Frederico Mendonça de Oliveira
Desengano talvez não seja o termo preciso, mas é por aí. Não se pode minimizar os impactos sucessivos sofridos por Manoel nas montanhas sul-mineiras, e o fato de eles serem seguidos e fortes realmente faz com que levemos a sério este tão duro percurso. Dá-se que nosso herói não é lá muito apaixonado, a esta altura da vida, por putinhos alheios, especialmente porque os cinco rebentos que ele botou neste mundo já vivem suas vidas pra lá, já existe até uma netinha linda, filha do primeirão, que, sem intenção de rima, vive no Japão. Manoel aboletou-se nas montanhas para poder dar vazão a seus talentos, que ele manteve em suspensão para se dedicar por anos a formar a cuca da turma, preocupado com os “valores” da família de sua ex, do que tomou consciência ao longo do viver conjugal que se deteriorou de forma inevitável. Hoje são águas passadas, e os putos viraram adultos, e, incrível, o sacrifício de Manoel não vingou: os filhos foram “moldados” naqueles “valores” – mas Manoel tem a consciência tranqüila de ter batalhado duro, e considera serem águas passadas, e foi em frente, pois atrás vinha gente. Enter.
A tal pracita toma hoje muito do tempo de Manoel: sem que ele quisesse, a bosta virou uma queda de braço. Alguns mineiros cínicos perguntam, com hipocrisia típica, por que ele estaria brigando com os figurões que fizeram a coisa. Manoel, já emputecido, os manda à merda entre dentes, enquanto responde claramente que não é ele que está brigando contra porra nenhuma, o que acontece é que invadiram-lhe a casa. Os interlocutores safados calam, sem argumento, mas a pergunta de canalhas fica no ar, e a fisionomia dos estúpidos mantém a pergunta, como se a resposta de nada valesse como esclarecimento. Picardia de pilantras, jogo de cínicos, a que o sangue lusitano não se adapta NUNCA! E a degenerescência prossegue, com a vizinhança adaptada ao crime como vermes juntinhos na bicheira, aquele asco. O coração de nosso herói é forte, mas mesmo sem sinais de risco Manoel começa a temer o infarto ou o AVC, tanto lhe sobe o sangue à cabeça. O último incidente foi escrotíssimo. Enter.
Nesta fase de águas dezembrinas, as dondocas que se reúnem com seus putinhos na pracita batiam em retirada para casa com crianças, carrinhos e tudo quando cruzaram com Manoel e o morador mais perseguido na história. Eles chegavam do centro, e a chuva ameaçava cair pesado. Viu que o morador observou feliz a saída daqueles seres, as mães e babás por serem consolidadoras do ilícito ao freqüentar religiosamente o espaço em litígio; os putinhos, por serem instrumentos de uma perseguição torpe e de uma adesão a um crime depravado. Pois uma das dondocas, mais saída, provocou o morador, falando para seu putinho: “Pula, pula! Faz barulho! Faz barulho!”. A revolta subiu à cabeça de Manoel quando viu o morador ser insultado assim, mas não pelo insulto em si: pela deformidade da índole daquela mocréia (embora jovem e até, vá lá, bela), que não hesita em usar seu putinho para causar mal estar ao já idoso morador decente, um legalista que acabou sozinho contra os safados que desfrutam do crime. O pobre-diabinho já é instrumento para os instintos deformados daquela alma desnaturada, usado para causar mal estar contra alguém que não faz mal a ninguém, apenas discorda do ilícito de que a maluca faz uso com cinismo e acinte assumidos! A que ponto chega a estupidez malsã dessa “gente”! “Puta que pariu!”, como disse Graciliano Ramos à página 51 do seu Angústia, edição de 1953, que Manoel leu em Coimbra. Indignado, Manoel verificou a consternação batendo no espírito humanista do amigo, que quedava abestalhado. Enter.
“Terei cervejas no congelador??”, pergunta-se Manoel já preocupado com fazer descer pela goela, com a ajuda de uma geladézima, a afronta daquela criatura de caráter tão deformado. “Ah, tem aquelas que sobraram de domingo!, claro!”, e Manoel se despede do meio esverdeado amigo, cuja coloração se deverá à bile que lhe subiu aos miolos depois da afronta fútil e escrota. E, já em sua copa, a cerveja branca de neve salta para a mesa, e eis nosso herói socando goles goela abaixo, para diluir a estupefação que se transformou em pedra em sua garganta. Enter final.
“Posso ajudar em alguma coisa?”, pergunta a sirigaita a Manoel, que passa os olhos pelas prateleiras de uma loja em busca de uma porcaria de que está precisando. “SIM! PODE! VÁ PRO DIABO QUE A CARREGUE! AJUDAR DIABO DE MERDA NENHUMA! ESTOU A OLHAIRE E SEI O QUE QUERO!! MERDA! PORRA!”, pensa Manoel olhado para a pobre coitada. “Os brasileiros endoidaram de vez!”, resmunga consigo. E viva Santo Expedito! Oremos. “Posso ajudaire em alguma coisa?”
sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
Desventuras de um lusitano nas montanhas de Minas
Frederico Mendonça de Oliveira
Premido por circunstâncias negativas diversas no arraialito onde se acoitou há 24 anos fugindo das maluquices do Rio, Manoel se decidiu pela radicalização. Consciente do colapso da civilização em todos os sentidos – colapso de significados, de instituições, de condições positivas de vida do homem em harmonia com a Natureza, colapso de sentimentos, de tudo” –, Manoel começa a ver no total desprezo à matéria e ao “convívio social” a única saída para estar vivo neste mundo. A ação dos globalizadores corrompeu as almas dos seres humanos comuns, depois de corromper os Estados através do golpe de misericórdia dos Aliados ao fim da II Guerra, depois vindo Coréia, Vietnam, agora Oriente Médio – Afeganistão e Iraque, sem contar o horror da ação de Israel sobre os palestinos –, e não há qualquer perspectiva de reversão desse quadro. Some-se a isso a ação fatal dos meios de comunicação, câncer que começou com Hollywood operando contra a tradição católica ocidental e se aprofundou quando do advento da TV, que penetrou nos lares para estupidificar os seres e desagregar as famílias praticando acintosa intervenção intradoméstica. Enter.
O quadro é devastador, e Manoel ouve a todo momento o cricrilar espantoso dos Gryllus Assimilis, no Brasil chamados simplesmente de grilos, onde quer que esteja, onde quer que vá. Nas ruas, seres transformados em objetos deambulam flatulentos e paquidérmicos entupindo lojas e calçadas, impedindo o simples deslocar-se de seres conscientes, que ocorrem no cenário urbano em proporção de um para cada dez mil bugres vestidos. Ou macacos sem rabo, como quiser, amigo. Se se pega o telefone para ligar para alguém, o maldito intermediário nos submete a um interrogatório normalmente sórdido, não permitindo a ele escapar de uma sabatina safada tanto quanto absolutamente desnecessária. Entra-se numa loja e lá vem a sirigaita ou o bibazito – e isso ocorre do Oiapoque ao Chuí – arremetendo contra o possível otário para obrigá-lo a desembolsar, perguntando estupidamente: “Posso ajudar em alguma coisa?”, e Manoel por dentro se contorce de desconforto, e grita consigo: “Cínicos! Esses brasileiros não passam de uns cínicos!!!”. Não se pode mais entrar numa porra de loja pra olhar alguma besteira, para ter o prazer de encontrar algo interessante – ou não: muitas vezes entramos numa loja para NÃO COMPRAR, para unicamente ver, com isso buscando apenas uma rápida distração, às vezes para escapar a um congestionamento de bestas palradeiras que obstruem as calçadas. Enter.
Dirigir nas ruas do arraialito, nem pensar. Manoel se desfez de seu Dodge Polara de estimação porque o desgosto de dirigir entre bugres o estava estressando a ponto de perder o sono e tender a beber mais que o natural. Manoel não entende por que, para dobrar uma esquina, os motoristas destas montanhas ficam a 45 graus parados na esquina olhando para um lado e para outro. “NÃO VEM NINGUÉM, PORRA!!, pra que parar dessa maneira, ó pá??? Como é que tu tiraste a carteira, alimária???”. A dificuldade que os arraialeiros de ordinário encontram para conseguir tomar a iniciativa de dobrar uma esquina é semelhante a eles cagarem um velocípede daqueles antigos, de lata – não os rechonchudos velotróis de hoje. O mesmo se dá quando em um cruzamento: se tem placa de Pare, os arraialeiros não param; se não tem, param. O que são os brasileiros? Malucos emburrecidos ou burros amalucados? Lembrando Graciliano Ramos, escritor brasileiro que Manoel leu em Coimbra na juventude – e que os brasileiros de hoje desconhecem!... – na página 51 de Angústia, onde se lê “Que sujeito burro! Puta que o pariu!”, Manoel converte em literatura sua estupefação diante do caos em que se vê metido. Enter.
