Expedito! Oremos. Bye, babes!

quinta-feira, 25 de março de 2010

Manoel e a medalha Santos Dumont

Frederico Mendonça de Oliveira

A “primeira-dama” recebeu medalha de mérito Santos Dumont, causando estupefação em toda a banda saudável da sociedade brasileira e repercutindo feiamente nos meios aeronáuticos do Brasil e do exterior, especialmente na França, que tem no inventor brasileiro um símbolo de grandeza – Santos Dumont voou, pela primeira vez na história da Humanidade, em Paris – que os brasileiros em geral sequer sonham existir. Nossa gloriosa Aeronáutica, reduto de brasileiros digníssimos, de heróis, de desbravadores e de defensores (do que resta) da pátria, faz posição de sentido para que Marisão, mulher sem qualquer talento que não suportar a presença incômoda de um álacre imbecil 24 horas por dia, terá recebido a condecoração alegadamente por “serviços prestados à Força Aérea Brasileira”. Que diabos de “serviços”??? Viver direto e reto no Super 51 acompanhando o apedeuta biriteiro em 102 viagens ao mundo (ou mais de duas por mês, tal como semana sim, semana não) nos 40 meses de desfrute da presidência??. Sem contar, ora pois, as até aqui 283 viagens pelo Brasil, claro... Seria isso o que levou a Presidência a condecorar a ex-dulcorete primeira-dama envolvendo a Aeronáutica em patacoada vexaminosa jamais imposta a esta instituição gloriosa? Enter.
“Pois sim: as imagens que me remeteram são de um grotesco inimaginável, só vendo é que acreditamos!”, considera Manoel analisando os momentos de constrangimento enfrentados pelos oficiais e homens do ar envolvidos nesse absurdo. “É muita humilhação, verdadeira grosseria isso de fazer oficiais e soldados do ar render reverência militar a uma criatura desprovida de qualquer valor que não o simples fato de ser mulher do boneco alçado por forças ocultas à presidência da “república das bananas”!..., conjetura Manoel, apaixonado por aviões desde criancinha e homem reverente diante dos aeronautas, a quem dedica profundo respeito e admiração. “Mesmo tendo havido um homem como o brigadeiro João Paulo Penido Burnier, que ousou tentar manchar o nome da instituição forçando oficiais do Parasar (reduto de heróis, serviço de busca e salvamento da FAB) a praticar terrorismo de Estado mas foi brecado pelo duplamente herói capitão Sérgio “Macaco” Miranda, que se negou a praticar atentados, a Aeronáutica é uma das referências de grandiosidade em nossa história”. Mas Manoel já começa a tornar abrangente a visão que vinha abrigando em seu peito quanto a degenerescência política: “Pelo que tenho visto por aí, amada Maria, não é só aqui o país do desvio de significados essenciais: a Itália de Berlusconi, a França de Sarkozi, os EUA de tantos bonecos obedientes às forças ocultas, a Rússia sempre misteriosa mas sempre adversa, a Inglaterra de Blair e outras incógnitas, a Alemanha amordaçada desde 1945, tudo isso me parece que já era: apenas por lá as instituições ainda são mais estáveis”, define com perspicácia nosso herói, olhando ternamente para o carinho com que o gato mais novo trata sua linda Maria, uma cena comovente de constatação de afeto vinda de um lindo felino. Enter.
“Talvez a medalha tenha sido pelo número de horas voadas pelo mundo acompanhando o molusco”, disparou um brasileiro indignado com tanto descalabro e com tamanho surrealismo. Outro observador classifica a primeira-dama como sendo “primeira-anta” ou “primeira-inutilidade”. Pois, divertindo-se com tão monumental disparate, nosso herói até ironiza com sua amada, que o contempla com leve sorriso aquiescente: “Não, não sacaneiem tanto a pobre”, hilaria Manoel: “Afinal, não podemos esquecer que ela é mártir, basta considerar que... que... Oh, não seria elegante descer a certas cenas...”, e Maria e nosso herói trocam discretas mas gostosas risadas alegres, tendo o gato como fechamento de uma corrente de felicidade e comunhão de amor. E ele volta á carga, recondicionando o discurso de pilhéria: “Ele disse que ‘é homem muito capaz, que não brinca em serviço, pois, tão logo se casaram, a galega já foi ficando grávida!’...”, o molusco”. E Manoel não perde a oportunidade para lembrar a idiotice dessa grosseira fala; “Se ele acha que é muita coisa engravidar a mulher logo depois de casarem, o que ele diria das que são engravidadas antes de casar, hem? Hem?”, e a risada musical de Maria fecha uma linda cena com a presença do gato aninhado em seu colo delicioso. E vai se desenhando um ambiente de “rir para não chorar”, e o gato se harmoniza com a paz da lucidez serena do casal. Enter.
E Manoel discorre sobre a vida de Santos Dumont, um gênio que o Brasil não reverencia nem mesmo conhece – a não ser por logradouros que levam esse nome, como o aeroporto urbano carioca –, e se vê inflamado de entusiasmo relatando passagens da vida do grande brasileiro a sua pequena platéia luminosa de beleza: Maria e Téo, o jovem gato. E como que para completar a reunião de inteligência, beleza e amor, chega o soberano Zulu, o outro gato do casal, por sinal um gigante negro luzidio e cético, arredio por natureza, mas um rochedo de grandeza e beleza, mãe para o mais novo, e ei-lo já sentado majestosa e respeitosamente ao pé da linda e atraente Maria, que tem em seu colo o ainda menino Téo, de menos de um ano, e que combina um branco de algodão com um rajado alaranjado de rara beleza. Enter final.
E Manoel volta à carga: “Além do avião, Santos-Dumont inventou o dirigível, o relógio de pulso, o hangar e o ultraleve, a que ele deu o nome de Demoiselle, por sinal um desenho incomparável pela beleza e elegância!”, entusiasma-se nosso herói, sob os olhares de Maria, Téo e Zulu; Maria, atenta, toda bondade; Zulu e Téo observando a movimentação elétrica da fala de Manoel, que levanta o tom de voz tamanho o entusiasmo de falar sobre um ídolo que venera com deslumbramento. E, para Maria: “Que valor tem esse apedeuta que ocupa a presidência desse país para o qual só deu sua traição? Especialmente se comparando a um brasileiro como Santos Dumont, a insignificância e a miséria desse bugre é de causar náusea... e justamente a sua consorte também apedeuta se concede a medalha de mérito que leva o nome de um dos mais admiráveis brasileiros!” E um silêncio prenhe se sucede a esta fala, silêncio só cortado pelo vigoroso ronron do menino Téo. E viva Santo Expedito! Oremos. Bye, babes!

