Frederico Mendonça de Oliveira
Esse negócio de dizer que atentar contra a cultura de um povo é atentar contra a identidade dele não é balela coisa nenhuma. Pode haver algum macaco sem rabo assumido como objeto vestido que ouse “questionar”, ou “contestar” – o que não muda muito... – pelo simples fato de não ter a mínima idéia do que possa ser cultura, menos ainda o que possa ser identidade de um povo. Macacos sem rabo sentam seu traseiro anuro no sofá e entregam seu destino à TV, e acham isso divino: não precisar pensar é uma dádiva para os que se animalizaram por comodismo, sem esquecer uma forte dose de cinismo nisso. Há também os que, por serem responsáveis por esse atentado, caguem comodamente suas regras e conduzam qualquer discussão sobre o assunto para o abismo em que nos mergulharam a todos nós. São os globalizadores torpes, a quem só interessa desnacionalizar tudo e impor sua própria nacionalidade tribal rígida e uma lei implacável. Pois é. Vamos em frente. Enter.
Acordei outro dia pensando numa canção linda que o Cauby Peixoto gravou em 1958. A modernidade musical já se fazia presente em muita coisa, especialmente pelo trabalho de gente como Lindolpho Gaya, Radamés Gnatalli, Chaim Levak, só pra citar a turma do Rio que ia vestindo a música de maneira diversa do quadrado seresteiro. Acontecia paralelamente o “fenômeno” Maysa, que não passava de um tremendo golpe globalizador anticatólico, e sobre isso falaremos ainda. Mas acordei pensando na linda “Viver sem Você”, de autoria de Fernando César, que aliás emplacou 178 canções gravadas, todas de altíssima qualidade composicional. A canção citada é um beguine, e sua estrutura encosta em termos de qualidade em coisas como I Love You ou In the Still of the Night, jóias da produção do maior compositor americano de canção, Cole Porter – aliás, tarado por beguine. Fernando César seria o Cole Porter brasileiro, e não por querer sê-lo: acontece é que desde sua estréia compondo para Ângela Maria, em meados dos anos 50, deu pra ver tratar-se de um mestre. E a linda Viver sem Você é até registrada nos Google da vida, mas ficaremos sem saber a letra, a menos que tenhamos sorte; ouvir a gravação original, de Cauby, só por milagre; saber quem fez o arranjo para orquestra, só se Deus der uma tremenda mão nessa história. Mas eu tinha 13 anos, já estava pra lá de enfronhado na beleza musical via rádio – ah!, bons tempos!... – e já detectava a grandeza do trabalho dos músicos brasileiros por trás das vozes de plantão em trânsito para a modernidade, que seriam Nelson Gonçalves, Dóris Monteiro, o próprio Cauby, até o Ivon Cury, sem contar a maravilha que era ouvir Núbia Lafayette, com suas tristes e lindas baldas de amor não correspondido tratadas por uma voz emocionada e afinada por Deus. A podridão já avançava, mas ainda tínhamos escolha. Enter.
Maysa estourou com Ouça, faixa que na verdade retrata a vitória do mundanismo sobre um tradicionalismo católico: ela era casada com um Matarazzo, da família paulistana que recebia o papa aqui e era recebida por ele lá. A campanha para o escândalo contra os Matarazzo foi movida pela Manchete, revista dos Bloch, gente nada nada católica. Não que seja fundamental ser católico, nada disso; o que vale foi que o gol sofrido pela estrutura de cultura católica ainda em vigor naqueles dias foi irreversível, e Maysa foi um instrumento. “Ouça, vá viver a sua vida com outro bem/ hoje eu já cansei de pra você não ser ninguém”, faixa introduzida por uma abertura orquestral de cordas simplesmente sublime, entrou como uma avalanche na família brasileira, e seguramente desde então as separações ganharam força, tendo como exemplo a mulher de olhos de gata casada com um aristocrata e que bebia, fumava e cantava contrariando e até mesmo afrontando com ousadia os ditames da grande família tradicional católica Matarazzo. E logo depois Maysa se confirmava intérprete de peso com a obra-prima Meu Mundo Caiu, com introdução também avassaladora, com um trombone – se foi gravada no Rio, o trombonista terá sido o Norato – solando em êxtase uma partitura braba, e as cordas arrebentando em ousadia harmônica, coisa que as batatas de sofá de hoje ouvem sem detectar qualquer valor, muito menos qualidade ou beleza. Enter final.
Tenho pena dessa pobre gente de hoje, sob a fala entoada e tão medíocre de Ivete Sangalo, resultado de uma seqüência triste iniciada por Betânia, vindo depois Gal e Simone. Mas Deus sabe o que faz. Só que as coisas se esgotam. E hoje a feiúra é o tom da vida que nos impingem. Recordar é viver, pois. E viva Santo Expedito! Oremos. ’Té mais, babes...
sexta-feira, 19 de setembro de 2008
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
A passagem de um homem da Justiça por Alfenas
Frederico Mendonça de Oliveira
Pelo início do século passado – é tão curioso dizer “século passado” quando parece que ele está tão perto, e quando “século” sugere 100 anos... mas vá – veio de Uberaba (por aí, há confirmar) para Alfenas um promotor de Justiça de nome João Evangelista Barroso. Deve ter vindo pela mão de Deus, como sempre acontece, para que se cumprisse o que estava escrito, como costumamos ler no Novo Testamento. E eis que o próprio não fincou raízes, como de costume na carreira funcionários da Justiça. Mas conheceu uma moça por quem se afeiçoou, e isso não é proibido pelo código que rege a conduta, direitos e deveres desses servidores. O nome dela era Angelina Rezende, que passou a assinar, depois de os dois contraírem matrimônio, como era de se esperar, Angelina Rezende Barroso. Enter.
O promotor logo foi transferido para outra cidade, a já meio longinha Ubá, lá pro lado da Zona da Mata, aqueles por assim dizer cafundós, por onde o degas aqui já andou dando guitarradas acompanhando o saudoso Moleque Gonzaguinha. Isso foi lá pra 1983, pelo inverno. Tocamos para um show de colégio, coisa assim, e a coisa era estranha: diante do palco, mesas com abajurzinhos e bufê sendo servido, coisa atípica em shows daqueles tempos. Lá ao fundo, de viés, uma arquibancada íngreme entupida de uma moçada ruidosa, excitada, que promovia uma gritaria dos diabos enquanto tocávamos para uma “seleta platéia” comendo e bebendo em suas mesas. Tinha até um de terno e gravata, um ser curioso que nos recebeu com perguntas a queima-roupa, do tipo militar, quando chegamos à tarde para montar o palco. Esse ficava bem de frente, como se o show fosse pra ele. Mas algo me intrigava naquilo tudo: havia uma pergunta no ar... Enter.
