terça-feira, 25 de agosto de 2009

Manoel e a boçalidade no Arraial das Bagas

Frederico Mendonça de Oliveira

Recebendo de uma admirável garota já beirando os 20 um poema do Bukowski via internet, Manoel considerou e admitiu como fato consumado a boçalidade no Arraial das Bagas. O poema fala em ter estilo para tudo, até para mandar o cérebro pelos ares, como fez Hemmingway, até para morrer na cruz, como Cristo. E o autor alude a alguns cães terem estilo: “I have seen dogs with more style than men”, mas em tempo coloca esses animais estúpidos no seu devido lugar: “Although not many dogs have style”, e sentencia a bem da elegância e do estilo falando sobre gatos: “Cats have it with abundance”. Pois é: o xaroposo Rubem Alves um belo dia escreveu um batatão sobre gatos num artigo sem pé nem cabeça, em que declarou sempre ter tido desconfiança de gatos. Por que, Rubens? Por serem eles elegantes e independentes, belos e gentis em tudo que fazem? Você deve preferir um cão babante em que você tem de dar banho, de limpar a bosta, deve achar lindo a cópula deles, que os deixa depois engatados asquerosamente como baratas dando vexame até a eles mesmos, né? Bem, deixando de lado quem desconfia de gatos, vamos ao cerne dessa fala de uma vez. Enter.
É que no Arraial das Bagas há cachorros de toda sorte. Desde todos os âmbitos do poder cachorros são abundantes. Fora do poder mas atrelados a ele e mamando e dando prosseguimento às cachorradas também há cachorros vestidos de toda sorte, dando suporte e tirando proveito da podridão instituída através da corrupção escancarada, e vivendo dela como vermes e abutres na carniça. E o Arraial não passa de um grande canil, onde se criam estupidamente cães largados nos quintais e jardins, sofrendo de tédio e desamparo, cagando e mijando e dando à população o fedor de que ela parece gostar muito. E, pior: latindo em desespero, em cadeia, e isso para seus donos acachorrados deve ser música... pois para essa gentuça a Xuxa é a Rainha dos Baixinhos MESMO, o Roberto Carlos é o Rei MESMO. Enter.
Pois Manoel sempre teve gatos. Embora tenha dado uma colher de chá a um filho criando um cão para ele por questão de espaço, o Sobio, isso foi uma exceção. O cão, mesmo sendo boa gente, incomodava Manoel, pois era burro e chato como todos os cães. E no tempo do Sobio Manoel tinha seu Grude, um gato rajado gentilíssimo, soberano e digno do carinho e atenção que recebia. Pois um dia envenenaram o bicho. O autor, segundo uma vizinha que criava um montão de gatos, foi um vizinho novo no pedaço, criador de passarinhos, super mal encarado, feio, bexiguento, de barba rala por fazer e casado com uma mulher também mal encarada e mais velha que ele, tipo uma bruxa de mal com a vida. Segundo a vizinha, os gatos dela foram mortos um atrás do outro. Manoel morava por ali, e como gatos andam mundo afora, o dele terá tido o mesmo destino, só que não conseguiu chegar de volta em casa para morrer lá. Enter.
Agora, com essa praça maldita reunindo uma ralé ruidosa e estúpida e já que vieram novos vizinhos arregimentados pelo poderoso autor do crime, vem acontecendo de desaparecerem os gatos nas imediações. Sumiram gatos de vizinhos, sumiram recentemente dois gatos de Manoel – desde que ele mora no endereço definitivo, já é o sexto gato dele eliminado com veneno, e um vizinho de muro fez uma piada de mau gosto como que “advertindo” que trabalha com cianeto, depois de manifestar sua aversão por gatos – e sobrou apenas um, negro, pesadão, luzidio, belíssimo e que deve ter sobrevivido por ter horror a seres humanos, talvez por isso não caindo no ardil de ir comer em casa de desconhecidos que vão dando ração a eles e depois de acostumá-los dão uma dose de veneno junto. Canalhas imundos! Covardes abjetos! E ainda posam de politicamente corretos, ainda desfilam como se fossem gente de bem, até aparecem em “colunas sociais” no pasquinete do arraial quando nem gente sonham ser! Pulhas! E, claro, quase todos têm cães. Óbvio. Enter.
Pois Manoel estava no sai-não-sai da cama numa manhã destas, tirando cochilos de leve, quando foi acordado de um deles por um som que no sonho era emitido por um estupidozinho de uns cinco anos e de camisa verde água. No instante em que acordou da soneca e do som, verificou que a coisa vinha do cão fila do vizinho, que emitiu um longo e agudo gemido. Combina: os animaizinhos vestidos que frequentam o espaço criminosamente montado berram como se torturados, e de tudo decorre uma sinfonia de sons deletérios emitidos por seres irracionais degenerados e desamparados. O que Manoel mais contempla no bairro é o som dos pássaros, desde os gritos poderosos das cocotas até os delicados cantos dos gaturamos, tudo soando como a orquestra da Natureza. Pois um dia passa Manoel pela rua contemplando a gritaria das maritacas no fio, e de dentro da casa em frente sai um boçal ignorante gritando para espantá-las dali, pois estava “incomodado” com a cantoria delas, uma divertidíssima troca de frases palradas. Esse pitecóide não tem alma nem coração: é um objeto vestido e dependente de ter, de matéria, nem sonhando com a idéia de ser... Enter final.
Pois o amigo de Manoel que foi guitarrista do Raul anda também amuado por ter perdido dois gatos amadíssimos, o Tácito – rajado e branco, forte, gentil, há já quatro anos vivendo com seu dono – e o Bicus – abreviatura de Chimbico, um angorazinho cinzento doce, amável, dócil, elegantemente chameguento, o xodó da casa –, que de algum tempo para cá, segundo o amigo, andavam possivelmente frequentando outra casa, pois andavam menos tempo na residência do dono. Que monstros! E o que eles não sabem é que vão pagar por isso na conta cármica, irremediavelmente. Com isso vê-se como são estúpidos e ignorantes. Por isso gostam tanto de cachorros... se é que gostam: devem apenas fazer deles suporte para a personalidade que não têm, já que são objetos vestidos obedientes à TV. E viva Santo Expedito! Oremos. Bye, babes!