Certo de que dirigir não dá mais, Manoel se decide por comprar um... burro. Sim: um BURRO. E já sabe o nome que dará ao orelhudo asinino: Excelência. Isto porque o poder no Brasil chegou à dimensão de ter um ser de mentalidade de verdureiro na presidência da República e um bando de quadrupedâncias solertes ocupando toda a esfera de poder – salvo as exceções de praxe, óbvio. “Como pode um país fazer qualquer sentido se conduzido para o abismo por tamanha malta de néscios e velhacos??”, questiona Manoel engasgando com o gole de cerveja. Então, que venha Excelência, uma boa companhia – os arraialeiros e mesmo os locutores de rádio e TV dizem “compania”, os toupeiras –, se considerado o fato de os brasileiros estarem se impondo descer à condição de burros mas conseguindo ser em tudo burros no mau sentido. Pelo menos Excelência não dirá nem fará asneiras, não perguntará se pode ajudar em alguma coisa, não ficará bostejando cretinices no passeio com outros muares obstando o ir e vir de outrem, não dirigirá como um bruaqueiro maratimba, não ficará abestalhado diante da TV assistindo a novelas porcas ou a Sílvio Santos cantando “A pipa do vovô não sobe mais”, canção miserável que o apresentador de merdas fez para um carnaval aí. Enter final.
Então Manoel vai comprar tudo: arreio, baixeiro, freio, cabresto, peitoral, rabicho, e vai alugar um terreno perto de sua casa – tem um quase em frente, cheio de capim – para arranchar Excelência. Melhor ainda: Manoel não terá de pagar IPVA, não gastará combustível, não terá problemas com a manutenção de seu veículo. E andará em alto estilo pelas ruas do arraial, na verdade feitas para quadrúpedes. E pela primeira vez em anos Manoel sente que algo faz sentido em sua vida. A pracita será demolida, mas um burro agora vem a calhar. Excelência lhe fará boa companhia, lhe trará sentido para esta vida entre decadentes assumidos. E viva Santo Expedito! Oremos. Bye, babes!
Premido por circunstâncias negativas diversas no arraialito onde se acoitou há 24 anos fugindo das maluquices do Rio, Manoel se decidiu pela radicalização. Consciente do colapso da civilização em todos os sentidos – colapso de significados, de instituições, de condições positivas de vida do homem em harmonia com a Natureza, colapso de sentimentos, de tudo” –, Manoel começa a ver no total desprezo à matéria e ao “convívio social” a única saída para estar vivo neste mundo. A ação dos globalizadores corrompeu as almas dos seres humanos comuns, depois de corromper os Estados através do golpe de misericórdia dos Aliados ao fim da II Guerra, depois vindo Coréia, Vietnam, agora Oriente Médio – Afeganistão e Iraque, sem contar o horror da ação de Israel sobre os palestinos –, e não há qualquer perspectiva de reversão desse quadro. Some-se a isso a ação fatal dos meios de comunicação, câncer que começou com Hollywood operando contra a tradição católica ocidental e se aprofundou quando do advento da TV, que penetrou nos lares para estupidificar os seres e desagregar as famílias praticando acintosa intervenção intradoméstica. Enter.
O quadro é devastador, e Manoel ouve a todo momento o cricrilar espantoso dos Gryllus Assimilis, no Brasil chamados simplesmente de grilos, onde quer que esteja, onde quer que vá. Nas ruas, seres transformados em objetos deambulam flatulentos e paquidérmicos entupindo lojas e calçadas, impedindo o simples deslocar-se de seres conscientes, que ocorrem no cenário urbano em proporção de um para cada dez mil bugres vestidos. Ou macacos sem rabo, como quiser, amigo. Se se pega o telefone para ligar para alguém, o maldito intermediário nos submete a um interrogatório normalmente sórdido, não permitindo a ele escapar de uma sabatina safada tanto quanto absolutamente desnecessária. Entra-se numa loja e lá vem a sirigaita ou o bibazito – e isso ocorre do Oiapoque ao Chuí – arremetendo contra o possível otário para obrigá-lo a desembolsar, perguntando estupidamente: “Posso ajudar em alguma coisa?”, e Manoel por dentro se contorce de desconforto, e grita consigo: “Cínicos! Esses brasileiros não passam de uns cínicos!!!”. Não se pode mais entrar numa porra de loja pra olhar alguma besteira, para ter o prazer de encontrar algo interessante – ou não: muitas vezes entramos numa loja para NÃO COMPRAR, para unicamente ver, com isso buscando apenas uma rápida distração, às vezes para escapar a um congestionamento de bestas palradeiras que obstruem as calçadas. Enter.
Dirigir nas ruas do arraialito, nem pensar. Manoel se desfez de seu Dodge Polara de estimação porque o desgosto de dirigir entre bugres o estava estressando a ponto de perder o sono e tender a beber mais que o natural. Manoel não entende por que, para dobrar uma esquina, os motoristas destas montanhas ficam a 45 graus parados na esquina olhando para um lado e para outro. “NÃO VEM NINGUÉM, PORRA!!, pra que parar dessa maneira, ó pá??? Como é que tu tiraste a carteira, alimária???”. A dificuldade que os arraialeiros de ordinário encontram para conseguir tomar a iniciativa de dobrar uma esquina é semelhante a eles cagarem um velocípede daqueles antigos, de lata – não os rechonchudos velotróis de hoje. O mesmo se dá quando em um cruzamento: se tem placa de Pare, os arraialeiros não param; se não tem, param. O que são os brasileiros? Malucos emburrecidos ou burros amalucados? Lembrando Graciliano Ramos, escritor brasileiro que Manoel leu em Coimbra na juventude – e que os brasileiros de hoje desconhecem!... – na página 51 de Angústia, onde se lê “Que sujeito burro! Puta que o pariu!”, Manoel converte em literatura sua estupefação diante do caos em que se vê metido. Enter.
Certo de que dirigir não dá mais, Manoel se decide por comprar um... burro. Sim: um BURRO. E já sabe o nome que dará ao orelhudo asinino: Excelência. Isto porque o poder no Brasil chegou à dimensão de ter um ser de mentalidade de verdureiro na presidência da República e um bando de quadrupedâncias solertes ocupando toda a esfera de poder – salvo as exceções de praxe, óbvio. “Como pode um país fazer qualquer sentido se conduzido para o abismo por tamanha malta de néscios e velhacos??”, questiona Manoel engasgando com o gole de cerveja. Então, que venha Excelência, uma boa companhia – os arraialeiros e mesmo os locutores de rádio e TV dizem “compania”, os toupeiras –, se considerado o fato de os brasileiros estarem se impondo descer à condição de burros mas conseguindo ser em tudo burros no mau sentido. Pelo menos Excelência não dirá nem fará asneiras, não perguntará se pode ajudar em alguma coisa, não ficará bostejando cretinices no passeio com outros muares obstando o ir e vir de outrem, não dirigirá como um bruaqueiro maratimba, não ficará abestalhado diante da TV assistindo a novelas porcas ou a Sílvio Santos cantando “A pipa do vovô não sobe mais”, canção miserável que o apresentador de merdas fez para um carnaval aí. Enter final.
Então Manoel vai comprar tudo: arreio, baixeiro, freio, cabresto, peitoral, rabicho, e vai alugar um terreno perto de sua casa – tem um quase em frente, cheio de capim – para arranchar Excelência. Melhor ainda: Manoel não terá de pagar IPVA, não gastará combustível, não terá problemas com a manutenção de seu veículo. E andará em alto estilo pelas ruas do arraial, na verdade feitas para quadrúpedes. E pela primeira vez em anos Manoel sente que algo faz sentido em sua vida. A pracita será demolida, mas um burro agora vem a calhar. Excelência lhe fará boa companhia, lhe trará sentido para esta vida entre decadentes assumidos. E viva Santo Expedito! Oremos. Bye, babes!
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
Agruras e queixumes de um lusitano nas montanhas de Minas
Frederico Mendonça de Oliveira
"Ora ora!, pois pois!, que os diabos me levem se estou a perder a noção de mim mesmo, ó pá!", vive resmungando Manoel, nosso herói, pelos cantos ou andando pelas ruas abarrotadas de macacos sem rabo andando sem rumo – já que o rumo das árvores para onde essa choldra tende a voltar está perdido, seria perigoso reabitá-las sem apêndice caudal. Manoel contempla os brasileiros vendo-os degenerar não abestalhados ou pasmos, mas tomados de um tipo inconcebível de delícia mórbida... mas desde a criação daquela maldita pracita que Manoel vai considerando que os brasileiros andam a perder sua própria idéia de vida, de tudo. Basta ver os parlamentares e governantes que elegem, vide o maluquete que ocupa a presidência... Enter.