Ubá parecia uma comunidade atrasada, estranha se comparada a todas as localidades por que passávamos. Talvez pela estranheza do local onde tocamos, pelas mesas, pela gritaria da juventude empoleirada lá na arquibancada ao fundo e de lado. Mas algo nos intrigava, e não sabíamos exatamente o quê. Quanto a mim, farejava algo diferente naqueles dias em que já me acometia o mal-estar de participar daquela fase nada musical em que o Gonzaguinha, já estourado no “gosto” do povão, fazia aqueles shows só pra cumprir agenda fechada antecipadamente, mas já sem qualquer interesse, pois ele já galgara o olimpo da emepebê. Enter.
E tocamos, e depois veio um jantar numa biboca acanhada, e voltamos de Ubá para o Rio no carro do Gonzaga, o Maranhão dirigindo, e o carro de repente apagava as luzes no breu das estradas daquelas bandas, em que placas apareciam indicando a proximidade de uma certa “Picas”, cidade que parece servir de referência de entroncamento na região. A cidade era Bicas, só que os malucos arrancavam a barriga inferior do “B” de sacanagem, coisa de que os brasileiros tanto gostam. Enter.
Mais de dez anos depois, eis que um amigo me presenteia com um LP duplo gravado em homenagem a um dos nossos maiores compositores do... século passado. Lendo o texto interno da capa dupla, deparei com a história do tal promotor, que teria vindo do Triângulo, passado um período em Alfenas, onde se casou, e ido transferido para Ubá. E ali estava a coisa de que eu desconfiara em Ubá. A cidade era algo com que eu tinha uma conexão, por saber que dela viera alguém importante PARA MIM. Pois isso merece um parágrafo à parte, embora ainda possa dizer neste que a surpresa foi dupla, porque eu resido em Alfenas há 23 anos e acabou que tomei conhecimento da questão justamente aqui, onde se terá dado o fato marcante que agora passo a revelar. Enter final.
Lá vai: já em Ubá, depois de se casarem em Pomba, o casal gerou um filho, de nome Ary, e sobrenome Barroso. Sim: Ary Barroso. Aquele mesmo, que depois compôs Aquarela do Brasil, aquele que compôs Na baixa do Sapateiro, No Rancho Fundo, Na Batucada da Vida, Aos Pés da Cruz, Pra Machucar meu Coração, Maria (“o teu nome principia da palma da minha mão”) e outras maravilhas hoje absolutamente soterradas pela avalanche de miséria sonora cancionística com que os globalizadores nos presenteiam direto e reto. Nossa geração, que já vai entrando pelos sessenta e que viveu os tempos do grande Ary, vai saindo de cena, e vai ficando aí uma outra coisa, uma outra gente, para quem isso é nada, passado remoto e sem sentido. O Brasil agoniza. Uma nova “humanidade” vai entupindo a superfície de um país extinto. Essa nova gente nada sabe de nada. Eles vão pagar a conta... E viva Santo Expedito! Oremos. ’Té mais, babes!
Pelo início do século passado – é tão curioso dizer “século passado” quando parece que ele está tão perto, e quando “século” sugere 100 anos... mas vá – veio de Uberaba (por aí, há confirmar) para Alfenas um promotor de Justiça de nome João Evangelista Barroso. Deve ter vindo pela mão de Deus, como sempre acontece, para que se cumprisse o que estava escrito, como costumamos ler no Novo Testamento. E eis que o próprio não fincou raízes, como de costume na carreira funcionários da Justiça. Mas conheceu uma moça por quem se afeiçoou, e isso não é proibido pelo código que rege a conduta, direitos e deveres desses servidores. O nome dela era Angelina Rezende, que passou a assinar, depois de os dois contraírem matrimônio, como era de se esperar, Angelina Rezende Barroso. Enter.
O promotor logo foi transferido para outra cidade, a já meio longinha Ubá, lá pro lado da Zona da Mata, aqueles por assim dizer cafundós, por onde o degas aqui já andou dando guitarradas acompanhando o saudoso Moleque Gonzaguinha. Isso foi lá pra 1983, pelo inverno. Tocamos para um show de colégio, coisa assim, e a coisa era estranha: diante do palco, mesas com abajurzinhos e bufê sendo servido, coisa atípica em shows daqueles tempos. Lá ao fundo, de viés, uma arquibancada íngreme entupida de uma moçada ruidosa, excitada, que promovia uma gritaria dos diabos enquanto tocávamos para uma “seleta platéia” comendo e bebendo em suas mesas. Tinha até um de terno e gravata, um ser curioso que nos recebeu com perguntas a queima-roupa, do tipo militar, quando chegamos à tarde para montar o palco. Esse ficava bem de frente, como se o show fosse pra ele. Mas algo me intrigava naquilo tudo: havia uma pergunta no ar... Enter.
Ubá parecia uma comunidade atrasada, estranha se comparada a todas as localidades por que passávamos. Talvez pela estranheza do local onde tocamos, pelas mesas, pela gritaria da juventude empoleirada lá na arquibancada ao fundo e de lado. Mas algo nos intrigava, e não sabíamos exatamente o quê. Quanto a mim, farejava algo diferente naqueles dias em que já me acometia o mal-estar de participar daquela fase nada musical em que o Gonzaguinha, já estourado no “gosto” do povão, fazia aqueles shows só pra cumprir agenda fechada antecipadamente, mas já sem qualquer interesse, pois ele já galgara o olimpo da emepebê. Enter.
E tocamos, e depois veio um jantar numa biboca acanhada, e voltamos de Ubá para o Rio no carro do Gonzaga, o Maranhão dirigindo, e o carro de repente apagava as luzes no breu das estradas daquelas bandas, em que placas apareciam indicando a proximidade de uma certa “Picas”, cidade que parece servir de referência de entroncamento na região. A cidade era Bicas, só que os malucos arrancavam a barriga inferior do “B” de sacanagem, coisa de que os brasileiros tanto gostam. Enter.
Mais de dez anos depois, eis que um amigo me presenteia com um LP duplo gravado em homenagem a um dos nossos maiores compositores do... século passado. Lendo o texto interno da capa dupla, deparei com a história do tal promotor, que teria vindo do Triângulo, passado um período em Alfenas, onde se casou, e ido transferido para Ubá. E ali estava a coisa de que eu desconfiara em Ubá. A cidade era algo com que eu tinha uma conexão, por saber que dela viera alguém importante PARA MIM. Pois isso merece um parágrafo à parte, embora ainda possa dizer neste que a surpresa foi dupla, porque eu resido em Alfenas há 23 anos e acabou que tomei conhecimento da questão justamente aqui, onde se terá dado o fato marcante que agora passo a revelar. Enter final.