sábado, 22 de agosto de 2009

Manoel e os 20 anos sem Raul Seixas

Frederico Mendonça de Oliveira

Manoel é amigo do cara que foi o primeiro guitarrista do Raul Seixas. Como estamos a 20 anos do momento em que o Maluco Beleza nos deixou a ver Tchans, Bondes do Tigrão, Tiriricas, Créus, e a mídia voraz vai abocanhando (qualquer coisa serve para desviar a atenção da podridão que explode no Congresso e livrar Sarney do linchamento que tanto merece) e arrecadando (até depois de morto o Raul dá lucro aos chacais da segunda mais antiga profissão do mundo) em cima de homenagens, documentários, livros e tributos às centenas, vale parar e fazer uma reflexão entre um arroto, um peido e uma escarrada emitidos quando pensamos – o tempo todo, aliás – na cloaca parlamentar brasileira. E foi nesta pausa para meditação que Manoel topou com o velho amigo, que tocava no palco acompanhando o Raul em sua primeira temporada enquanto nosso herói tudo testemunhava da platéia, presente quase todos os dias àquele memorável show de estréia no Teatro Tereza Rachel, no Rio já conflagrado naquele já distante 1973. E foi aquilo de dois velhos amigos do peito trombando em meio à putaria instalada também nos mais remotos arraiais deste lugar degringolado chamado Brasil. Enter.
Irmanados na mesma visão crítica pela conjunta experiência haurida em anos de percurso comum, os dois se deixaram apenas ficar juntos, o amigo de braço apoiado no ombro firme de Manoel, e não era preciso praticamente dizer nada. O amigo perguntou pela Maria, mulher amada e sempre musa de Manoel, e a conversa, tácita, telepática, só foi interrompida quando o amigo informou que estaria tocando em homenagem ao Raul – não em homenagem aos 20 anos da morte do Raul, como dizem os trouxas tipo “pode vim”: não vá ninguém homenagear data de falecimento...- no exato dia em que se somam 20 anos do desaparecimento do cara. “Porra, não quero perder essa!’, exclamou entusiasmado Manoel, considerando como seria estar na platéia dessa homenagem e voltando no tempo vendo o amigo ainda de rabo-de-cavalo , cheirado e dando tudo em sua Gibson garance. O amigo ainda relatou ter composto um rock em homenagem ao finado autor de Ouro de Tolo. E esse rock alude ao ilícito que corrompeu a vida na vizinhança em que os dois se inserem, essa história de uma torpeza que trouxe com ela uma série de torpezas mais graves e abjetas ainda. Manoel, sabedor da capacidade musical e poética do velho amigo, ficou vermelho de entusiasmo, pensando consigo: “Carilha!, esse rock deve ser é bom, imagine-se o que poderá sair do coração esmagado desse músico sesquipedal!”, e os dois se despediram com forte e sentido abraço fraterno, pois o amigo estava a caminho de casa para receber a Globo, que o iria entrevistar em função do show de homenagem etc. Enter.
Pois tudo rolou, inclusive a matéria na TV, que, no conceito exigente de Manoel, deixou um gostinho de quero mais, na verdade ficando a dever ao músico e ao público – pra variar. E Manoel se divertiu muito considerando a dor-de-cotovelo, a inveja e o desapontamento dos vizinhos escrotos, covarde e sujamente organizados contra seu amigo, quando viram a viatura de externa da Globo parada na porta da casa por mais de duas horas (e tome acender e apagar refletores dentro da sala da frente)... E, como a casa do amigo está sendo observada por câmara colocada em casa de um dos moradores aliciados pelo autor intelectual do crime, esse registro deve ter causado calafrios entre os bugres estúpidos partidários do ilícito, que devem ter imaginado que vem bomba pela frente, pois fica reinstaurada no Arraial a superioridade do amigo, em termos de prestígio, frente à alcatéia que o assedia com ódio e inveja, e à população do arraial em geral, verdadeira súcia de conformistas materialistas hipócritas, senão cínicos.. Enter.
E rolou o evento, em meio a verdadeiro furor de produção, ensaios, gravação de reportagem da Globo, e a noite ferveu de gente, um evento explosivo, e Manoel no meio com sua linda Maria – levemente maquiada ela causa deslumbramento... – exibindo seu lindo violão e ajudando com eficiência as meninas ligadas ao amigo de Manoel e ao próprio casal. E nosso herói via com os olhos úmidos o amigo já sessentão, hoje tocando sentado, com uma SG de luthier (o admirável Ronay, de Americana, SP), guitarra furiosa, uma vedete pra rock, e em torno do consagrado guitarrista que ele é mais de mil jovens, a começar pelos músicos tocando no palco, todos alunos dele, com exceção do admirável baterista.convidado para compor a homenagem. Enter final.
E a noite foi apoteótica! O filho do amigo, cantor já admirado por conhecedores e leigos, cantou Cachorro Urubu, linda faixa do Raul (procure isso na internet, possível leitor) na verdade homenageando o cacique Touro Sentado, sioux que declarou guerra aos EUA e teve sua tribo exterminada pela famigerada 7ª Cavalaria, comandada pelo genocida general Custer. A namorada desse filho do amigo, cantora, baixista e violonista, dotada de voz deslumbrante, cantou lindamente Trem das Sete e causou comoção geral cantando, junto com a voz unânime e fervorosa da platéia de jovens, Maluco Beleza. E Manoel e Maria ouviram e presenciaram, abraçados e de cabeças juntas, vertendo lágrimas de emoção, Ouro de Tolo, obra prima do Raul, que parecia dirigida à corja de bugres aliciada pelo autor intelectual do ilícito, quando fala: “É você se olhar no espelho/ se sentir humano, ridículo, limitado e que só usa dez por cento de sua cabeça, animal! /E você pensar que é doutor, padre ou policial e que está contribuindo com sua parte para este belo quadro social”, e nosso herói e sua amada se apertaram mais ainda quando ouviram “Eu é que não me sento no trono de um apartamento/ com a boca escancarada cheia de dentes/ esperando a morte chegar!”, e olhavam para o amigo músico, homem de coração livre, homem livre de desejos, trabalhando com energia e concentração a turma de pupilos no palco, e Manoel se emocionava com a figura que vira há 36 anos dando suporte ao salto do Raul. Que, na verdade, estava ali, naquele evento, porque estavam reunidos mais de mil em seu nome. O resto... depois eu conto. E viva Santo Expedito! Oremos. Bye, babes!