Nota
Faleceu na noite de 25/03/10 nosso amigão e irmão José Gileno Tiso Veiga, trespontano, um irredutível revoltado, homem de imenso coração, diferenciado radical entre os seus, pária por opção, sem outra opção que não se assumir um pária, paradoxalmente apaixonado pelo piano que lhe foi imposto desde criancinha, sublevado contra a sanha de o transformarem em gigante, conflito em pessoa, enfim: um exemplo de insubmissão à intenção de fazerem dele um cooptado.
Depois de décadas se arrebentando em protesto ao infortúnio inoculado, sucumbiu à autodestruição, enfrentando um vertiginoso declínio biológico marcado por duro sofrimento. A etapa final durou em torno de dois meses, tempo em que suas funções foram parando até sobrevir a instalação de um colapso generalizado.
Vá em paz, amigo. Na próxima, em que de novo conviveremos, Deus possivelmente dará a você um caminho de socorro ao próximo, aos sofredores, e a fantasia de grandeza que lhe impuseram nesta vida que você acaba de deixar não atormentará sua nova etapa.

Manoel, Maria e todos os amigos do casal, que o tinha em alta estima e resguardará sua memória

sexta-feira, 19 de março de 2010

Manoel e a loucura generalizada por aí

Frederico Mendonça de Oliveira

“É botar o nariz na rua e lá vem loucura de todos os lados. E mesmo sem sair de casa corremos o risco do mesmo jeito, perigando até ser pior. Basta ligar a TV aberta ou o rádio, por exemplo”, comenta Manoel, ao chegar de uma ida ao centro, com sua lindamente atenta Maria. É que nosso herói precisava de uma nova boceta para moedas, já que a que ele comprara há pouco tempo rebentou-se toda como por encanto. Foi-se o zíper, e as costuras da parte inferior desfizeram-se todas. Aí ficam saindo as moedas e caindo no bolso. “Que ‘grande problema’, isso, grande merda, é só comprar outra. Mas agora o problema é ACHAR outra: não se acha mais em lugar nenhum neste arraial! E uma caganifância dessa dimensão fica alugando o tempo inteiro, basta precisar meter a mão no bolso”. Passando por uma loja que vende só acessórios e bagulhinhos pra mulher, nosso herói é atendido por uma biba distante e desinteressada. Pior: justo ali, no espaço da prateleira onde se encontram as bocetinhas, bate a ventania de um ventilador imenso, e o cliente fica se descabelando e tomando aquele puta pé de vento, além de aturar a má vontade da biba. Conseguindo olhar o que tinha ali de bocetinhas, um monte de porcarias empetecadas com lantejoulas, paetês, vidrilhos e o cacete, Manoel logo tem de se pirulitar do pé de vento e da má vontade do baitola. Enter.
Já meio chamuscado desse fato, Manoel toma o rumo de casa, embora tendo previstas escalas antes de bater em retirada mesmo. E ao passar por uma esquina em que fica uma loja de bagulhos pra mulher, Manoel resolve arriscar achar uma boceta. Entra na loja e faz uma busca pelos incontáveis setores, até que dá de cara com um stand de bolsas e meias bolsas, bolsinhas tiracolo, carteiras... e é surpreendido por uma sirigaita com um sorriso sardônico revelador de vazio mental e espiritual. E lá vem a maldita pergunta: “Posso ajudar em alguma coisa?”, e Manoel ferve por dentro, por ter sido interrompido quando, em paz, já constatara não haver bocetinha nenhuma ali. Sereno mas contrariado, Manoel encara a mocréia e assunta: “Pelo que vejo, bolsas ou bolsinhas para moedas só seria aqui nesse stand, não?”, ao que a metediça responde: “É, é só aí...”