Lá vai: já em Ubá, depois de se casarem em Pomba, o casal gerou um filho, de nome Ary, e sobrenome Barroso. Sim: Ary Barroso. Aquele mesmo, que depois compôs Aquarela do Brasil, aquele que compôs Na baixa do Sapateiro, No Rancho Fundo, Na Batucada da Vida, Aos Pés da Cruz, Pra Machucar meu Coração, Maria (“o teu nome principia da palma da minha mão”) e outras maravilhas hoje absolutamente soterradas pela avalanche de miséria sonora cancionística com que os globalizadores nos presenteiam direto e reto. Nossa geração, que já vai entrando pelos sessenta e que viveu os tempos do grande Ary, vai saindo de cena, e vai ficando aí uma outra coisa, uma outra gente, para quem isso é nada, passado remoto e sem sentido. O Brasil agoniza. Uma nova “humanidade” vai entupindo a superfície de um país extinto. Essa nova gente nada sabe de nada. Eles vão pagar a conta... E viva Santo Expedito! Oremos. ’Té mais, babes!
sexta-feira, 5 de setembro de 2008
Uma tarefa doce e algo sofrida
Frederico Mendonça de Oliveira
Em 1958 Maria Ignez Senne Costa, sob o pseudônimo Maricene Costa, participava do primeiro festival de canção no Brasil, aquele Voz de Ouro ABC. Não me lembro qual a canção vencedora, mas lembro de ter o Guerra Peixe metido nisso. Ela ganhou o troféu, e vem cantando desde então, mesmo sem ter integrado a banda olímpica da MPB, ao lado de Simone, Betânia, Gal, e de cantoras de verdade como Elis, Fátima Guedes e Nana Caymmi. Ficou na raia paralela, vem gravando discos de quando em quando, e não deixou nunca de ser cantora, mesmo que, como gente de sua época e de sua praia – Alaíde Costa, Ana Lúcia, Claudette Soares, por exemplo – esteja completamente fora da chamada mídia. Bem, sabe-se lá o que pode um ser que não está programado geneticamente para acontecer nesta vida, mas é interessante verificar o que pode determinar o sucesso ou a obscuridade. Enter.
Lá vai o velhote jovial aqui acompanhar Maricene no CD em que ela reúne temas da bossanova paulista. Neste 2008 temos visto muito falar da Bossa Nova, movimento genuinamente carioca, mas a contribuição de São Paulo não pode ser esquecida, especialmente porque dela saiu coisa de muito peso para nosso cancioneiro. Maricene, que talvez grave pela última vez nessa iniciativa, foi a primeira cantora profissional que acompanhei quando iniciei minha participação no cenário da canção moderna brasileira. Estávamos no Teatro Santa Rosa, Rio, em 1969, eu tinha meu quarteto vocal denominado Quattuor, e estava lá esperando a hora de entrar e cantar. De repente, chega o Menescal e me pergunta se eu poderia acompanhar uma cantora lá, que estava sem quem a acompanhasse. Topei de cara, especialmente porque ele me dissera ser a Maricene, que eu já conhecia de nome. Fomos lá, simpaticamente nos apresentamos a nós, à música e ao público musical que ouvia tudo embevecido. Nem me lembro o que foi, mas saiu nos trinques. Enter.
Veio logo depois o boom da MPB, e tudo mudou. De repente, em 71, topei com ela em São Paulo e acabou que combinamos um show “Maricene Costa e Som Imaginário”, eu na direção musical e nos arranjos para o grupo, que eu integrava como guitarrista e compositor. Foi lindo, cenário do espetáculo Balcão no Teatro Ruth Escobar, algum público respeitável... mas já ia tudo se dissipando. Depois nos vimos em várias, sempre amigos, sempre de olho um no outro. Aí gravei com ela em 82, estive com ela em show solo na Sala Funarte, Rio. Depois, em 97, eis que me aparece a querida Mariça, como a chamo, no lançamento de meu livro na Funarte-SP, com direito a Paulinho Nogueira, Fauzi Arap, Mutinho, Osmar Barutti e o velho e parece que imortal Fernando Faro, o Baixo. Puxa, que turma boa pra uma chopada ou uma noitada no velho de guerra Piolin!... Depois disso, apenas lembro dela sempre, minha irmã de paralelismo musical, amicíssima, uma alegria como gente do peito. Enter.
Pois eis que há poucos dias me liga a Maricene, depois de conseguir meu telefone com o Osmar Barutti, e me convida para aquilo que pode ser o melhor registro da Bossa Nova paulista. Foi um encanto, e eis-me aqui nos arranjos para o disco a ser gravado semana que vem. Lindas canções: Mantiqueira, do Nelsinho Ayres, que aconteceu extemporaneamente na voz de Walter Santos; Ilusão à Toa, de Jonny Alf; Menino das Laranjas, do Théo de Barros; Menino Desce o Morro, de Vera Brasil; Dá-me, do Adilson Godoy; e Tristeza de Amar, lançada pela inesquecível Alaíde Costa. Estou preparando tudo, depois a internet faz o resto. Afinal, mercado fonográfico já era, música instituída já era, o que vale agora é a macacada ligada na net. Enter final.Ouvindo o CD com os originais que a Mariça reuniu, eis que pela primeira vez na vida senti que minha hora chega. Antes, um belo dia, doeu no coração saber que Luís Eça, Edson Machado, Tom Jobim e tantos outros nomes já se foram. Agora é diferente: senti uma estranha saudade desta vida que ainda percorro. Nostalgia, talvez seja isso a tal da nostalgia. Mas estou preparando esse registro, e me sinto muito feliz de escoltar Maricene Costa no estúdio, e seguramente teremos bom registro – até porque, no encontro que tivemos semana passada, ela se mostrou pujante no gogó, e de minha parte cabe a segurança de anos de estudo me garantindo a forma como... violonista!, já que na verdade sou é guitarrista... Mas todos verão e ouvirão. Sorte, Maricene! E viva Santo Expedito! Oremos. Bye, babes!
Em 1958 Maria Ignez Senne Costa, sob o pseudônimo Maricene Costa, participava do primeiro festival de canção no Brasil, aquele Voz de Ouro ABC. Não me lembro qual a canção vencedora, mas lembro de ter o Guerra Peixe metido nisso. Ela ganhou o troféu, e vem cantando desde então, mesmo sem ter integrado a banda olímpica da MPB, ao lado de Simone, Betânia, Gal, e de cantoras de verdade como Elis, Fátima Guedes e Nana Caymmi. Ficou na raia paralela, vem gravando discos de quando em quando, e não deixou nunca de ser cantora, mesmo que, como gente de sua época e de sua praia – Alaíde Costa, Ana Lúcia, Claudette Soares, por exemplo – esteja completamente fora da chamada mídia. Bem, sabe-se lá o que pode um ser que não está programado geneticamente para acontecer nesta vida, mas é interessante verificar o que pode determinar o sucesso ou a obscuridade. Enter.