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Manoel retoma a literatura em meio ao caos

Frederico Mendonça de Oliveira

Depois de viver décadas um tanto afastado de seus autores prediletos da Santa Terrinha, Manoel decide mergulhar de novo na literatura portuguesa, repleta de gênios até o começo deste século, mas impressionantemente inferior ao Brasil em poetas e prosadores desde a década de 30 passada – tirando Fernando Pessoa, última glória da terra de Camões, que abriu a grande maravilha literária portuguesa. Hoje o Saramago reergue um pouco a chama de Portugal nas letras, mas é algo bastante pálido em comparação com um passado tão admirável. Em contrapartida, no Brasil a coisa da literatura no século XX foi arrasadora: de Euclides da Cunha e Murilo Mendes a Oswald de Andrade, João Guimarães Rosa, Clarice Lispector, João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, só pra citar alguns de nossos mestres do século passado, o Brasil simplesmente produziu a maior literatura do mundo! E para justificar o título, Manoel relembra um poeminha de Murilo Mendes de nome Pré-história: “Mamãe vestida de rendas/ tocava piano no caos/ Uma noite abriu as asas/ cansada de tanto som/ Equilibrou-se no azul/ de tonta não mais olhou para mim/ para ninguém/ Caiu no álbum de retratos”. Bem, o Brasil literariamente também acabou, e não só isso: acabou em tudo. Daí nosso herói se voltar para seu ícones do passado, especialmente um que fala através de seu próprio coração: Camilo Castelo Branco. Enter.
Bem, Camilo é Camilo, um território de riqueza incomparável, mesmo considerando seu contemporâneo Alexandre Herculano. Guimarães Rosa acabou por digamos encerrar a literatura brasileira, que recebeu seu golpe mortal com o movimento militar de 1964 e a imediatamente posterior entrada no ar do maior flagelo que já assolou nosso país terminal: a Rede Globo. Mas o encantamento da leitura dos geniais brasileiros acabou por afastar Manoel de Camilo, Eça, Ortigão, Herculano, Castilho, Pessoa e cia. Deu-se que nosso herói, depois de enfrentar um exemplar de contos russos constante de uma coleção de contos universais, e meio que aporrinhado com o universo daqueles escritores tão torturados, sem contar que tradução mata muito do sabor e teor originais, eis que lhe veio a idéia: “Ó pá! Tu não vais ler teus compatriotas no livro de contos portugueses desta porra de coleção??”, perguntou a si mesmo Manoel, e o livro saltou célere para suas mãos. E começou uma fase de deslumbramento para compensar a miséria moral e humana que pulula na pracita próxima a sua residência, onde mentalidades de frangos de granja, de hienas, de oligoquetas e de pitecóides fazem a farra da estupidez e da corrupção... Curiosamente, se tais "seres" se desgraçam com esse mergulho na lama da podridão política no hoje depravado Arraial das Bagas, trazendo para suas vidas e para a deformação dos infelizes menores que já em tenra idade aprendem a deformidade e a corrupção pelas mãos e exemplos miseráveis dos próprios pais, pelo menos os infelizes menores se livram da ação da Rede Globo, enquanto diariamente dão vazão a seus instintos herdados de pais estúpidos, ignorantes, arrogantes e sádicos. Enter.