"Gostas de merda, ó pá? Pois estou a chafurdar nela, e não vejo como voltar a Portugal por agora, mas a burrice neste país faz dele um hospício dos mais loucos que possa conceber a imaginação mais delirante!", comenta Manoel como se falasse a amigos, mas ruminando consigo mesmo, vendo as aberrações mais absurdas ocorrendo à solta. Conversando com uma finíssima pessoa sobre a pracita, soube que uma outra pessoa influente nos meios universitários da cidade criticou um morador que vem sendo massacrado por resistir, em nome da lei (!!!), à aberração urbanística. Esta criatura influente dizia a seus alunos que "o morador é meio maluco (por exigir cumprir-se a lei??) e que a pracita é uma belezita, que ficou tão agradável a vista dela tão bem tratadinha"... "Sim, sim", replicou um aluno depois da aula, "mas é ilegal e tremendamente prejudicial ao bairro, à cidade e às instituições, especialmente porque rasga a lei federal que protege o espaço e o faz intocável e porque mija na Lei Orgânica do Município". A tal figura influente desconversou, como convém aos cínicos... Enter.
"Não entendo como os brasileiros podem gostar de se comportar como mulas!", desabafa Manoel em relação a essa figura influente que ou está a desandar a cabeça de seus alunos para agradar a corruptos poderosos ou trata-se ela mesma de um exemplar asinino vestido de belos panos. Ele, que estudou em Coimbra como o poeta baiano Gregório de Matos, não pode esquecer o que este disse sobre o Brasil degenerado já em tempos idos do século XVII: "Adeus, praia; adeus, cidade,/ e agora me deverás,/
velhaca, dar eu a Deus/ a quem devo ao demo dar", recita meio que rugindo nosso herói de fígado amargurado, e a tal ponto que nem uma cerveja brasileira, que dizem ser "paixão nacional" pode aplacar. Condoído por ver o retrocesso social galopante e maligno em que está inserido até dele poder se desvencilhar, Manoel começa a roer a alma. E prossegue lembrando os versos de Gregório de Matos, um dos poucos homens nesta terra que viu e denunciou a merda que o cercava. Lembrou-se do poeta definindo sua cidade, Salvador: o mote é "De dois ff se compõe/ esta cidade a meu ver/ um, furtar; outro, foder"; a glosa é: "Provo a conjetura já/ prontamente como um brinco:/ Bahia tem letras cinco/ que são BAHIA,/ logo ninguém me dirá/ que dois ff chega a ter/ pois nenhum contém sequer,/ salvo se em boa verdade/ são os ff da cidade/ um furtar, outro, foder". E Manoel suspira ao considerar que um autor como este, cuja obra encarta também uma linda parte religiosa em que seus sonetos ao Cristo até hoje comovem com raro impacto, sequer é lembrado no Brasil senão em salas de aula de Literatura, mas que os que o tomam o fazem por obrigação ou interesse material, e logo está de novo esquecido. Que dizer da turba ignara, em que se inserem até mesmo professores e dentistas!... A estes, Manoel, amargando seu exílio, seja local seja em ultramar, declama com fúria o mesmo Gregório de Matos que ele tanto admira: "Adeus, prolixas escolas/ com lentes, bedéis, secretários/ que tudo somado é NADA!". Enter.
E assim se vai preparando Manoel para cruzar de novo – “e sem volta!!”, exclama ele com seus botões – o Atlântico, oceano que os arraialeiros aqui, como ele passou a vê-los, chamam de “Atrântico’, e que mal sabem o que significa, senão que é longe e grande. Como não sabem, os arraialeiros, o porquê de um feriado que parou o país – embora já esteja parado desde 1964 –, mas que os fez trabalhar mesmo assim, e putos da vida, mas obedecendo, para não ficar sem o feijão na barriga depois peidante. O feriado era 15 de Novembro, proclamação da República, que os arraialeiros ignoram, mas que, obrigados a palrar esse nome, dizem: “Pocramação da Repúbrica”. Enter final.
E o coração de Manoel se aperta quando lembra o também poeta Carlos Drummond de Andrade, que verseja sobre o si mesmo desolado pela perda das perspectivas neste Brasil desonrado e desgraçado, da mesma forma que Manoel agora sofre: “Quer voltar pra Minas/ Minas não há mais”. Sofre Manoel pelo sofrimento de Carlos Drummond, que se pergunta “E agora, José?” da mesma forma que Manoel se indaga de si. O oceano azul profundo o salvará? E viva Santo Expedito! Oremos. ’Té pra semana, babes!
"Ora ora!, pois pois!, que os diabos me levem se estou a perder a noção de mim mesmo, ó pá!", vive resmungando Manoel, nosso herói, pelos cantos ou andando pelas ruas abarrotadas de macacos sem rabo andando sem rumo – já que o rumo das árvores para onde essa choldra tende a voltar está perdido, seria perigoso reabitá-las sem apêndice caudal. Manoel contempla os brasileiros vendo-os degenerar não abestalhados ou pasmos, mas tomados de um tipo inconcebível de delícia mórbida... mas desde a criação daquela maldita pracita que Manoel vai considerando que os brasileiros andam a perder sua própria idéia de vida, de tudo. Basta ver os parlamentares e governantes que elegem, vide o maluquete que ocupa a presidência... Enter.
"Gostas de merda, ó pá? Pois estou a chafurdar nela, e não vejo como voltar a Portugal por agora, mas a burrice neste país faz dele um hospício dos mais loucos que possa conceber a imaginação mais delirante!", comenta Manoel como se falasse a amigos, mas ruminando consigo mesmo, vendo as aberrações mais absurdas ocorrendo à solta. Conversando com uma finíssima pessoa sobre a pracita, soube que uma outra pessoa influente nos meios universitários da cidade criticou um morador que vem sendo massacrado por resistir, em nome da lei (!!!), à aberração urbanística. Esta criatura influente dizia a seus alunos que "o morador é meio maluco (por exigir cumprir-se a lei??) e que a pracita é uma belezita, que ficou tão agradável a vista dela tão bem tratadinha"... "Sim, sim", replicou um aluno depois da aula, "mas é ilegal e tremendamente prejudicial ao bairro, à cidade e às instituições, especialmente porque rasga a lei federal que protege o espaço e o faz intocável e porque mija na Lei Orgânica do Município". A tal figura influente desconversou, como convém aos cínicos... Enter.
"Não entendo como os brasileiros podem gostar de se comportar como mulas!", desabafa Manoel em relação a essa figura influente que ou está a desandar a cabeça de seus alunos para agradar a corruptos poderosos ou trata-se ela mesma de um exemplar asinino vestido de belos panos. Ele, que estudou em Coimbra como o poeta baiano Gregório de Matos, não pode esquecer o que este disse sobre o Brasil degenerado já em tempos idos do século XVII: "Adeus, praia; adeus, cidade,/ e agora me deverás,/
velhaca, dar eu a Deus/ a quem devo ao demo dar", recita meio que rugindo nosso herói de fígado amargurado, e a tal ponto que nem uma cerveja brasileira, que dizem ser "paixão nacional" pode aplacar. Condoído por ver o retrocesso social galopante e maligno em que está inserido até dele poder se desvencilhar, Manoel começa a roer a alma. E prossegue lembrando os versos de Gregório de Matos, um dos poucos homens nesta terra que viu e denunciou a merda que o cercava. Lembrou-se do poeta definindo sua cidade, Salvador: o mote é "De dois ff se compõe/ esta cidade a meu ver/ um, furtar; outro, foder"; a glosa é: "Provo a conjetura já/ prontamente como um brinco:/ Bahia tem letras cinco/ que são BAHIA,/ logo ninguém me dirá/ que dois ff chega a ter/ pois nenhum contém sequer,/ salvo se em boa verdade/ são os ff da cidade/ um furtar, outro, foder". E Manoel suspira ao considerar que um autor como este, cuja obra encarta também uma linda parte religiosa em que seus sonetos ao Cristo até hoje comovem com raro impacto, sequer é lembrado no Brasil senão em salas de aula de Literatura, mas que os que o tomam o fazem por obrigação ou interesse material, e logo está de novo esquecido. Que dizer da turba ignara, em que se inserem até mesmo professores e dentistas!... A estes, Manoel, amargando seu exílio, seja local seja em ultramar, declama com fúria o mesmo Gregório de Matos que ele tanto admira: "Adeus, prolixas escolas/ com lentes, bedéis, secretários/ que tudo somado é NADA!". Enter.