Lá vai o velhote jovial aqui acompanhar Maricene no CD em que ela reúne temas da bossanova paulista. Neste 2008 temos visto muito falar da Bossa Nova, movimento genuinamente carioca, mas a contribuição de São Paulo não pode ser esquecida, especialmente porque dela saiu coisa de muito peso para nosso cancioneiro. Maricene, que talvez grave pela última vez nessa iniciativa, foi a primeira cantora profissional que acompanhei quando iniciei minha participação no cenário da canção moderna brasileira. Estávamos no Teatro Santa Rosa, Rio, em 1969, eu tinha meu quarteto vocal denominado Quattuor, e estava lá esperando a hora de entrar e cantar. De repente, chega o Menescal e me pergunta se eu poderia acompanhar uma cantora lá, que estava sem quem a acompanhasse. Topei de cara, especialmente porque ele me dissera ser a Maricene, que eu já conhecia de nome. Fomos lá, simpaticamente nos apresentamos a nós, à música e ao público musical que ouvia tudo embevecido. Nem me lembro o que foi, mas saiu nos trinques. Enter.
Veio logo depois o boom da MPB, e tudo mudou. De repente, em 71, topei com ela em São Paulo e acabou que combinamos um show “Maricene Costa e Som Imaginário”, eu na direção musical e nos arranjos para o grupo, que eu integrava como guitarrista e compositor. Foi lindo, cenário do espetáculo Balcão no Teatro Ruth Escobar, algum público respeitável... mas já ia tudo se dissipando. Depois nos vimos em várias, sempre amigos, sempre de olho um no outro. Aí gravei com ela em 82, estive com ela em show solo na Sala Funarte, Rio. Depois, em 97, eis que me aparece a querida Mariça, como a chamo, no lançamento de meu livro na Funarte-SP, com direito a Paulinho Nogueira, Fauzi Arap, Mutinho, Osmar Barutti e o velho e parece que imortal Fernando Faro, o Baixo. Puxa, que turma boa pra uma chopada ou uma noitada no velho de guerra Piolin!... Depois disso, apenas lembro dela sempre, minha irmã de paralelismo musical, amicíssima, uma alegria como gente do peito. Enter.
Pois eis que há poucos dias me liga a Maricene, depois de conseguir meu telefone com o Osmar Barutti, e me convida para aquilo que pode ser o melhor registro da Bossa Nova paulista. Foi um encanto, e eis-me aqui nos arranjos para o disco a ser gravado semana que vem. Lindas canções: Mantiqueira, do Nelsinho Ayres, que aconteceu extemporaneamente na voz de Walter Santos; Ilusão à Toa, de Jonny Alf; Menino das Laranjas, do Théo de Barros; Menino Desce o Morro, de Vera Brasil; Dá-me, do Adilson Godoy; e Tristeza de Amar, lançada pela inesquecível Alaíde Costa. Estou preparando tudo, depois a internet faz o resto. Afinal, mercado fonográfico já era, música instituída já era, o que vale agora é a macacada ligada na net. Enter final.Ouvindo o CD com os originais que a Mariça reuniu, eis que pela primeira vez na vida senti que minha hora chega. Antes, um belo dia, doeu no coração saber que Luís Eça, Edson Machado, Tom Jobim e tantos outros nomes já se foram. Agora é diferente: senti uma estranha saudade desta vida que ainda percorro. Nostalgia, talvez seja isso a tal da nostalgia. Mas estou preparando esse registro, e me sinto muito feliz de escoltar Maricene Costa no estúdio, e seguramente teremos bom registro – até porque, no encontro que tivemos semana passada, ela se mostrou pujante no gogó, e de minha parte cabe a segurança de anos de estudo me garantindo a forma como... violonista!, já que na verdade sou é guitarrista... Mas todos verão e ouvirão. Sorte, Maricene! E viva Santo Expedito! Oremos. Bye, babes!
sexta-feira, 29 de agosto de 2008
Globalização, o inferno assumido
Frederico Mendonça de Oliveira
No arraial onde me maloco a distância segura de balas perdidas e da guerra civil que pesponta o dia a dia das capitais, o inferno também se faz presente com clareza e até requintes. De início, as instituições estão estraçalhadas também aqui, onde se verifica a existência de uma comunidade que pratica o estelionato moral na maior cara de pau, como se isso fosse o bom senso. Um poder recheado de corrupção escancarada prossegue no poder a despeito de iniciativas saneadoras, que esbarram simplesmente no... poder! As instâncias desse degenerado poder brasileiro – ou , muito mais precisamente falando, anti brasileiro – se protegem por corporativismo DE PODER, a bem de manter mamando quem está mamando, e essa corja se manterá corja enquanto der pra se manter, ética e princípios de honestidade e probidade às favas. Então acontece que desde Brasília, passando pelas capitais e chegando aos mais insignificantes arraiais, o poder é corrupção, isso ditado pela capital do País, a mais hedionda e asquerosa bicheira já constituída desde que Cabral trouxe a turma de além mar tendo em seu seio um globalizador de carteirinha. Ou você pensa que globalização é movimento “moderno”? Ora, babe, tome juízo: não é com o rabo na poltrona e “ligado” na Globo que você vai ficar informado da verdade dos fatos. Enter.
Então vemos que as “sociedades” hoje não passam de gente corrompida vivendo ao sabor da correnteza e virando as costas pra tudo, inclusive para a própria evolução. E justamente no arraial onde me escondo da barbárie constato a deformação social explicitada em simplesmente quase tudo. Por exemplo: passa por aqui regularmente e fica na cidade por uma semana um imenso caminhão Volvo do tipo trio elétrico (que era o trio de guitarra, cavaquinho e percussão que tocava de cima de um caminhão no carnaval de Salvador, o trio de Dodô e Osmar, portanto o “trio los dos”; e os instrumentos eram eletrificados, novidade para a época), todo cheio de luzes neon e tendo uma carroceria com dois andares tipo uma barca do São Francisco, onde se apinham imbecis para um passeio pelo arraial. Quatro palhaços acompanham o caminhão pelas ruas, pulando e dançando ao ritmo maligno que o veículo emite, normalmente disco music, axé e até o créu. Essa desgraça ambulante inferniza as ruas da cidade durante uma semana, desfilando um episódio de anarquia estúpida francamente permitido pela comunidade, que se revela um bando de obedientes ao cabresto da Globo. Se alguém protestar, será perseguido, como vem acontecendo com os que ainda se preocupam com fazer valer a lei e os princípios da cidadania. O veículo se define como “mega trem da alegria”, mas alegria só terá quem embolsar o dinheiro dos otários que pagam e embarcam estupidamente nessa miséria itinerante. Enter.
E assim vai tudo se misturando: o diabo do caminhão agora fez parceria com um supermercado que, em troca de fazer a publicidade com cartazes afixados no veículo e projeção de som com ofertas dos produtos da casa, paga a passagem da “petizada”, essa legião de futuros paus mandados a serviço dos intervencionistas de todos os tempos. Então a coisa se embaralha mais ainda, misturando cu com bunda e disseminando o caos, que já se manifesta em tudo: só falta ter loja de conveniências em ônibus e metrô, televisão nos banheiros públicos pra nego defecar vendo a Globo – boa idéia pro cocô, talvez – e anúncios de tudo em uniformes de serviços públicos. Enter final.