Então, enquanto essas bestas e bestinhas chafurdam na lama, Manoel deita e rola na delícia dos contos portugueses, que abrem o volume com a maravilha de Padre Manoel Bernardes, uma linda parábola religiosa dos tempos ainda áureos do cristianismo católico autêntico e tão belo. E logo veio Herculano com seu imperdível “O bispo negro”, e logo veio Camilo com “Uma casa triste”, que levou nosso herói às lágrimas – que ele escondeu de sua amada, para não afligi-la. Pois ao ler Ramalho Ortigão, nosso herói chegou a quase estourar de tanto gargalhar ao lado de sua linda e divinal Maria, que neste momento lia os russos, e que ria de ver a explosão de hilaridade de seu homem e acabou até atemorizada com achar que ele ia ter um troço, pois se contorcia na cama de tanto rir e lacrimejar. E nessa admirável viagem, em que até o protótipo do livro A Cidade e as Serras apareceu em conto de nome Civilização, do Eça, Manoel se renovou das agruras de viver cercado de oligóides e corruptos confessos e fanáticos, sem contar a cachorrada dessa horda de imbecis, que late infernalmente como que transmitindo ao bairro a desdita que esses energúmenos experimentam nessa vida deles tão estúpida... Enter.
Pois Manoel, um iniciado por sua própria capacidade de evoluir, aplaca o desejo de impor uma lição a essa malta de basbaques e sevandijas, pois compreende que eles estão evoluindo mesmo que aparentemente regredindo tão grosseiramente. E considera sua própria condição: enquanto essa gentuça obtusa e alarvajada, seguindo religiosa e fervorosamente a determinação de outro alarvajado patife cheio de poder, se abestalha roçando-se uns nos outros como asnos a se coçar mutuamente, aquilo de “asinus asinum fricat” (um burro esfrega o outro), ele avança a largos passos no aperfeiçoamento desde que houve de se cansar da lamurienta e deprimente literatura russa, que chega aos limites do baixo astral. “Bem, estamos no país de Lula!”, pensa nosso querido personagem, “e que se pode esperar de um pinguço que não passa de um beldroegas traidor a serviço dos globalizadores fingindo ser homem do povo??”. Enter final.
Neste exato momento, um bando de estúpidos adolescentes histéricos faz arruaça na pracita. O que era local de paz virou esse inferno. Isso rima com Sarney, com Lula, com a guerra civil, com a estupidez instituída, com Rede Globo, com Igreja Universal, com a fome, com a corrupção, com o ódio: é a calamidade social, o colapso da Humanidade em marcha e materialização, é a decomposição vertiginosa dos conteúdos, é a lama, a lama, a lama! É Belzebu assumindo a sociedade em putrefação, é a tetrametilenodiamina e seu fedor de carniça tomando conta de tudo. É o fim. Mas Manoel enfia em êxtase pelas lindas páginas de A Doida de Candal, de Camilo, e se abstrai da miséria que pulula fora, na vizinhança que em delícia delirante se emporcalha em promiscuidade obscena, e sua Maria, linda e feminina, exala perfume a seu lado, encantando mais ainda o retorno de nosso herói a seus mestres lusitanos. E o céu se instala no recesso, sacrossanto sim!!, enquanto a récua de boçais se consome em azáfama de estupidez lá fora... E viva Santo Expedito! Oremos. Bye, babes!