E assim se vai preparando Manoel para cruzar de novo – “e sem volta!!”, exclama ele com seus botões – o Atlântico, oceano que os arraialeiros aqui, como ele passou a vê-los, chamam de “Atrântico’, e que mal sabem o que significa, senão que é longe e grande. Como não sabem, os arraialeiros, o porquê de um feriado que parou o país – embora já esteja parado desde 1964 –, mas que os fez trabalhar mesmo assim, e putos da vida, mas obedecendo, para não ficar sem o feijão na barriga depois peidante. O feriado era 15 de Novembro, proclamação da República, que os arraialeiros ignoram, mas que, obrigados a palrar esse nome, dizem: “Pocramação da Repúbrica”. Enter final.
E o coração de Manoel se aperta quando lembra o também poeta Carlos Drummond de Andrade, que verseja sobre o si mesmo desolado pela perda das perspectivas neste Brasil desonrado e desgraçado, da mesma forma que Manoel agora sofre: “Quer voltar pra Minas/ Minas não há mais”. Sofre Manoel pelo sofrimento de Carlos Drummond, que se pergunta “E agora, José?” da mesma forma que Manoel se indaga de si. O oceano azul profundo o salvará? E viva Santo Expedito! Oremos. ’Té pra semana, babes!
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
Agruras de um lusitano nas Alterosas
Frederico Mendonça de Oliveira
"Enquanto o pau vai e vem, o lombo descansa", eis o ditado que Manoel começou a recordar constantemente nas montanhas sul-mineiras, tantas as cacetadas que passou a levar desde que construíram a pracita ao lado de sua propriedade. Educado na cartilha lusa, em que os exemplos para a conduta moral ou para os perigos e as curvas da vida são passados através de ditados (adágios, provérbios) populares, Manoel via que só por isso já estava em severo exílio entre os montanheses no meio dos quais se imiscuiu. Não que aqui não se exerça algo até parecido, embora muito diluído, mas é que aqui a TV assumiu a dianteira da vida social de tal forma que a coisa do ditado, característica e prerrogativa da família, hoje em colapso, não tem nem mais a sombra longínqua daquela solidez, daquela tradição. No Rio, onde passou tempos ouvindo zunidos de balas perdidas e sons de tiros tanto longe como perto, ainda restava algum viço daquela prática, pelo fato de ainda haver muito de lusitanismo na vida carioca, praticado pelos seus patrícios que lá estão – mas que formaram comunidade coesa e à parte, tentando preservar os conteúdos da Santa Terrinha em solo tupiniquim. Enter.
"Tantas vezes vai o gato ao moinho que uma vez lá lhe fica o focinho". Amigo dos bichanos, Manoel desde menino parava pra pensar no gato indo ao moinho apanhar os ratos que viviam ali e um dia, dando bobeira por se sentir seguro demais sendo gato e por se ver à vontade perto do mó, seu focinho lindo leva uma pancada feia da pedra rotativa... mas até que essa história começou a lhe causar certo desconforto: aqui no Brasil os ratos infestam os moinhos do poder, e os gatos, transformados em vilões nesta conjuntura acética brasileira, que parece tudo querer corromper, NUNCA, NUNCA levam a traulitada corretiva a que alude o ditado que abriu este parágrafo. Aqui, gatos e ratos são gatunos, são do mal, e convivem de forma harmônica e a salvo de intervenções do cosmo regenerador, ou das instituições de defesa da saúde social. Enter.
E, falando em gatos, é impressionante os brasileiros serem tão envolvidos com cachorros, parece que virou algo tão indispensável quanto a novela das oito ou o gesto de ligar a televisão. Queres casa? Primeira coisa: providenciar a TV e o (s) cachorro (s). E tanto a TV bosteja seu áudio com aquela tagarelice interminável e caótica quanto os cachorros latem, latem, latem, dias inteiros, horas a fio, parecendo que os dois "equipamentos" são interligados, como que acoplados à vida dos brasileiros e indispensáveis como o poluído ar que respiram (mal, por sinal). Neste exato momento em que são escritas estas mal traçadas, ocorre um comprido estouro de latidos e uivos na vizinhança, trata-se de um canil (proibido por lei em área urbana, mas, e daí? "Foda-se a lei", dizem eles!) a oeste da casa de Manoel, já houve até processo contra o dono, mas o canil está aí, continua, como ainda mais outro, ao sul, que ocupa um terreno inteiro, e nada o erradica. A lei dizia que haver três cães numa casa já configura canil. A Prefeitura ampliou isso para sete, para escapar da responsabilidade de ter de coibir. Pois um dos canis a que Manoel se refere chega a ter mais de 40 cães... e fica por isso mesmo. Os vizinhos que arranquem as calças pela cabeça. E a coisa é pra lá de maluca: "Cachorros, aqui", reclama o Manoel, "são preferência nacional, como cerveja, que os brasileiros bebem como que desejando explodir suas barrigas". Além de existirem cães aos montes a ponto de serem população comparável ou superior à de humanos, existem também os de rua, em grande quantidade, formando outra imensa população. Quando as cadelas de rua entram no cio, vêem-se grupos de dezenas de cães seguindo-as, e o espetáculo que fornecem, combinando a constrangedora cópula e a posterior fase engatada a combates feíssimos, medonhos, às vezes até interrompendo tráfego de veículos em avenidas, é desprezível, beirando, quando não alcançando, o dantesco. E diante disso os mineiros laconicamente comentam: "É complicado!...", e a degenerescência vai se consolidando sob olhares lenientes, condescendentes, até cúmplices. “Eles chamam isso de ‘jeitinho brasileiro!’”, brada Manoel para consigo, implodindo indignação, e nesse momento ele pensa numa cerveja, fazer o quê? Enter.
Mais maluco ainda é o fato de as pessoas que têm gato serem tidas como excêntricas!... Gatos são, até por herança católica de Portugal, bichos de bruxas e capetas. Manoel observa que os brasileiros, por outro lado, não sabem trocar afeto com seres conscientes e assumidos, como são os gatos. Cães são obedientes, quando não subservientes, servis. Gatos, não: sua dignidade felina determina uma relação obedecendo a quesitos de respeito e confiabilidade trabalhada. Para espanto de Manoel, os brasileiros parece que só se entendem sob a égide da subserviência. Aqueles que manifestam sua individualidade assumida são tidos, especialmente pelos mineiros, como “sistemáticos”, até mesmo “criadores de caso”. E como os gatos de Manoel circulam digníssimos pela pracita hetera, motivo de sérias dores de cabeça, eis que os seres que a freqüentam, quase todos tendendo a voltar à copa das árvores que abundam (êpa!) na pracita (parece que não o fazem por terem perdido o rabo nesta “evolução” de milênios por que passaram, ou, melhor, foram passados), lançam para Manoel – e para os mui impolutos e belos gatos deste – olhares de repúdio e desprezo. “Intelijumentos!”, rosna consigo Manoel, já sentindo humores dispépticos, o ácido clorídrico querendo fazer estragos em sua mucosa gástrica. Enter final.
“Tantas vezes vai o cântaro à fonte que um dia se quebra”, vociferava a voz da avó de Manoel, egressa da quase costeira Torres Vedras, ao norte de Lisboa. “Só se quebra se for lá em Portugal”, tritura consigo nosso herói: ele já estava no Brasil quando defenestraram Collor, quando estourou o escândalo dos anões do Orçamento, quando prenderam o deputado Hildebrando Motosserra e o juiz Lalau e sua quadrilha. “Estão todos soltos ou vivendo numa boa!”, impreca nosso portuga, “hoje acontece pior que tudo aquilo, direto, e o cântaro não se quebra!”. Manoel sente-se como Pessoa em seu “Aniversário”: “Sobrevivente a mim mesmo como um fósforo frio”. E lá está a praça cheia de babás, mamãs e seus putinhos. E viva Santo Expedito! Oremos. Ciao, babes!
"Enquanto o pau vai e vem, o lombo descansa", eis o ditado que Manoel começou a recordar constantemente nas montanhas sul-mineiras, tantas as cacetadas que passou a levar desde que construíram a pracita ao lado de sua propriedade. Educado na cartilha lusa, em que os exemplos para a conduta moral ou para os perigos e as curvas da vida são passados através de ditados (adágios, provérbios) populares, Manoel via que só por isso já estava em severo exílio entre os montanheses no meio dos quais se imiscuiu. Não que aqui não se exerça algo até parecido, embora muito diluído, mas é que aqui a TV assumiu a dianteira da vida social de tal forma que a coisa do ditado, característica e prerrogativa da família, hoje em colapso, não tem nem mais a sombra longínqua daquela solidez, daquela tradição. No Rio, onde passou tempos ouvindo zunidos de balas perdidas e sons de tiros tanto longe como perto, ainda restava algum viço daquela prática, pelo fato de ainda haver muito de lusitanismo na vida carioca, praticado pelos seus patrícios que lá estão – mas que formaram comunidade coesa e à parte, tentando preservar os conteúdos da Santa Terrinha em solo tupiniquim. Enter.