Fui a Sampa de busa, e lá estava a TV nas fuças dos passageiros, passando um filme boçal de trapalhadas de um certo Mr. Been, ou Bean, sei lá. Interessante é que só um passageiro parecia olhar pr’aquilo. Cinema na TV no ônibus. A merda avança. Falarei mais sobre isso, também sobre cinema, flagelo desde sempre. E viva Santo Expedito! Oremos. Bye, babes!
No arraial onde me maloco a distância segura de balas perdidas e da guerra civil que pesponta o dia a dia das capitais, o inferno também se faz presente com clareza e até requintes. De início, as instituições estão estraçalhadas também aqui, onde se verifica a existência de uma comunidade que pratica o estelionato moral na maior cara de pau, como se isso fosse o bom senso. Um poder recheado de corrupção escancarada prossegue no poder a despeito de iniciativas saneadoras, que esbarram simplesmente no... poder! As instâncias desse degenerado poder brasileiro – ou , muito mais precisamente falando, anti brasileiro – se protegem por corporativismo DE PODER, a bem de manter mamando quem está mamando, e essa corja se manterá corja enquanto der pra se manter, ética e princípios de honestidade e probidade às favas. Então acontece que desde Brasília, passando pelas capitais e chegando aos mais insignificantes arraiais, o poder é corrupção, isso ditado pela capital do País, a mais hedionda e asquerosa bicheira já constituída desde que Cabral trouxe a turma de além mar tendo em seu seio um globalizador de carteirinha. Ou você pensa que globalização é movimento “moderno”? Ora, babe, tome juízo: não é com o rabo na poltrona e “ligado” na Globo que você vai ficar informado da verdade dos fatos. Enter.
Então vemos que as “sociedades” hoje não passam de gente corrompida vivendo ao sabor da correnteza e virando as costas pra tudo, inclusive para a própria evolução. E justamente no arraial onde me escondo da barbárie constato a deformação social explicitada em simplesmente quase tudo. Por exemplo: passa por aqui regularmente e fica na cidade por uma semana um imenso caminhão Volvo do tipo trio elétrico (que era o trio de guitarra, cavaquinho e percussão que tocava de cima de um caminhão no carnaval de Salvador, o trio de Dodô e Osmar, portanto o “trio los dos”; e os instrumentos eram eletrificados, novidade para a época), todo cheio de luzes neon e tendo uma carroceria com dois andares tipo uma barca do São Francisco, onde se apinham imbecis para um passeio pelo arraial. Quatro palhaços acompanham o caminhão pelas ruas, pulando e dançando ao ritmo maligno que o veículo emite, normalmente disco music, axé e até o créu. Essa desgraça ambulante inferniza as ruas da cidade durante uma semana, desfilando um episódio de anarquia estúpida francamente permitido pela comunidade, que se revela um bando de obedientes ao cabresto da Globo. Se alguém protestar, será perseguido, como vem acontecendo com os que ainda se preocupam com fazer valer a lei e os princípios da cidadania. O veículo se define como “mega trem da alegria”, mas alegria só terá quem embolsar o dinheiro dos otários que pagam e embarcam estupidamente nessa miséria itinerante. Enter.
E assim vai tudo se misturando: o diabo do caminhão agora fez parceria com um supermercado que, em troca de fazer a publicidade com cartazes afixados no veículo e projeção de som com ofertas dos produtos da casa, paga a passagem da “petizada”, essa legião de futuros paus mandados a serviço dos intervencionistas de todos os tempos. Então a coisa se embaralha mais ainda, misturando cu com bunda e disseminando o caos, que já se manifesta em tudo: só falta ter loja de conveniências em ônibus e metrô, televisão nos banheiros públicos pra nego defecar vendo a Globo – boa idéia pro cocô, talvez – e anúncios de tudo em uniformes de serviços públicos. Enter final.
Fui a Sampa de busa, e lá estava a TV nas fuças dos passageiros, passando um filme boçal de trapalhadas de um certo Mr. Been, ou Bean, sei lá. Interessante é que só um passageiro parecia olhar pr’aquilo. Cinema na TV no ônibus. A merda avança. Falarei mais sobre isso, também sobre cinema, flagelo desde sempre. E viva Santo Expedito! Oremos. Bye, babes!
sexta-feira, 22 de agosto de 2008
“Rapsódia em brulho”
Frederico Mendonça de Oliveira
Acredito que algum dentre meus possíveis leitores conheça Rapsody in Blue, célebre composição de George Gershwin, por sinal amigo de Ravel, de quem ele tirou muitas idéias musicais para várias de suas composições – que são digamos respeitáveis, mas que sempre ficarão à margem do verdadeiro mundo erudito, talvez porque... porque... digamos a verdade: porque não eram verdadeiramente canônicas. Na mesma época, Villa Lobos embasbacava o mundo, e era considerado gênio pelos mais importantes nomes do erudito mundial, sendo copiado descaradamente por Stravinsky, só pra citar um exemplo cavalar. Mas Gershwin, se tinha algum talento para orquestrar, se tinha suas idéias para a constituição de um material americano que o mundo aceitasse, na verdade ficava aquém do patamar necessário para sua inclusão entre os mestres. Não alcançava nem mesmo gente como Camargo Guarnieri e Francisco Mignone, que dirá o Villa. Bem, mas a que vem esse gringo neste texto? Enter.
É que a tão famosa – à custa de muita promoção dos meios de comunicação controlados pelos congêneres de Gershwin – Rapsody in Blue anda sendo promovida no Brasil, aliás Brisêu, ou Brizêu, justamente por um de nossos redutos de erudito, a Petrobras Sinfônica, orquestra criada pelas mesmas mãos responsáveis pelo naufrágio da P36 e por vários outros “acidentes” ocorridos na Petrobras (mais acidentes que em toda a história da empresa somados) quando da gestão inexplicável de um certo Henry Philip Reischtul, gringo que não poderia ser presidente da empresa mas que foi, porque, para a consecução de tal fato, mudou-se o primeiro estatuto da empresa, que rezava que o presidente da Petrobras só poderia ser um brasileiro nato. O tipo citado era naturalizado. O que fica sem resposta é por que tinha de ser ele o presidente, por determinação inarredável do teratológico FHC, a quem o povo brasileiro agradece pelo câncer que se instalou definitivamente sobre nós. Enter.
E pela segunda vez, pelo menos que o velhote aqui saiba, a Petrobras Sinfonica toca o tal gringo Gershwin: uma, parece que para sua inauguração e apresentação ao público – ou púbrico, como dizem nas montanhas de que desceu o “maestro” Wagner Tiso, que “regeu” o concerto de apresentação do conjunto, com Gershwin no repertório. A turma ficou sem entender que patacoada era essa: por que não executar Villa Lobos ou outro de nossos gênios sob a regência de um maestro legítimo? Por que tal factóide? Bem, a orquestra foi iniciativa do tal Reischtul ou coisa que tal – não sei o que sabe ele de música ou de orquestra –, e o factóide musical WT era então entronizado nessa “boquinha” para fazer música popular brasileira. Ué... então por que Gershwin? Mas o Brizêu é isso mesmo: surrealismo. Enter.