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Manoel, a pizza e a vizinhança deformada

Frederico Mendonça de Oliveira

Por algum tempo, e impelido pelo fato de nutrir asco profundo pela imagem repulsiva de José Sarney, Manoel andou seguindo os jornalões on-line pra ver se esse refinado delinquente engravatado ia mesmo começar a amargar seu ostracismo sob pesado e justificadíssimo opróbrio e mergulho em desgraça pessoal e política. Pois as coisas foram esquentando contra o biltre, deu-se o episódio de um desembargador impor censura ao Estado de São Paulo impedindo o jornal de prosseguir denunciando o filho do sujeito, também encalacrado em falcatruas homéricas, e eis que veio a virada. Depois de o Estadão fixar em primeira página uma imagem reunindo o tal desembargador mais duas mulheres, mais um qualquer lá, mais o Sarney e mais aquele senador trêfego do caso dos bois e da secretária que depois posou nua pra Playboy, o peralta descarado Renan Calheiros, o jogo virou. Aliás, que turma! Só Sarney e Calheiros têm broncas metidas em corrupção que somadas dariam mais de 500 anos de prisão! E ficam aí, posando sorridentes para a macacada trabalhadora que lhes sustenta o vidão e recebe de volta nas fuças os escândalos de um processo político de corrupção que já virou o estado de coisas político irreversível no Brasil. Parece até que a turma gosta disso... Pois eis que, depois de mais de semana acompanhando o agravamento da situação do bigode mais escroto de nossa história – tanto que inspirou a figura de Justo Veríssimo, aquele político louco idealizado por Chico Anísio –, eis que, depois do apoio do governo ao corrupto e além da censura imposta ao Estadão, rolou o pior: inacreditavelmente desapareceu dos jornalões o assunto Sarney, e Manoel ficou a ver navios! Pizza!!! “Só mesmo no Brasil!! Só mesmo nesta terrinha terminal!!!”, bufa e resfolega Manoel em surto de indignação! Enter.
“Pois não mais me verão tentando acompanhar qualquer assunto político em jornais de merda!”, impreca nosso herói, desligando o computador e indo ter com sua linda Maria, a quem relatou a constatação e que de pronto respondeu: “Pois é por isso que você não me vê mais interessada em nada de política, e nem só no Brasil! Acabou-se tudo! Tudo! Só nos resta vivermos cada um para si e um para o outro, o resto acabou-se!”, ao que Manoel sente grande emoção estética, vendo a linda fisionomia de santa indignação de sua Maria... e nosso herói pensa em sua arte, que não tem mais público, em sua cultura tão apaixonadamente adquirida e que hoje é absolutamente imprestável em meio a essa miséria mental que reina aqui e alhures, e só lhe passa pela cabeça uma atitude a tomar: uma cerveja bem gelada para aplacar sua indignação, enquanto Maria prossegue cuidando religiosamente do lar, com cuidado mitológico para com cada detalhe, com carinho e dedicação que só se encontra na mais refinada literatura. As formas lindas ganham mais beleza ainda nessa atividade... Enter.
Pois para engrossar a tremenda sopa de sapos que nosso herói vai engolindo, eis que a vizinhança, histérica para com o novo espaço de lazer criminosamente criado no bairro por uma autoridade da linha Sarney e Renan, e que aliás promoveu prevaricação, deformação, corrupção, litígio e desordem pública sendo regiamente pago para justamente agir em defesa da justiça, resolveu promover também o estado de desobediência civil praticando ostensivamente a perturbação do sossego no entorno da obra maligna. E Manoel só pode contemplar com nojo e engulhos os desgraçados filhos menores desses imbecis deformados assumidos. É que, para hostilizar o morador que peitou a obra com base na lei, os vizinhos que se derretem com adular a otoridade corrupta usam os filhos, aliás até crianças que engatinham, para constranger e sacanear DIARIAMENTE o morador. Teve uma louca varrida que, vendo chegar a sua casa o morador resistente, virou para seu filho, de menos de dois anos, e ficou dizendo: “Grita! Faz barulho!”, e ficou repetindo isso para o pobre desgraçado, aliás projeto de delinquente, porque desde cedo sendo incentivado pela própria “mãe” a praticar desordem! “Um dia, quando este infeliz abraçar o crime e a corrupção, ou quando esbofetear a estúpida que o pariu, ela seguramente se perguntará: ‘Onde será que eu errei pra sofrer isso?’”... Enter final.
E Manoel, que não liga TV senão pra raramente ver um vôlei quando rola a Liga, recebe um telefonema de um amigo que o informa de um fato bizarro: a Marginal Tietê, em São Paulo, está parada e engarrafada em quilômetros por conta de um caminhão de caixas de fósforos que pegou fogo. “Pois é”, pensa nosso herói, “fogo assim só nos corações meu e de Maria, e enquanto as mães deformam seus filhos desgraçados nesse espaço criminoso, o amor entre nós ferve! As bestas se depravando e nós nos amando! Vão pro diabo, alimárias! E viva Santo Expedito! Oremos. Bye!