"Tantas vezes vai o gato ao moinho que uma vez lá lhe fica o focinho". Amigo dos bichanos, Manoel desde menino parava pra pensar no gato indo ao moinho apanhar os ratos que viviam ali e um dia, dando bobeira por se sentir seguro demais sendo gato e por se ver à vontade perto do mó, seu focinho lindo leva uma pancada feia da pedra rotativa... mas até que essa história começou a lhe causar certo desconforto: aqui no Brasil os ratos infestam os moinhos do poder, e os gatos, transformados em vilões nesta conjuntura acética brasileira, que parece tudo querer corromper, NUNCA, NUNCA levam a traulitada corretiva a que alude o ditado que abriu este parágrafo. Aqui, gatos e ratos são gatunos, são do mal, e convivem de forma harmônica e a salvo de intervenções do cosmo regenerador, ou das instituições de defesa da saúde social. Enter.
E, falando em gatos, é impressionante os brasileiros serem tão envolvidos com cachorros, parece que virou algo tão indispensável quanto a novela das oito ou o gesto de ligar a televisão. Queres casa? Primeira coisa: providenciar a TV e o (s) cachorro (s). E tanto a TV bosteja seu áudio com aquela tagarelice interminável e caótica quanto os cachorros latem, latem, latem, dias inteiros, horas a fio, parecendo que os dois "equipamentos" são interligados, como que acoplados à vida dos brasileiros e indispensáveis como o poluído ar que respiram (mal, por sinal). Neste exato momento em que são escritas estas mal traçadas, ocorre um comprido estouro de latidos e uivos na vizinhança, trata-se de um canil (proibido por lei em área urbana, mas, e daí? "Foda-se a lei", dizem eles!) a oeste da casa de Manoel, já houve até processo contra o dono, mas o canil está aí, continua, como ainda mais outro, ao sul, que ocupa um terreno inteiro, e nada o erradica. A lei dizia que haver três cães numa casa já configura canil. A Prefeitura ampliou isso para sete, para escapar da responsabilidade de ter de coibir. Pois um dos canis a que Manoel se refere chega a ter mais de 40 cães... e fica por isso mesmo. Os vizinhos que arranquem as calças pela cabeça. E a coisa é pra lá de maluca: "Cachorros, aqui", reclama o Manoel, "são preferência nacional, como cerveja, que os brasileiros bebem como que desejando explodir suas barrigas". Além de existirem cães aos montes a ponto de serem população comparável ou superior à de humanos, existem também os de rua, em grande quantidade, formando outra imensa população. Quando as cadelas de rua entram no cio, vêem-se grupos de dezenas de cães seguindo-as, e o espetáculo que fornecem, combinando a constrangedora cópula e a posterior fase engatada a combates feíssimos, medonhos, às vezes até interrompendo tráfego de veículos em avenidas, é desprezível, beirando, quando não alcançando, o dantesco. E diante disso os mineiros laconicamente comentam: "É complicado!...", e a degenerescência vai se consolidando sob olhares lenientes, condescendentes, até cúmplices. “Eles chamam isso de ‘jeitinho brasileiro!’”, brada Manoel para consigo, implodindo indignação, e nesse momento ele pensa numa cerveja, fazer o quê? Enter.
Mais maluco ainda é o fato de as pessoas que têm gato serem tidas como excêntricas!... Gatos são, até por herança católica de Portugal, bichos de bruxas e capetas. Manoel observa que os brasileiros, por outro lado, não sabem trocar afeto com seres conscientes e assumidos, como são os gatos. Cães são obedientes, quando não subservientes, servis. Gatos, não: sua dignidade felina determina uma relação obedecendo a quesitos de respeito e confiabilidade trabalhada. Para espanto de Manoel, os brasileiros parece que só se entendem sob a égide da subserviência. Aqueles que manifestam sua individualidade assumida são tidos, especialmente pelos mineiros, como “sistemáticos”, até mesmo “criadores de caso”. E como os gatos de Manoel circulam digníssimos pela pracita hetera, motivo de sérias dores de cabeça, eis que os seres que a freqüentam, quase todos tendendo a voltar à copa das árvores que abundam (êpa!) na pracita (parece que não o fazem por terem perdido o rabo nesta “evolução” de milênios por que passaram, ou, melhor, foram passados), lançam para Manoel – e para os mui impolutos e belos gatos deste – olhares de repúdio e desprezo. “Intelijumentos!”, rosna consigo Manoel, já sentindo humores dispépticos, o ácido clorídrico querendo fazer estragos em sua mucosa gástrica. Enter final.
“Tantas vezes vai o cântaro à fonte que um dia se quebra”, vociferava a voz da avó de Manoel, egressa da quase costeira Torres Vedras, ao norte de Lisboa. “Só se quebra se for lá em Portugal”, tritura consigo nosso herói: ele já estava no Brasil quando defenestraram Collor, quando estourou o escândalo dos anões do Orçamento, quando prenderam o deputado Hildebrando Motosserra e o juiz Lalau e sua quadrilha. “Estão todos soltos ou vivendo numa boa!”, impreca nosso portuga, “hoje acontece pior que tudo aquilo, direto, e o cântaro não se quebra!”. Manoel sente-se como Pessoa em seu “Aniversário”: “Sobrevivente a mim mesmo como um fósforo frio”. E lá está a praça cheia de babás, mamãs e seus putinhos. E viva Santo Expedito! Oremos. Ciao, babes!
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
Das dúvidas de um lusitano na Pindorama
Frederico Mendonça de Oliveira
Manoel, nosso herói, teve sua juventude marcada pelos progressos admiráveis desta colônia, progressos e conquistas que ressoavam na Santa Terrinha, e ele quedava muito admirado com ver que, mesmo tendo eles o heróico Euzébio jogando pela camisa da seleção portuguesa, o Brasil apresentava outros nomes grandiosos para o futebol, destacando-se a figura do “rei” Pelé, que todos os humanos mentalmente sãos concordam quanto a ser o maior de todos os tempos. Pois naquele mesmo glorioso ano de 1958, tinha Manoel 13 anos e começou a ouvir em rádios de Lisboa uma nova forma de samba muito sofisticada e saborosa, que os brasileiros chamavam de Bossa Nova. Manoel se encantou especialmente com A Felicidade, abismado com os versos de Vinícius de Moraes – lá com respeito a poesia, os portugueses estão muito à vontade, com Camões e Fernando Pessoa como referências –, notadamente aqueles versos: “A felicidade é como a gota de orvalho numa pétala de flor/ brilha tranqüila, depois, de leve, oscila/ e cai como uma lágrima de amor”. “Que deslumbramento, ó pá!!!”, exclamava Manoel para seus patrícios também abestalhados com tanta beleza. “E pensar que foram nossos antepassados que despertaram essa terra com essa gente tão sensacional!!!”, diziam todos, e lá ia mais uma golada de um Dão, de um Porca de Mursa, de um Casal Garcia... com sardinha e tremoços, que ninguém é de ferro também naquela península cheia de encantos. Enter.
Pois a era da canção chamada MPB sucedeu a Bossa Nova, e nomes como Chico Buarque, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gonzaguinha, Ivan Lins e outros produziram uma safra de canções tão admirável que Manoel resolveu vir vivenciar isso in loco, especialmente porque estava muito admirado com o fato de os cantores/compositores/intérpretes brasileiros terem derrubado a ditadura militar, concomitantemente ao surgimento em Portugal do Socialismo da Rosa, com Mário Soares assim assim com os heróis brasileiros da canção. E lá veio Manoel, enquanto a classe média em Portugal se entregava às telenovelas da Globo, o que lhe deu mais alento ainda para sair da terrinha. “Que nós copiemos o que os brasileiros fazem de bom, isso é positivo”, dizia ele; “Mas assim é demais: copiar esse hábito estúpido de entregar nossos cérebros a um aparelho que emite imagens, isso é coisa de silvícolas admirados com espelhinhos!”, resmungava Manoel, já muito bem inteirado das fraquezas de nossos aborígenes, por estudar isso em currículo no curso secundário em Lisboa. Pousou aqui, no Galeão, o guapo Manoel de Oliveira, veio de Boeing 707 da TAP. No cardápio de bordo, ironicamente, arroz de lulas. Enter.