. Embaraçado com aquela presença incômoda – ele não pediu ajuda a ninguém, porra!, porra!, pra que vem essa intrujona perguntar a MESMÍSSIMA MALDITA PERGUNTA lançada a qualquer pobre infeliz que entre em QUALQUER MALDITA LOJA NESTE MALDITO PAÍS? E o pior é a cara estranhamente amistosa quando a situação é de assédio ao pobre cliente que quer unicamente ter o direito de fuçar atrás do que precisa E NÃO QUER MERDA DE AJUDA MERDA NENHUMA DE DIABO DE NINGUÉM!! “O pior é que essa infeliz está fazendo o que mandam pra ganhar seu salário merreca, e sabe-se lá que tipo de relação entre patrões e empregados rola numa loja dessa natureza, onde quase toda a mercadoria é para suprir desejos fúteis, sem nada de inteligente...” Então nosso herói resolve trocar uma idéia com a pobre delambida, e cuidadosamente pergunta: “Por que fazem essa pergunta ‘Posso ajudar em alguma coisa?’ em simplesmente toooooooooodas as lojas onde se entra?”. A boboquinha se desconcerta, absolutamente sem condição mental pra responder a um questionamento inesperado e que a obriga a usar o cérebro – devidamente cooptado pelo sistema e com a função definida de não ser usado, de não funcionar. “Não, é que... a gente só quer ajudar... e...” – ao que Manoel considera: “Mas o freguês pode querer somente entrar na loja pra ver as coisas, sem qualquer compromisso, e, quando a vendedora vem perguntar isso, ela atrapalha, porque quem quer ajuda pede! Eu, por exemplo, não estou com pressa, e queria achar uma coisa por mim mesmo, sem ajuda. Se eu precisasse de ajuda, pediria. Eu entrei aqui, verifiquei que não tinha o que eu queria e ia saindo normal. Seria melhor, mais leve, eu não precisaria falar com ninguém nem me explicar, nem ter de me esquivar de receber ajuda.”. Aí a tchonguinha entrou numa de ter razão: “Mas o senhor pode ficar à vontade...”, e Manoel pondera: “Eu ESTAVA à vontade, não precisava SER DEIXADO À VONTADE, entende? Se você me aborda na loja quando eu estou concentrado na procura do que quero e me pergunta se pode ajudar, já me deixou embaraçado. Se eu digo que não preciso, você diz “fique à vontade”, mas eu já não estou mais à vontade: estava quando fazia o que queria, agora estou fazendo o que você quer. Mas ficamos assim. Muito obrigado.” Enter.
Pois Manoel sai meio sacaneado da merda de loja de bagulhos, sacaneado por ter, talvez, embaraçado a pobre infeliz. “Afinal”, ele considera, “a pobre está na batalha; mas esse procedimento comum no comércio hoje revela algo de deformidade geral. Será que os compradores compulsivos – e eles seriam oito em cada dez – são excitados por essa pergunta cínica e aí se realiza o ato do consumo compulsivo, patológico, consumando a satisfação de uma carência?”, e lá vai Manoel passar pelo supermercado, e lá vêm mais loucuras. Basta olhar para os seres se ocupando com consumir, um ato a cada dia mais carregado de uma dependência doentia... e logo nosso herói pega do que necessita e se manda rapidinho dali, deixando para trás a irracionalidade passeando no afã de saciar desejo de consumo. E Manoel sai pra rua lembrando ter visto lá vários seres com camisas listradas, umas parecendo zebras; outras, mandruvás... Enter final.
Pois Manoel topa com o amigo, nosso velho conhecido, e ele revela algo interessante. Um outro amigo, um brincalhão, chegou de visita e soltou uma bombinha no espaço em litígio que confina com a casa do amigo de Manoel. Pois foi admoestado por um morador a quem foi delegada a tarefa de capataz/síndico do pedaço. Outro dia, outro morador passou uma tarde com netos soltando bombas no mesmo lugar, e isso pode. Se é algo relacionado com o amigo de Manoel ou outrem ligado a esse amigo, aí não pode. “Loucura generalizada, eis o que vivemos. E aí, você: posso ajudar em alguma coisa? Não? Então fique à vontade...” E viva Santo Expedito. Oremos. Bye, babes...