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Manoel, o Senado, a Justiça e a gripe suína

Frederico Mendonça de Oliveira

Comecemos por essa merda de gripe suína aí. Desconfiado de mais uma jogada suja contra os povos, já que, desde que se conhece, nosso herói coleciona safadezas estúpidas que ele presenciou ou veio descobrindo ao longo dos seus mais de 60 anos, Manoel considera a gripe suína como outro golpe pra alugar a macacada e vender uns bilhões de Tamiflu mundo afora, simplesmente para engordar nuns bilhõezinhos a conta do crápula genocida Donald Rumsfeld. E Manoel se pergunta se Ronaldo Peidômeno, Ana Maria Brega, Gisele Sembundchen e outras mentes “privilegiadas” nesta colônia teriam qualquer idéia sobre o que seja Tamiflu ou Donald Rumsfeld. “Essas mentes de cabaça seca devem estar é evitando comer carne de porco pra não pegar essa gripe...”, considera nosso amigo luso, e logo deixa de lado tais reflexões, porque só de pensar nessas criaturas parece que o mundo se converte num circo irremediavelmente a serviço de malabarismos de mau gosto. E considerando o que rola de boçalidade na pracita que um safado criminosamente implantou ao lado de sua casa e que todo o entorno de gente igualmente safada apoiou como se fosse uma redenção, a isso juntando a lembrança da facies imbecil dos “ídalos” do país-lugar transformado em mar de lama, nosso herói resolve mudar de assunto em sua mente lúcida e piedosa. As estatísticas da gripe suína são irrisórias em relação a outros fatores determinantes de mortalidade mundo afora, mas vamos ver que merda vai ser essa. Enter
E, abrindo o blog do Frederico Vasconcelos, na Folha, eis o petardo que atinge em cheio nosso herói: “Neste domingo (26/7), a Folha registra que dez anos depois de o jornal revelar que os patrimônios dos desembargadores Paulo Theotonio Costa e Roberto Haddad, do Tribunal Regional Federal da 3ª Região, contrastavam com o padrão comum dos magistrados, várias ações judiciais foram propostas contra os dois a partir daquela reportagem, mas nenhuma resultou em condenação definitiva”. “Que engraçado!”, pensa Manoel: “Por aqui está até pior: um cidadão honesto denuncia um magistrado que cometeu um ilícito público envolvendo ainda o Executivo, o Legislativo, o Ministério Público, a imprensa local e moradores – estes, as mulas de sempre, com QI comparável ao de frangos de granja –, e acaba processado, perseguido, constrangido, injuriado, agredido e discriminado, enquanto o delinquente que se beneficiou da prevaricação sumiu por aí deixando o aborto urbanístico em plena função de litígio e impacto negativo de vizinhança, crime ambiental e perturbação permanente de sossego. “Já se vão dois anos desde a implantação do ilícito nas barbas de todos e nada aconteceu, senão perseguição judicial, pessoal, de vizinhança e social – o arraial é um grande curral de bestas assumidas e aguerridas em sua estupidez – sofridas pelo cidadão legalista. Pois esses que a Folha denuncia são do barulho: um deles tem 33 carros, dentre eles três Mercedes, dois BMW e uma caminhonete Mitsubichi, mais lancha super luxo. Outro tem bloco de prédios residenciais – parece que nove – e imóveis em várias cidades, e está aí prosa, defecando e deambulando para tudo, absolutamente ciente de que nada lhe acontecerá. Indignado, Manoel quase cospe pro lado, coisa que raras vezes fez na vida, mas o engulho é tal que só uma cusparada metaforiza a ira contra a infâmia que nos acomete. Enter.
Pois é abrir a versão on-line dos jornalões e lá está a carantonha abjeta do peidante Sarney, escória da história recente da colônia Brasilis, pole position de degradação pessoal e política na Pindorama. Aquelas bochechas flácidas e aquele bigode formam um conjunto que um pobre qualquer gostaria de esbofetear sonoramente, especialmente pela facies sardônica do ignóbil politiqueiro reles e execrável, inimigo real do povo brasileiro. E, diante da explosão do escândalo no Senado, teve um senador desses de quem jamais ouvimos falar que declarou que “Se o Senado for extinto, não fará falta nenhuma ao todo institucional”. “Óbvio que não!!! Descobriste a pólvora, ó pá???”, vocifera Manoel pra dentro do cavername onde bate um coração sofrido: “Que falta poderá fazer a qualquer país um antro de ladroagem e de pouca vergonha cujas despesas faraônicas são pagas pelo suor do cidadão trabalhador???”, e de novo Manoel tem o impulso de escarrar manifestando asco, mas pensa em sua Maria, tão séria, tão bela, tão aguerrida em sua feminilidade e consciência política, esta, aliás, coisa rara em mulheres, e a compostura fala mais alto, e nosso herói engole em seco. E se pergunta:. “Como pode gente da laia desse degenerado Sarney, gente (gente??) como FHC e coisas dessa linha de putrescência permanecer viva por aí como se fossem cidadãos, quando são traidores reles, imundos, descarados, deslavados??”, e um cheiro de tetrametilenodiamina (o tão conhecido cheiro de podre) toma conta do ar, só de Manoel lembrar de FHC a reboque da imagem sórdida e desclassificada de Sarney. Enter final.
E Manoel mais uma vez reflete sobre a “Terra do Nunca”, aquela fantasia que começa em Peter Pan, passa por Michael Jackson – ambos incapazes de virar gente grande, cada um no seu estilo, mas ambos cercados de dúvidas quanto a sexo e idade – e acaba no Brasil. Oh!, o Brasiiiil!, rematada e irreversível Terra do Nunca (nunca se emancipa, nunca vence a corrupção, nunca deixa de ser colônia, nunca evolui, nunca vence problemas cruciais, nunca prende os políticos bandidos responsáveis por nossa desgraça social, e por aí vai) e que acaba sendo também a terra do “existe mas não existe”: “Isto porque, pelo visto, só nesta reflexão fica evidente que as três coisas abordadas no título não existem no Brasil: Senado, Justiça e gripe suína. No caso desta, vale lembrar que a gripe comum mata meio milhão de seres por ano. A gripe aviária matou 250 pessoas em dez anos. A suína vai matando leve pelo mundo, mas, curiosamente, mata muito mais no Terceiro Mundo! Será que existe? E viva Santo Expedito! Oremos. Bye, babes!