Chegando ao Rio, passeando pela Cinelândia, foi logo assaltado e lhe levaram relógio, dinheiro, passaporte, e ainda deram no nobre alfacinha uns bofetes pesados. O Brasil visto de além-mar, como nosso herói percebeu em curto prazo, nada tinha a ver com a verdade vivida aqui, no seio da guerra civil absurda. Foi a primeira dúvida de Manoel: “Ora, pois! Se existe uma guerra, ela deve ser declarada, e devemos saber quem está de cada lado. Pois no Brasil a coisa é diversa: de um lado, o morro; de outro, a cidade e o poder constituído; o morro não quer tomar a cidade, e a cidade e o poder não querem tomar o morro. Vivem aos tiros e a se matar e ninguém tem objetivo, ó pá??? Estarão malucos ou serão todos uns burros orelhudos??”. E assim se desmontou em Manoel a ilusão que fazem lá fora de um Brasil avançado socialmente, com poetas, artistas militantes derrubando a ditadura militar, ou seja, “flores vencendo canhões”, como disse o cantor Vandré, que depois se assumiu maluco mesmo, e se uniu às Forças Armadas repressoras, até compondo a música “Fabiana” em homenagem à FAB (Força Aérea Brasileira). E assim foi Manoel compreendendo que viver no Rio era perigoso. Mudou-se para as montanhas do Sul de Minas, onde tinha família uma brasileirota com quem se amancebara. E instalou-se na casita ao lado da área onde resolveram fazer, da noite para o dia, uma praça ilegal... Enter final.
Manoel hoje vive o dilema drummondiano: “No elevador, penso na roça/ na roça, penso no elevador”, disse o mestre. Manoel agora vive a contradição: estando no Brasil, está em Portugal; estando em Portugal, tem que estar no Brasil. E enquanto sofre esta dicotomia conflitante, os cães da vizinhança ladram, ladram, ladram, porque os brasileiros, paranóicos e ignorantizados pela TV, querem cães apenas para tê-los, não para conviver com eles. Manoel começa a pensar que os brasileiros descobriram a burrice e a alimentam com estranho prazer. “E os portugueses é que são burros??” E viva Santo Expedito. Oremos. Té mais, babes!
Manoel, nosso herói, teve sua juventude marcada pelos progressos admiráveis desta colônia, progressos e conquistas que ressoavam na Santa Terrinha, e ele quedava muito admirado com ver que, mesmo tendo eles o heróico Euzébio jogando pela camisa da seleção portuguesa, o Brasil apresentava outros nomes grandiosos para o futebol, destacando-se a figura do “rei” Pelé, que todos os humanos mentalmente sãos concordam quanto a ser o maior de todos os tempos. Pois naquele mesmo glorioso ano de 1958, tinha Manoel 13 anos e começou a ouvir em rádios de Lisboa uma nova forma de samba muito sofisticada e saborosa, que os brasileiros chamavam de Bossa Nova. Manoel se encantou especialmente com A Felicidade, abismado com os versos de Vinícius de Moraes – lá com respeito a poesia, os portugueses estão muito à vontade, com Camões e Fernando Pessoa como referências –, notadamente aqueles versos: “A felicidade é como a gota de orvalho numa pétala de flor/ brilha tranqüila, depois, de leve, oscila/ e cai como uma lágrima de amor”. “Que deslumbramento, ó pá!!!”, exclamava Manoel para seus patrícios também abestalhados com tanta beleza. “E pensar que foram nossos antepassados que despertaram essa terra com essa gente tão sensacional!!!”, diziam todos, e lá ia mais uma golada de um Dão, de um Porca de Mursa, de um Casal Garcia... com sardinha e tremoços, que ninguém é de ferro também naquela península cheia de encantos. Enter.
Pois a era da canção chamada MPB sucedeu a Bossa Nova, e nomes como Chico Buarque, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gonzaguinha, Ivan Lins e outros produziram uma safra de canções tão admirável que Manoel resolveu vir vivenciar isso in loco, especialmente porque estava muito admirado com o fato de os cantores/compositores/intérpretes brasileiros terem derrubado a ditadura militar, concomitantemente ao surgimento em Portugal do Socialismo da Rosa, com Mário Soares assim assim com os heróis brasileiros da canção. E lá veio Manoel, enquanto a classe média em Portugal se entregava às telenovelas da Globo, o que lhe deu mais alento ainda para sair da terrinha. “Que nós copiemos o que os brasileiros fazem de bom, isso é positivo”, dizia ele; “Mas assim é demais: copiar esse hábito estúpido de entregar nossos cérebros a um aparelho que emite imagens, isso é coisa de silvícolas admirados com espelhinhos!”, resmungava Manoel, já muito bem inteirado das fraquezas de nossos aborígenes, por estudar isso em currículo no curso secundário em Lisboa. Pousou aqui, no Galeão, o guapo Manoel de Oliveira, veio de Boeing 707 da TAP. No cardápio de bordo, ironicamente, arroz de lulas. Enter.
Chegando ao Rio, passeando pela Cinelândia, foi logo assaltado e lhe levaram relógio, dinheiro, passaporte, e ainda deram no nobre alfacinha uns bofetes pesados. O Brasil visto de além-mar, como nosso herói percebeu em curto prazo, nada tinha a ver com a verdade vivida aqui, no seio da guerra civil absurda. Foi a primeira dúvida de Manoel: “Ora, pois! Se existe uma guerra, ela deve ser declarada, e devemos saber quem está de cada lado. Pois no Brasil a coisa é diversa: de um lado, o morro; de outro, a cidade e o poder constituído; o morro não quer tomar a cidade, e a cidade e o poder não querem tomar o morro. Vivem aos tiros e a se matar e ninguém tem objetivo, ó pá??? Estarão malucos ou serão todos uns burros orelhudos??”. E assim se desmontou em Manoel a ilusão que fazem lá fora de um Brasil avançado socialmente, com poetas, artistas militantes derrubando a ditadura militar, ou seja, “flores vencendo canhões”, como disse o cantor Vandré, que depois se assumiu maluco mesmo, e se uniu às Forças Armadas repressoras, até compondo a música “Fabiana” em homenagem à FAB (Força Aérea Brasileira). E assim foi Manoel compreendendo que viver no Rio era perigoso. Mudou-se para as montanhas do Sul de Minas, onde tinha família uma brasileirota com quem se amancebara. E instalou-se na casita ao lado da área onde resolveram fazer, da noite para o dia, uma praça ilegal... Enter final.
Manoel hoje vive o dilema drummondiano: “No elevador, penso na roça/ na roça, penso no elevador”, disse o mestre. Manoel agora vive a contradição: estando no Brasil, está em Portugal; estando em Portugal, tem que estar no Brasil. E enquanto sofre esta dicotomia conflitante, os cães da vizinhança ladram, ladram, ladram, porque os brasileiros, paranóicos e ignorantizados pela TV, querem cães apenas para tê-los, não para conviver com eles. Manoel começa a pensar que os brasileiros descobriram a burrice e a alimentam com estranho prazer. “E os portugueses é que são burros??” E viva Santo Expedito. Oremos. Té mais, babes!
sexta-feira, 14 de novembro de 2008
Desventuras de um lusitano nas alterosas (II)
Frederico Mendonça de Oliveira
Pois o Manoel agora “pisou na trouxa” (expressão que no Brasil ganha diversas variantes: “se retou”, no Nordeste; “virou bicho” ou “chutou o pau da barraca” ou ainda “chutou o balde” no Rio; “queimou no golpe” em Minas, e por aí vai), porque a burrice que reina no Brasil o está fazendo duvidar de si mesmo. Começou com a pracita ao lado de sua casa, transformando um lugar pacato e uma vizinhança em que todos cordialmente se entendiam numa comunidade rachada e cheia de inimizades, em que passou a reinar a cizânia; depois, quando houve reação à praça, os que reclamavam o cumprimento da lei foram processados, tachados cinicamente de “criadores de caso” e passaram a ser moralmente linchados e perseguidos pelos arraialeiros que apóiam a obra ilegal – que transformou uma área verde para preservação ambiental em praça pública, parque de vizinhança e parque infantil, desrespeitando todas as legislações possíveis de serem desrespeitadas. “Que diabo é isto??”, pergunta-se perplexo o nosso Manoel, que se lembra de outros tempos em que o Brasil era respeitado no exterior, especialmente entre os pensadores de Portugal, tempos da Bossa Nova e do Cinema Novo, e veio-lhe à mente aquela coisa do filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol”: “O sertão vai virar mar/ e o mar vai virar sertão!”. Enter.