sexta-feira, 12 de março de 2010

Manoel e o apedeuta falastrão e de ressaca

Frederico Mendonça de Oliveira

“Se a Rede Globo quisesse, o apedeuta falastrão já teria de há muito sido posto na rua por caras pintadas!”, comenta Manoel com sua amada Maria, que meio a contragosto acaba que se diverte elegantemente, discretamente, com um sorriso um tanto ensombrecido pela constatação da miséria política e social que nos assola. Acontece que Manoel, ao passar os olhos pelas primeiras páginas de jornais on-line, topou com um vídeo na Folha mostrando um dos últimos “discursos” do presidente apedeuta, fala da qual saltam pérolas que, batendo em nossas testas, doem como um cálculo renal cheio de arestas e imenso passando pelo ureter. A fala do trêfego “presidente” no vídeo, combinada com as imagens, causa uma espécie de náusea, aliás já costumeira quando ouvimos o timbre roufenho e hoje paradigmático do cinismo fundamental para a prática aberta do jogo do poder pelo poder. “Ele acha que é um filósofo popular, que tudo que fala é digno de ser considerado publicável como considerações de Lao Tsé, Confúcio, Bernard Shaw ou coisas que tais”, considera Manoel, sempre acachapado com ver as aparições do gaiato falastrão e sempre sentindo estranho constrangimento diante das falas do tipo. Enter.
Pois lembremos coisas. Apareceu na internet um vídeo em que o tagarelão fala sobre problema de poluição. Começa dizendo que Freud falou coisas que o mundo não haveria de entender. “Eu já disse várias vezes: Freud dizia que tinha algumas coisas que a humanidade não controlaria. Uma dela eram as intempéries". E daí o cara destampou para uma verborragia a respeito do motivo do encontro de Copenhagen em 2009, algo de pasmar qualquer ser dotado de um mínimo de informação: Disse, entre outros achados, que a poluição nos atinge porque a Terra é redonda. E empreendeu a viagem pela maionese, informando à platéia que “ela gira”... E quando ele falou na redondeza, apareceu no vídeo, já editado por quem acompanha essa deprimente patacoada, um emblema da campanha da Skol – que desce redondo, embora ele prefira o que desce quadrado ou retangular: uma cachaça. E continuou desfiando uma série de conceitos em seu Português de submundo, assistido por uma platéia que, seguramente, deveria estar perplexa por vivenciar o fenômeno que é um indivíduo desses estar na presidência de um país. Se ali estivessem professores de Geografia, de História, de Português, haveria severo constrangimento e espanto por estar ocupada a cadeira da mais alta magistratura “nefe paíf” por tal fanfarrão apedeuta. Os dois links ao fim deste texto exibem duas visões críticas editadas sobre o absurdo das falas sobre Copenhagen, em que até a locutora da Globo exibe um tom de leve comiseração pelo ridículo verificado e vivido naquele evento. E o terceiro é tema do que se segue. Enter.