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Manoel e as ventosidades (in)convenientes

Frederico Mendonça de Oliveira

Certa vez o presidente de Portugal – Manoel considera ter sido Craveiro Lopes – foi visitar a Inglaterra. Era lá pra 1955, por aí. Bem, o protocolo manda que qualquer presidente que visite Londres desfile ao lado da rainha de carruagem pelas ruas principais de Londres, e que seja passada em revista a guarda de honra do palácio de Buckingham. Pois iam os dois naquela pantomima ridícula, o presidente acenando para o povo nas ruas e a rainha fazendo seu tipo sempre empetecada com chapéu combinando com aquelas roupas sempre sem qualquer graça, e os belos bretões puxando a carruagem no maior garbo. Um deles, depois de um relincho indicativo de dor nas tripas, emitiu um estrondoso peido, na verdade um prodígio de potência, aliás questão de muita valia em se tratando de gostos de portugueses. Pois falando um português refinado típico de aristocratas, eis que a rainha, constrangida com o estrondoso fato – ou flato, como queiram –, falou para o presidente: “Oh!!!, senhor presidente! Que vergonha! Mas tem certas coisas que não podemos evitar, não é mesmo?” – ao que Craveiro teria respondido: “Oh!, majestade! Não se preocupe! Eu até pensei que tivesse sido o cavalo!’. E prosseguiu o passeio protocolar. Enter.
“Essa mania de mostrar os portugueses como sendo burros tem uma grande vantagem”, reflete Manoel: “Mostra que a suposta burrice não passa de um senso de humor que povos como os brasileiros não sonham ter!” E Manoel tem grandes chances de estar com a razão. Ou você não riu de imaginar, primeiro, a sinuca em que ficou a rainha frente ao equívoco?; segundo, ela imaginar que o presidente acreditasse que ela fosse capaz de emitir tamanho estrondo com seu esfíncter real; terceiro, o presidente estar mesmo falando sério, como certo de que sua majestade pudesse peidar tão poderosamente. Assim, uma gafe inevitável se transforma em uma situação hilariante, o que mostra que o senso de humor dos portugueses é imbatível. Pois não ficamos por aí: outro portuga entra num elevador onde já se encontra, descendo, um casal. Tão logo entra, o portuga emite um sonoro flato. O homem, indignado, esbraveja com o peidão: “Como é que o senhor faz isso na frente da minha mulher???”, ao que o portuga responde, sereno e educado: “Oh!, me desculpe! Eu não sabia que era a vez dela!”. Como podem ver, haja presença de espírito, criatividade, senão malícia pronta combinada a grande senso de humor. Enter.
E quem não libera suas ventosidades, sejam traquitos inodoros de donzela virgem, sejam bombas de cinquentões pançudos, sejam apitinhos assoviados fininho de noiva no altar no momento de benzer as alianças? Se não soltarmos os puns, eles retornam para dentro do tubo intestinal e complicam o fluxo peristáltico, disso podendo advir prisão de ventre! Mas que é sempre uma situação inusitada a emissão de peidos, lá isso é verdade. De uma feita, Manoel caminhava subindo a ladeira que leva a seu bairro. Como bom cervejeiro, costuma ter turbulências intestinais, que podem ocorrer na condição de diarréia ou de forte flatulência. “Vou peidar”, pensou Manoel, que julgava ser o único a caminhar por aquela lombada acima. Mas seu anjo da guarda fez que ele por precaução olhasse para trás, e eis que a meio metro dele vinha uma donzela com seu caminhar silenciado pelo solado de borracha do tênis. A bomba, que já estava na boca do canhão, teve de ser reprimida, e Manoel se livrou de um tremendo vexame, pois não é dado a aliviar com estampido seus intestinos diante de moças. Mesmo que seja muito diferente de uma moça educada, não importa. Importa é ELE ser educado e cavalheiro. Suando frio de ter detido um fluxo gasoso do tamanho de um pet de 600 ml, Manoel ganhou distância da sirigaita até poder se livrar da pressão, que ficou em ponto de dinamite bem no portal do fiofó contraído. Enter.
E não é raro o negócio de ele ter de se levantar do leito conjugal pela manhã já saída para ir liberar suas flatulências longe da câmara conjugal. O diabo é que quase sempre, apertado pela pressão de saída desesperada dos gases, tem de andar vários passos até sair do quarto, fechar a porta e ganhar uma distância segura para soltar os cachorros. Pois no que percorre tal estirão, eis que o flato volta às entranhas do cólon descendente, e eis Manoel perdido na casa com o vento acochado de novo nas tripas. E no que volta ao quarto e se deita, lá vem o sacana de novo pra boca do roscofe, e lá sai ele de novo. O que ele ignora é o quanto sua amada Maria se diverte de vê-lo evadir-se do leito em respeito a ela, e como se diverte ela mais ainda quando ouve os tiros de artilharia pesada que ressoam pela casa, e Manoel pensando que está a salvo de ser ouvido. Cruel, isso, muito cruel. Mas que seja. Fazer o quê? Enter.
Pois Manoel ficou intrigado com saber de um cirurgião seu amicíssimo que peida-se muito em salas de cirurgia. Pobre do paciente! Mal saberá ele que, sedado, andou aspirando gases mefíticos sulfídricos enquanto lhe metiam o bisturi! “Covardia!”, pensa Manoel acabrunhado. E mais ainda ficam esquisitas as coisas quando ele imagina a quantidade de puns que os congressistas emitem em plenário, especialmente porque vivem em banquetes e bocas livres, em farras em motéis que produzem fermentações obrigatórias, e tal consideração leva Manoel a indagar sobre o porquê de o peido ser tão mágico. O anúncio da Luftal é admirável...O pum também. Já os políticos... Enter final.
Tão encafifado ficou nosso herói com tais reflexões que resolveu ir ao dicionário consultar sobre a etimologia da palavra peido, e qual não foi sua surpresa ao verificar, no Houaiss, que não se trata de palavra onomatopéica, mas de verbete proveniente do latim, peditum, significando “traque, ventosidade”. E Manoel queda conjeturando sobre se o papa, em missa solene no Vaticano, não libera seus gases por baixo enquanto seus latinórios saem pelo orifício oposto em louvação a Deus. E se não seria admirável espargir um gás pelo recinto religioso que produzisse um azul no ar em reação com o gás sulfídrico. “Puta merda! A atmosfera interior da ingreja ficaria cheia de nuvens azuis, inclusive lá pro altar!” E viva Santo Expedito! Oremos. Bye, babes!