Pois nestes últimos dias eis que o “maestro” atacou de pianista e cometeu, sob a batuta de Isaac Karabchewsk (nossa, quanta consoante!), a mesma Rapsody in Blue, para delícia de... quem mesmo? A quem interessa isso de a Petrobras Sinfônica ficar tocando Gershwin? Alguém se habilita a explicar? Pois rolou a coisa, para espanto de muitos, especialmente dos músicos da orquestra, que saíram da folia globalizada comentando entre eles, à boca solta, que aquilo não foi Rapsody in Blue, mas Rapsódia em brulho, tal a embrulhada cometida pelos inábeis dedos do “maestro” pop eruditóide ao pianol. Enter final.
Isso é Brasil, gente: tantos maestros aí – inclusive com admirável material de composição –, afiadíssimos e aptos para ocupar cargo de maestro e regente da máquina em questão, e a turma aturando patacoadas... E viva Santo Expedito! Oremos. Inté!
Acredito que algum dentre meus possíveis leitores conheça Rapsody in Blue, célebre composição de George Gershwin, por sinal amigo de Ravel, de quem ele tirou muitas idéias musicais para várias de suas composições – que são digamos respeitáveis, mas que sempre ficarão à margem do verdadeiro mundo erudito, talvez porque... porque... digamos a verdade: porque não eram verdadeiramente canônicas. Na mesma época, Villa Lobos embasbacava o mundo, e era considerado gênio pelos mais importantes nomes do erudito mundial, sendo copiado descaradamente por Stravinsky, só pra citar um exemplo cavalar. Mas Gershwin, se tinha algum talento para orquestrar, se tinha suas idéias para a constituição de um material americano que o mundo aceitasse, na verdade ficava aquém do patamar necessário para sua inclusão entre os mestres. Não alcançava nem mesmo gente como Camargo Guarnieri e Francisco Mignone, que dirá o Villa. Bem, mas a que vem esse gringo neste texto? Enter.
É que a tão famosa – à custa de muita promoção dos meios de comunicação controlados pelos congêneres de Gershwin – Rapsody in Blue anda sendo promovida no Brasil, aliás Brisêu, ou Brizêu, justamente por um de nossos redutos de erudito, a Petrobras Sinfônica, orquestra criada pelas mesmas mãos responsáveis pelo naufrágio da P36 e por vários outros “acidentes” ocorridos na Petrobras (mais acidentes que em toda a história da empresa somados) quando da gestão inexplicável de um certo Henry Philip Reischtul, gringo que não poderia ser presidente da empresa mas que foi, porque, para a consecução de tal fato, mudou-se o primeiro estatuto da empresa, que rezava que o presidente da Petrobras só poderia ser um brasileiro nato. O tipo citado era naturalizado. O que fica sem resposta é por que tinha de ser ele o presidente, por determinação inarredável do teratológico FHC, a quem o povo brasileiro agradece pelo câncer que se instalou definitivamente sobre nós. Enter.
E pela segunda vez, pelo menos que o velhote aqui saiba, a Petrobras Sinfonica toca o tal gringo Gershwin: uma, parece que para sua inauguração e apresentação ao público – ou púbrico, como dizem nas montanhas de que desceu o “maestro” Wagner Tiso, que “regeu” o concerto de apresentação do conjunto, com Gershwin no repertório. A turma ficou sem entender que patacoada era essa: por que não executar Villa Lobos ou outro de nossos gênios sob a regência de um maestro legítimo? Por que tal factóide? Bem, a orquestra foi iniciativa do tal Reischtul ou coisa que tal – não sei o que sabe ele de música ou de orquestra –, e o factóide musical WT era então entronizado nessa “boquinha” para fazer música popular brasileira. Ué... então por que Gershwin? Mas o Brizêu é isso mesmo: surrealismo. Enter.
Pois nestes últimos dias eis que o “maestro” atacou de pianista e cometeu, sob a batuta de Isaac Karabchewsk (nossa, quanta consoante!), a mesma Rapsody in Blue, para delícia de... quem mesmo? A quem interessa isso de a Petrobras Sinfônica ficar tocando Gershwin? Alguém se habilita a explicar? Pois rolou a coisa, para espanto de muitos, especialmente dos músicos da orquestra, que saíram da folia globalizada comentando entre eles, à boca solta, que aquilo não foi Rapsody in Blue, mas Rapsódia em brulho, tal a embrulhada cometida pelos inábeis dedos do “maestro” pop eruditóide ao pianol. Enter final.
Isso é Brasil, gente: tantos maestros aí – inclusive com admirável material de composição –, afiadíssimos e aptos para ocupar cargo de maestro e regente da máquina em questão, e a turma aturando patacoadas... E viva Santo Expedito! Oremos. Inté!
sábado, 16 de agosto de 2008
Notas sobre um Brasil surrealista
Frederico Mendonça de Oliveira
Bar Bossa Nueva, Vila Madalena, São Paulo, 13 de agosto de 2008. Só faltava ser sexta-feira... Começando a “festejar” 40 anos de uma carreira que engordou contas bancárias de fariseus a serviço de multinacionais da canção e que me valeu apenas menções em dicionários especializados em música e registros vários mundo afora e na internet, eis-me tocando com um grande amigo, o brilhante pianista Osmar Barutti, e com músicos outros, como eu desconhecidos do grande público. Osmar é exceção: aparece naquele hoje infame programa do Jô toda noite, mas não enverga o traje das celebridades filistinas que se julgam olímpicas porque ungidas pelos globalizadores. Aos outros cabe a obscuridade dos zé-ninguém, mas em essência, sensibilidade e conhecimento destoam do triste amontoado humano que deambula a esmo e entope os espaços sociais, espaços, na verdade, socioterminais... Bem, tocamos pra gente grande, isto é, pra nós mesmos. Os presentes até piraram de ver, pois é para eles impressionante contemplar as maluquices que fazemos com os instrumentos, mas o teor musical não é assimilado por NINGUÉM exceto, no caso daquela noite 13/08, pelos ilustres presentes Zé Rodrix e Tavito, meus velhos companheiros do hoje usurpado Som Imaginário, mas eles entenderam tudo unicamente porque são músicos também. Ninguém fora músicos assimila nada, porque o abismo entre a música e o público de hoje é irreparável. A desmusicalização do Brasil é incurável, irreversível, assim também a dessocialização e a desidentificação nacional. E nos resta prosseguir, em nome de Deus. Enter.