Pois o vídeo apresentado na Folha de 11/03 último revela algo que parece uma reunião de gente muito estranha, e tudo fica mais estranho ainda sob as “palavras” do presidente palrador. Ele abre a fala chutando feio: “Quando cheguei no aeroporto”, quando a preposição que conecta o verbo chegar ao objeto (destino) é a. Depois veio "o governador não poder convidar a ministra PRA VIM AQUI. Depois fala: "...eu não queria dar EXPRICAÇÃO, queria dizer que é um desvio de comportamento DE não aceitar as coisas boas...". Dando prosseguimento ao vexame, ele conclui a escatologia verbal em todos os sentidos com um sonoro "REPÚBRICA". E, tirando essas cacetadas, proferidas seguramente sob ressaca, basta ver o aspecto amassado da face do discursador e sua verve inadequada para o momento, houve o fato do ato falho. Ato falho, aliás, que apenas dá continuidade a tantos outros, que fazem a alegria de quem quer ver o PT em ruínas, de quem se diverte com um doidivanas que caiu no ridículo depois de bancar o salvador da pátria por 25 anos, de quem gosta de ver um gaiato de verdade se estabacando diariamente diante de todos. Enter.
Useiro e vezeiro em bravatas ridículas – como dizer que “a Marisa, a galega, foi logo engravidando”, que lástima... –, o trêfego primeiro mandatário de repente, meio que surtando, começou a falar de si, aliás sua mais constante atitude desde que assumiu essa droga em 2002. E aí, diante de uma assembléia de autoridades cariocas liderada pelo Cabralzinho governadô, Lula começou a se gabar de ter aprendido a fazer política na adversidade. Disse seu um “casco duro”, o que dá pra ver só pelo linguajar normalmente chulo, e soltou a frase de efeito – só que se embananou no próprio surto e se contradisse. Afirmou que “se dependesse de levar bordoada, eu não teria chegado até aqui”, coisa por aí. Ora, então ele não levou bordoada! Veja só você: “dependeu de muita bordoada eu chegar até aqui” é o que ele quis dizer, ampliando a noção de ser um casco duro e de ter aprendido a fazer política na adversidade. Nota-se que é um trapalhão, que se mete a dizer coisas impressionantes e acaba invertendo o teor da mensagem, em mais um ato falho. Você lembra de ele saudando o povo venezuelano dizendo “Querido povo de Bolívia”? Ou de quando ele falou que “o que mais despenca neste país é o salário, ops!, a inflação”? Ou quando disse que o governo dele “foi até hoje o que mais combateu a ética!”, quando queria dizer a corrupção? Esta última pérola de mancada ocorreu quando do escândalo decorrente da famosa declaração do Wagner Tiso, aquilo: “Não estou nem aí para a ética do PT nem para qualquer tipo de ética! O que importa é o jogo do poder!”, e aí o trapalhão represidenciável, cheio de 51 na caveira, troca as bolas em meio ao tiroteio. A turma se dobra de rir! Enter final.
E Manoel considera: “Com tanto ‘alpiste’ no quengo, não há quem não troque as palavras, as idéias, as decisões e até as pernas! Mas o pior é que estamos todos sob ele!”, e com um gesto de compreensão e perdão, embora sabendo que isso há de piorar a cada dia, Manoel abre o congelador e puxa uma latinha. E pensa consigo: “Uma loura gelada é uma loura gelada, mesmo um tanto delas é de se tolerar. Mas viver atolado na pinga?? Porra, é um doido!”. E viva Santo Expedito! Oremos. Bye, babes!

http://www.youtube.com/watch?v=FHzWORHrKcQ

http://www.youtube.com/watch?v=k0DcY2QNV1E.

http://www.youtube.com/watch?v=Mk4E2RMYaQQ

http://www.youtube.com/watch?v=8iA0I6m6dFk&feature=related