Estava tudo indo numa boa, estava a maré mansa no arraialito onde Manoel se instalara, até que esta aberração que em Portugal causou espécie e hilaridade até em Trás-os-Montes descerrou a cena da absoluta loucura que reina no Brasil. Manoel sabe do que ocorre no Rio de Janeiro, mas acreditava que aquilo era uma guerra civil localizada, da responsabilidade dos traficantes que se opunham ao poder concentrador, uma guerra resultante da discriminação e da marginalização impostas à gigantesca população carente favelada comprimida nos morros, obrigada a se valer de meios ilegais para prosseguir vivendo. Balas perdidas matando cidadãos inocentes, arrastões, massacres envolvendo até crianças, tudo isso não passaria de folclore maligno do Rio, por isso a escolha de um arraialito pacato nas montanhas sulmineiras para viver. Mas a pracita quebrou o encanto, e a maldade se manifestou de forma boçal, e agora fincou-se na cachimônia de Manoel a idéia de ficar voltando a Portugal para esclarecer vários pontos, inclusive considerar, entre seus patrícios, a possibilidade de estar ele embirutando ou começando precocemente a caducaire. Enter.
Pois a maluquice da pracita e a atitude insana dos que a apóiam fanaticamente, como se fosse ela uma bênção recebida de uma divindade, levaram Manoel a procurar autoridades que lhe justificassem a existência da aberração: na verdade, Manoel ficou curioso para saber como uma autoridade do meio-ambiente, por exemplo, explicaria por que não embargou a obra absurda, que causou grande estrago ambiental. E foi numa dessas que nosso herói atentou para a bandeira de Minas, que tem os tão badalados dizeres “Libertas quae sera tamen”. Manoel abestalhou-se: “Puta que pariu! Isto é Virgílio!”. Tendo estudado latim na juventude em Coimbra, a língua-mãe não tem para ele muitos segredos. E ele perguntou ao bacana que o recebia em gabinete refrigerado por que puseram aquele pedaço de verso das Églogas na bandeira de Minas Gerais. O bacana disse que sabia algo a respeito, que nascera vendo a bandeira assim, que ela fora criada em homenagem aos inconfidentes que se revoltaram contra os impostos cobrados pela coroa portuguesa e que estava escrito na bandeira em latim “liberdade ainda que tardia”. Manoel abestalhou-se, quase que abespinhou-se: “Mas isto não é o que está escrito ali, ora pois! A tradução destas palavras é ‘liberdade que, tardia, contudo’, e isto é apenas o começo do verso da primeira Égloga, que no todo é ‘Libertas quae sera tamen respexit inertem candidior postquam tondenti barba cadebat’, que significa ‘liberdade que, tardia, contudo viu-me ocioso quando, ao fazer minha barba, esta já caía branca’”! Enter final.
Manoel saiu do encontro com a autoridade bufando de indignação com tamanha estupidez! Vai ele ao funcionário bacana e constata que até na bandeira de um estado brasileiro escreve-se uma burrice tamanha! Chegou a casa resolvido a tomar muita cerveja para aliviar a putice. Lá estavam na pracita vizinhos com putinhos barulhentos, os adultos olhando torto para ele. E ali mesmo, na copa-cozinha, de caneco na mão, pegou do telefone, ligou para seu patrício que trabalha na agência da TAP em São Paulo e solicitou reserva imediata de passagem para Lisboa. “Ora, pois! Além de burros são malucos, os brasileiros!”, desabafava nosso herói a bebeire a geladíssima cerveja. E viva santo Expedito! Oremos. Bye, babes!
Pois o Manoel agora “pisou na trouxa” (expressão que no Brasil ganha diversas variantes: “se retou”, no Nordeste; “virou bicho” ou “chutou o pau da barraca” ou ainda “chutou o balde” no Rio; “queimou no golpe” em Minas, e por aí vai), porque a burrice que reina no Brasil o está fazendo duvidar de si mesmo. Começou com a pracita ao lado de sua casa, transformando um lugar pacato e uma vizinhança em que todos cordialmente se entendiam numa comunidade rachada e cheia de inimizades, em que passou a reinar a cizânia; depois, quando houve reação à praça, os que reclamavam o cumprimento da lei foram processados, tachados cinicamente de “criadores de caso” e passaram a ser moralmente linchados e perseguidos pelos arraialeiros que apóiam a obra ilegal – que transformou uma área verde para preservação ambiental em praça pública, parque de vizinhança e parque infantil, desrespeitando todas as legislações possíveis de serem desrespeitadas. “Que diabo é isto??”, pergunta-se perplexo o nosso Manoel, que se lembra de outros tempos em que o Brasil era respeitado no exterior, especialmente entre os pensadores de Portugal, tempos da Bossa Nova e do Cinema Novo, e veio-lhe à mente aquela coisa do filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol”: “O sertão vai virar mar/ e o mar vai virar sertão!”. Enter.
Estava tudo indo numa boa, estava a maré mansa no arraialito onde Manoel se instalara, até que esta aberração que em Portugal causou espécie e hilaridade até em Trás-os-Montes descerrou a cena da absoluta loucura que reina no Brasil. Manoel sabe do que ocorre no Rio de Janeiro, mas acreditava que aquilo era uma guerra civil localizada, da responsabilidade dos traficantes que se opunham ao poder concentrador, uma guerra resultante da discriminação e da marginalização impostas à gigantesca população carente favelada comprimida nos morros, obrigada a se valer de meios ilegais para prosseguir vivendo. Balas perdidas matando cidadãos inocentes, arrastões, massacres envolvendo até crianças, tudo isso não passaria de folclore maligno do Rio, por isso a escolha de um arraialito pacato nas montanhas sulmineiras para viver. Mas a pracita quebrou o encanto, e a maldade se manifestou de forma boçal, e agora fincou-se na cachimônia de Manoel a idéia de ficar voltando a Portugal para esclarecer vários pontos, inclusive considerar, entre seus patrícios, a possibilidade de estar ele embirutando ou começando precocemente a caducaire. Enter.
Pois a maluquice da pracita e a atitude insana dos que a apóiam fanaticamente, como se fosse ela uma bênção recebida de uma divindade, levaram Manoel a procurar autoridades que lhe justificassem a existência da aberração: na verdade, Manoel ficou curioso para saber como uma autoridade do meio-ambiente, por exemplo, explicaria por que não embargou a obra absurda, que causou grande estrago ambiental. E foi numa dessas que nosso herói atentou para a bandeira de Minas, que tem os tão badalados dizeres “Libertas quae sera tamen”. Manoel abestalhou-se: “Puta que pariu! Isto é Virgílio!”. Tendo estudado latim na juventude em Coimbra, a língua-mãe não tem para ele muitos segredos. E ele perguntou ao bacana que o recebia em gabinete refrigerado por que puseram aquele pedaço de verso das Églogas na bandeira de Minas Gerais. O bacana disse que sabia algo a respeito, que nascera vendo a bandeira assim, que ela fora criada em homenagem aos inconfidentes que se revoltaram contra os impostos cobrados pela coroa portuguesa e que estava escrito na bandeira em latim “liberdade ainda que tardia”. Manoel abestalhou-se, quase que abespinhou-se: “Mas isto não é o que está escrito ali, ora pois! A tradução destas palavras é ‘liberdade que, tardia, contudo’, e isto é apenas o começo do verso da primeira Égloga, que no todo é ‘Libertas quae sera tamen respexit inertem candidior postquam tondenti barba cadebat’, que significa ‘liberdade que, tardia, contudo viu-me ocioso quando, ao fazer minha barba, esta já caía branca’”! Enter final.
Manoel saiu do encontro com a autoridade bufando de indignação com tamanha estupidez! Vai ele ao funcionário bacana e constata que até na bandeira de um estado brasileiro escreve-se uma burrice tamanha! Chegou a casa resolvido a tomar muita cerveja para aliviar a putice. Lá estavam na pracita vizinhos com putinhos barulhentos, os adultos olhando torto para ele. E ali mesmo, na copa-cozinha, de caneco na mão, pegou do telefone, ligou para seu patrício que trabalha na agência da TAP em São Paulo e solicitou reserva imediata de passagem para Lisboa. “Ora, pois! Além de burros são malucos, os brasileiros!”, desabafava nosso herói a bebeire a geladíssima cerveja. E viva santo Expedito! Oremos. Bye, babes!
quinta-feira, 6 de novembro de 2008
Desventuras de um lusitano nas alterosas
Frederico Mendonça de Oliveira
Pois o Manoel, nosso herói, começou a não entender mais nada do que se passa no arraialito onde fixou residência. Primeiro, faz-se uma pracita num local onde antes existia um sistema de preservação ambiental, e a obra causou um fuzuê dos diabos: uns se aboletaram nos bancos levando cachorro, papagaio, mulher, filhos e netos, fazendo do espaço um prolongamento de suas dependências residenciais, com isso expondo aos outros seus hábitos que deveriam manter dentro de seus espaços; num certo fim de semana penduraram rede entre duas árvores e se ajuntaram como um bando de retirantes, como se estivessem em sua sala de convivência; de outra feita, armaram até tenda de camping para as crianças “acamparem”, levando farnel e o diabo. Pelas manhãs, especialmente aos sábados, reúne-se uma criançada desgraçadamente barulhenta, brincando como um bando de diabinhos enlouquecidos mortificando com gritos finos e altíssimos os ouvidos de seres educados e sensíveis que moram colados à pracita. As babás e mamães que acompanham esses infelizezitos simplesmente ignoram os putinhos, ocupando-se em palrar entre si sobre sabe-se lá que besteiras, que elas chamam de “assuntos”. E como se plantou grama no espaço, volta e meia aparecem malucas e malucos com farnéis e armam piqueniques com toalha de mesa e tudo mais: biscoutos, pets de refrigerante, sanduíches e tal, e a turma dos que são aqui no Brasil chamados de baixinhos se esparrama fazendo algazarra, para estourar os ouvidos dos moradores no entorno. Enter.