Puxa!, que paragrafão! Tive de reler! E temos de tirar o chapéu para os globalizadores, porque conseguiram habilmente, com precisão de relojoeiros suíços, transformar preciosidade social em merda pura. Quem conheceu o Brasil de Villa Lobos, Ary Barroso e Tom Jobim não valorizava nem mesmo Chico Buarque e quejandos da MPB, porque na verdade para estes a música era já TOTALMENTE RELATIVA, o que os condena sumariamente diante do tribunal da música. A MPB, ou emepebê, foi tarefa de multinacionais, ou coisa de globalizadores, com a participação de colaboracionistas como os já citados emepebistas, e aí é que a vaca Brasil foi pro brejo. A canção de hoje, desgraça liderada pela patética Ivete Sangalo, paradigma da ignorância sorridente premiada pelo sistema, e por figuras sinistras como Daniel, Leonardo, as duplas do miserabilizante e cancerígeno breganejo e por DJs e tantas outras deformidades que animam o oceano dos ímpios e da miséria sonora, é matéria em plena decomposição. O ambiente que cerca essa prática regressiva e destrutiva rima totalmente com outro ajuntamento, para o que reservo o parágrafo conclusivo desta sessão de avaliação do que sofremos nestes tempos pré-apocalípticos já escatológicos, e nos dois sentidos conhecidos. Enter final.
Entro na loja de 1,99 para comprar sacos de terra vegetal para minhas plantas – aqui dizem ‘prantas” – e eis-me integrando, como um extraterrestre, o gado humano global. A ralé vivendo o consumo, eis a maior ironia de todos os tempos! Não podendo se desfazer dos fedelhos para “ir consumir”, os bugres fazem da loja um pandemônio, seguramente a reedição do palácio de Satã, de Milton. Os fedelhos berram e fazem birra porque também querem consumir porcarias, e seus rústicos pais e mães, rudes e toscos, não se importam com o caos que produzem, para eles coisa normalíssima. Os seres abissais entopem os corredores entre prateleiras de quinquilharias e bugigangas enquanto seus rebentos berram e choram alto. A “música” de fundo não poderia ser outra: “dupras” de breganejo emitindo ganidos e gemidos lancinantes. Pensar em Deus numa hora destas é até risco. Só resta fugir em busca de ar... E viva Santo Expedito! Oremos. ’Té mais, babes!
Bar Bossa Nueva, Vila Madalena, São Paulo, 13 de agosto de 2008. Só faltava ser sexta-feira... Começando a “festejar” 40 anos de uma carreira que engordou contas bancárias de fariseus a serviço de multinacionais da canção e que me valeu apenas menções em dicionários especializados em música e registros vários mundo afora e na internet, eis-me tocando com um grande amigo, o brilhante pianista Osmar Barutti, e com músicos outros, como eu desconhecidos do grande público. Osmar é exceção: aparece naquele hoje infame programa do Jô toda noite, mas não enverga o traje das celebridades filistinas que se julgam olímpicas porque ungidas pelos globalizadores. Aos outros cabe a obscuridade dos zé-ninguém, mas em essência, sensibilidade e conhecimento destoam do triste amontoado humano que deambula a esmo e entope os espaços sociais, espaços, na verdade, socioterminais... Bem, tocamos pra gente grande, isto é, pra nós mesmos. Os presentes até piraram de ver, pois é para eles impressionante contemplar as maluquices que fazemos com os instrumentos, mas o teor musical não é assimilado por NINGUÉM exceto, no caso daquela noite 13/08, pelos ilustres presentes Zé Rodrix e Tavito, meus velhos companheiros do hoje usurpado Som Imaginário, mas eles entenderam tudo unicamente porque são músicos também. Ninguém fora músicos assimila nada, porque o abismo entre a música e o público de hoje é irreparável. A desmusicalização do Brasil é incurável, irreversível, assim também a dessocialização e a desidentificação nacional. E nos resta prosseguir, em nome de Deus. Enter.
Puxa!, que paragrafão! Tive de reler! E temos de tirar o chapéu para os globalizadores, porque conseguiram habilmente, com precisão de relojoeiros suíços, transformar preciosidade social em merda pura. Quem conheceu o Brasil de Villa Lobos, Ary Barroso e Tom Jobim não valorizava nem mesmo Chico Buarque e quejandos da MPB, porque na verdade para estes a música era já TOTALMENTE RELATIVA, o que os condena sumariamente diante do tribunal da música. A MPB, ou emepebê, foi tarefa de multinacionais, ou coisa de globalizadores, com a participação de colaboracionistas como os já citados emepebistas, e aí é que a vaca Brasil foi pro brejo. A canção de hoje, desgraça liderada pela patética Ivete Sangalo, paradigma da ignorância sorridente premiada pelo sistema, e por figuras sinistras como Daniel, Leonardo, as duplas do miserabilizante e cancerígeno breganejo e por DJs e tantas outras deformidades que animam o oceano dos ímpios e da miséria sonora, é matéria em plena decomposição. O ambiente que cerca essa prática regressiva e destrutiva rima totalmente com outro ajuntamento, para o que reservo o parágrafo conclusivo desta sessão de avaliação do que sofremos nestes tempos pré-apocalípticos já escatológicos, e nos dois sentidos conhecidos. Enter final.
Entro na loja de 1,99 para comprar sacos de terra vegetal para minhas plantas – aqui dizem ‘prantas” – e eis-me integrando, como um extraterrestre, o gado humano global. A ralé vivendo o consumo, eis a maior ironia de todos os tempos! Não podendo se desfazer dos fedelhos para “ir consumir”, os bugres fazem da loja um pandemônio, seguramente a reedição do palácio de Satã, de Milton. Os fedelhos berram e fazem birra porque também querem consumir porcarias, e seus rústicos pais e mães, rudes e toscos, não se importam com o caos que produzem, para eles coisa normalíssima. Os seres abissais entopem os corredores entre prateleiras de quinquilharias e bugigangas enquanto seus rebentos berram e choram alto. A “música” de fundo não poderia ser outra: “dupras” de breganejo emitindo ganidos e gemidos lancinantes. Pensar em Deus numa hora destas é até risco. Só resta fugir em busca de ar... E viva Santo Expedito! Oremos. ’Té mais, babes!
sexta-feira, 8 de agosto de 2008
A Civilização Brasileira acabou-se
Frederico Mendonça de Oliveira
Não, não é o que vocês estão pensando: refiro-me à EDITORA Civilização Brasileira. daí as maiúsculas. Pois é: outro dia li, para não perder um amigo, um artigo da Folha – que os comunistas do extinto MR8 e hoje editores do jornal Hora do Povo chamam de “a cloaca da Barão de Limeira – assinado pela Bárbara Gancia, por sinal glamurizada, pela multidão de lacaiso dos globalizadores, como grande e sensata pensadora em meio a esta barafunda letal que enfrentamos. De cara ela deu uma tropeçada no penico, esparramou mijo no soalho: ela acredita na “mentira do século”, está por fora da mais importante realidade de nossos tempos desde 1945. E fala da coisa com a emoção da indignação de quem sabe o que aconteceu em Acosta Ñu. Pois ela começou falando já estar se achando meio velha, porque não acredita mais na civilização, coisa que em outros tempos a gente achava que um belo dia ia encontrar ali na esquina. Ela pode estar ficando velha sim, como todos nós, se não morrermos prematuramente, ficaremos, estamos ficando ou já ficamos. E a civilização já acabou sim, dona Gancia, trata-se de um fato, mesmo que a senhora seja colunista da tal “cloaca” também glamurizada como sendo um oásis em meio ao despedaçamento final. Puxa, vamos em frente, senão isso vira nariz-de-cera... Enter.
Mas a Civilização Brasileira acabou, e isto é trágico. Perdemos tudo neste país, e este é um feio sinal. Quando cursei Letras na Universidade do Estado da Guanabara, hoje UERJ, a Civilização publicava livros aos caminhões, numa qualidade jamais vista, e em todos os aspectos, desde as capas do Eugênio Hirsh até a participação profusa de pensadores em simplesmente todos os aspectos. Nessa época, a Eldorado Tijuca, uma das maiores livrarias do País, não tinha espaço nem prateleiras pra abrigar tamanha produção editorial: ficavam pelo chão pilhas e mais pilhas de livros recém-chegados, tudo cheirando a novo: as livrarias teriam de dobrar de tamanho para comportar tamanha demanda. Hoje, ora, “hoje”!... “Hoje” é a merda! As livrarias só têm porcariada, os tais dos best-sellers dos globalizadores ocupam quase todo o espaço, além da enxurrada de produção de auto-ajuda, sem contar o paulocoelhismo escatológico balizando os parâmetros da ignorância global generalizada. Enter.
“Hoje” é a merda. Estive no Rio tempos atrás e fui a todos os grandes sebos da “cidade maravilhosa” hoje cidade pavorosa, não precisa dizer por quê. Em nenhum deles achei um Iracema (!!!). Do Guimarães Rosa, só um Sagarana, que adquiri, claro. Do Campos de Carvalho, neca. Aliás, ninguém dos sebos sequer o conhecia. E o Campos de Carvalho foi publicado completo pela Civilização, com capas memorabilíssimas do já citado Hirsh: A Lua Vem da Ásia, Chuva Imóvel, Vaca de Nariz Sutil, O Púcaro Búlgaro eram livros do Brasil ainda brasileiro, com um belo contraponto na obra de João Antônio, também publicada pela Civilização, inclusive o Malagueta, Perus e Bacanaço. Eram tempos, não essa merda desse “hoje”. É carma coletivo, claro, e carma brabo, hem?! Que diabos andamos fazendo no passado para viver uma condenação dessas, caraco?? Será que fomos nós que afundamos a Atlântida e condenamos os atlanteanos a morrer afogados e devorados por predadores marinhos, a maioria dos infelizes habitantes do continente perdido boiando e tentando salvar mulheres e crianças da voracidade de dragões marinhos, polvos gigantes, tubarões e orcas? Enter final.
A Civilização acabou, porque aliás acabou a civilização. Resta-nos as degustações das boas coisas que alegram os que não morreram mentalmente sob a Grobo, resta estudar e progredir em meio ao caos, resta pedir a Deus pelos desvalidos. ’Tá russo, também ’tá ruço! E viva Santo Expedito! Oremos. Bye, babes!
Não, não é o que vocês estão pensando: refiro-me à EDITORA Civilização Brasileira. daí as maiúsculas. Pois é: outro dia li, para não perder um amigo, um artigo da Folha – que os comunistas do extinto MR8 e hoje editores do jornal Hora do Povo chamam de “a cloaca da Barão de Limeira – assinado pela Bárbara Gancia, por sinal glamurizada, pela multidão de lacaiso dos globalizadores, como grande e sensata pensadora em meio a esta barafunda letal que enfrentamos. De cara ela deu uma tropeçada no penico, esparramou mijo no soalho: ela acredita na “mentira do século”, está por fora da mais importante realidade de nossos tempos desde 1945. E fala da coisa com a emoção da indignação de quem sabe o que aconteceu em Acosta Ñu. Pois ela começou falando já estar se achando meio velha, porque não acredita mais na civilização, coisa que em outros tempos a gente achava que um belo dia ia encontrar ali na esquina. Ela pode estar ficando velha sim, como todos nós, se não morrermos prematuramente, ficaremos, estamos ficando ou já ficamos. E a civilização já acabou sim, dona Gancia, trata-se de um fato, mesmo que a senhora seja colunista da tal “cloaca” também glamurizada como sendo um oásis em meio ao despedaçamento final. Puxa, vamos em frente, senão isso vira nariz-de-cera... Enter.
Mas a Civilização Brasileira acabou, e isto é trágico. Perdemos tudo neste país, e este é um feio sinal. Quando cursei Letras na Universidade do Estado da Guanabara, hoje UERJ, a Civilização publicava livros aos caminhões, numa qualidade jamais vista, e em todos os aspectos, desde as capas do Eugênio Hirsh até a participação profusa de pensadores em simplesmente todos os aspectos. Nessa época, a Eldorado Tijuca, uma das maiores livrarias do País, não tinha espaço nem prateleiras pra abrigar tamanha produção editorial: ficavam pelo chão pilhas e mais pilhas de livros recém-chegados, tudo cheirando a novo: as livrarias teriam de dobrar de tamanho para comportar tamanha demanda. Hoje, ora, “hoje”!... “Hoje” é a merda! As livrarias só têm porcariada, os tais dos best-sellers dos globalizadores ocupam quase todo o espaço, além da enxurrada de produção de auto-ajuda, sem contar o paulocoelhismo escatológico balizando os parâmetros da ignorância global generalizada. Enter.
“Hoje” é a merda. Estive no Rio tempos atrás e fui a todos os grandes sebos da “cidade maravilhosa” hoje cidade pavorosa, não precisa dizer por quê. Em nenhum deles achei um Iracema (!!!). Do Guimarães Rosa, só um Sagarana, que adquiri, claro. Do Campos de Carvalho, neca. Aliás, ninguém dos sebos sequer o conhecia. E o Campos de Carvalho foi publicado completo pela Civilização, com capas memorabilíssimas do já citado Hirsh: A Lua Vem da Ásia, Chuva Imóvel, Vaca de Nariz Sutil, O Púcaro Búlgaro eram livros do Brasil ainda brasileiro, com um belo contraponto na obra de João Antônio, também publicada pela Civilização, inclusive o Malagueta, Perus e Bacanaço. Eram tempos, não essa merda desse “hoje”. É carma coletivo, claro, e carma brabo, hem?! Que diabos andamos fazendo no passado para viver uma condenação dessas, caraco?? Será que fomos nós que afundamos a Atlântida e condenamos os atlanteanos a morrer afogados e devorados por predadores marinhos, a maioria dos infelizes habitantes do continente perdido boiando e tentando salvar mulheres e crianças da voracidade de dragões marinhos, polvos gigantes, tubarões e orcas? Enter final.
A Civilização acabou, porque aliás acabou a civilização. Resta-nos as degustações das boas coisas que alegram os que não morreram mentalmente sob a Grobo, resta estudar e progredir em meio ao caos, resta pedir a Deus pelos desvalidos. ’Tá russo, também ’tá ruço! E viva Santo Expedito! Oremos. Bye, babes!
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