E foi aí que o Manoel começou a dar tratos à bola, especialmente considerando que o negócio de os brasileiros dizerem que portugueses são burros não está lá muito certo... porque portugueses não fazem esse tipo de maluquice como a que os brasileiros fazem, coisas como essa pracita. Pior ficou ainda quando o Manoel soube que um prefeito no Nordeste vendeu uma praça pública para um cidadão construir nela seu negócio, por sinal uma lanchonete. E mais impressionante ainda ficou quando deu na TV – que os brasileiros usam como sendo o oratório de suas casas no caso de serem católicos praticantes, o que os emburrece, esta forma de usar a TV, crescentemente, coisa que eles, parece, não notam – que um morador de uma cidade mineira, Juiz de Fora, construiu sua casa numa área verde como a que foi transformada em praça perto da casa dele, fato que deu notícia em âmbito nacional, embora pareça que isso vai virando moda nas montanhas de Minas e fora delas. Danou-se tudo no bestunto de nosso querido Manoel quando foi verificado que, no extremo oeste da área verde que virou praça em seu arraialito, também foi construída uma casa, que toma quase toda a largura do espaço, deixando apenas uma passagem para algum pedestre que por ali se desloque – isto sem contar que no outro extremo, a leste, a área é inacreditavelmente usada como estacionamento de carros para o clube cuja portaria fica bem em frente. Enter.
Queres mais, ó pá? Bem, Manoel já anda querendo voltar a Portugal para comentar sobre tudo isso, só evitando falar com a Maria se os dois estiverem realizando quecas em tardes de cio e vagares. Outra broxada, lá isto não! Mas que tem certeza de que vai fazer sucesso entre seus amigos e circunstantes contando as “modas” do Brasil, lá isto não há negar... especialmente se souberem que os que defendem a lei – não só os que habitam as montanhas onde fica o arraialito, mas no Brasil como um todo – são perseguidos de todas as maneiras, inclusive sendo proibidos de falar sobre o assunto. Haja vinho, bacalhau, sardinha e tremoços para agüentar tanta maluquice!... associada a burrice! Enter final.
Manoel já anda pensando em afivelar as malas e pegar um TAP (Transportes Aéreos Portugueses), companhia que no Brasil chamam de “tamancos aéreos portugueses”, sem contar que até locutores de TV falam “compania”, os intelijumentos – êpa! Já está o Manoel a dizeire que os brasileiros são burros!... –, e cruzaire o Atlântico para ouvir falas civilizadas, já que as últimas experiências no arraialito são de fazer levantar as orelhas de uma besta quadrada. Não se vá atribuir ao Brasil aquilo que não se deve, outrossim: se elegeram Lula presidente, Clodovil deputado e Severino Cavalcante presidente do Congresso, e se Lula está cercado de corruptos que pintam os canecos e ele jura que de nada sabe, admitamos que podemos considerar os brasileiros uns refinados quadrúpedes... embora saibamos que ainda exista vida inteligente entre o Oiapoque e o Chuí – mas isto anda muito escasso!... E viva Santo Expedito! Oremos. Bye, babes!
Pois o Manoel, nosso herói, começou a não entender mais nada do que se passa no arraialito onde fixou residência. Primeiro, faz-se uma pracita num local onde antes existia um sistema de preservação ambiental, e a obra causou um fuzuê dos diabos: uns se aboletaram nos bancos levando cachorro, papagaio, mulher, filhos e netos, fazendo do espaço um prolongamento de suas dependências residenciais, com isso expondo aos outros seus hábitos que deveriam manter dentro de seus espaços; num certo fim de semana penduraram rede entre duas árvores e se ajuntaram como um bando de retirantes, como se estivessem em sua sala de convivência; de outra feita, armaram até tenda de camping para as crianças “acamparem”, levando farnel e o diabo. Pelas manhãs, especialmente aos sábados, reúne-se uma criançada desgraçadamente barulhenta, brincando como um bando de diabinhos enlouquecidos mortificando com gritos finos e altíssimos os ouvidos de seres educados e sensíveis que moram colados à pracita. As babás e mamães que acompanham esses infelizezitos simplesmente ignoram os putinhos, ocupando-se em palrar entre si sobre sabe-se lá que besteiras, que elas chamam de “assuntos”. E como se plantou grama no espaço, volta e meia aparecem malucas e malucos com farnéis e armam piqueniques com toalha de mesa e tudo mais: biscoutos, pets de refrigerante, sanduíches e tal, e a turma dos que são aqui no Brasil chamados de baixinhos se esparrama fazendo algazarra, para estourar os ouvidos dos moradores no entorno. Enter.
E foi aí que o Manoel começou a dar tratos à bola, especialmente considerando que o negócio de os brasileiros dizerem que portugueses são burros não está lá muito certo... porque portugueses não fazem esse tipo de maluquice como a que os brasileiros fazem, coisas como essa pracita. Pior ficou ainda quando o Manoel soube que um prefeito no Nordeste vendeu uma praça pública para um cidadão construir nela seu negócio, por sinal uma lanchonete. E mais impressionante ainda ficou quando deu na TV – que os brasileiros usam como sendo o oratório de suas casas no caso de serem católicos praticantes, o que os emburrece, esta forma de usar a TV, crescentemente, coisa que eles, parece, não notam – que um morador de uma cidade mineira, Juiz de Fora, construiu sua casa numa área verde como a que foi transformada em praça perto da casa dele, fato que deu notícia em âmbito nacional, embora pareça que isso vai virando moda nas montanhas de Minas e fora delas. Danou-se tudo no bestunto de nosso querido Manoel quando foi verificado que, no extremo oeste da área verde que virou praça em seu arraialito, também foi construída uma casa, que toma quase toda a largura do espaço, deixando apenas uma passagem para algum pedestre que por ali se desloque – isto sem contar que no outro extremo, a leste, a área é inacreditavelmente usada como estacionamento de carros para o clube cuja portaria fica bem em frente. Enter.
Queres mais, ó pá? Bem, Manoel já anda querendo voltar a Portugal para comentar sobre tudo isso, só evitando falar com a Maria se os dois estiverem realizando quecas em tardes de cio e vagares. Outra broxada, lá isto não! Mas que tem certeza de que vai fazer sucesso entre seus amigos e circunstantes contando as “modas” do Brasil, lá isto não há negar... especialmente se souberem que os que defendem a lei – não só os que habitam as montanhas onde fica o arraialito, mas no Brasil como um todo – são perseguidos de todas as maneiras, inclusive sendo proibidos de falar sobre o assunto. Haja vinho, bacalhau, sardinha e tremoços para agüentar tanta maluquice!... associada a burrice! Enter final.
Manoel já anda pensando em afivelar as malas e pegar um TAP (Transportes Aéreos Portugueses), companhia que no Brasil chamam de “tamancos aéreos portugueses”, sem contar que até locutores de TV falam “compania”, os intelijumentos – êpa! Já está o Manoel a dizeire que os brasileiros são burros!... –, e cruzaire o Atlântico para ouvir falas civilizadas, já que as últimas experiências no arraialito são de fazer levantar as orelhas de uma besta quadrada. Não se vá atribuir ao Brasil aquilo que não se deve, outrossim: se elegeram Lula presidente, Clodovil deputado e Severino Cavalcante presidente do Congresso, e se Lula está cercado de corruptos que pintam os canecos e ele jura que de nada sabe, admitamos que podemos considerar os brasileiros uns refinados quadrúpedes... embora saibamos que ainda exista vida inteligente entre o Oiapoque e o Chuí – mas isto anda muito escasso!... E viva Santo Expedito! Oremos. Bye, babes!
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