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Manoel e a Terra do Nunca

Frederico Mendonça de Oliveira

Em sessão de recordação de sua infância, Manoel reconsidera coisas sobre o que não havia parado para pensar. E repensa muitos detalhes que ficaram intocados em seu subconsciente mesmo sob a grande pressão da entrada da adolescência e o ingresso na idade adulta. Soterrados por injunções e novas conjunturas que exigiram tomada de posição em plano crítico, eis que os símbolos e conteúdos assimilados na infância agora afloram em chafariz, e Manoel se vê às voltas com referências que na verdade o desviam da realidade – e ele nem tinha consciência disso... até que uma olhada no Kibeloco lhe sacudiu as referências. Enter.
Começou essa onda quando uma bela criatura ainda teen lhe chamou a atenção para um tombo do Caetano. O vate baiano fazia um show para otários não se sabe onde, e esse show foi filmado de alguma forma, até cair no divertido blog de curtição com a cara dos famosos. Manoel, que foi muito amigo de Cae em meados da década de 70 e que até esteve com o cantor em 1997 para lhe entregar o livro que escrevera sobre o pianista Tenório Jr., amigo querido de ambos, não pôde conter as gargalhadas quando viu o estabaco do velho amigo. Não é aquela coisa do Voltaire, que avaliou a condição humana através de observar que, ao ver uma pessoa levando um tombo, o diabinho que mora em nós se diverte logo, ao passo que o anjinho também nosso hóspede se demora algum tempo para socorrer o acidentado. Mas até vale encartar isso, uma vez que pode ser genérico, e Voltaire não era um pensador que emitisse conceitos pelo rabo. Acaba é que todos, mal ou bem, nos reconhecemos no exemplo acima... e que a perda de equilíbrio tem sempre seu conteúdo ridículo. Pois o que levou nosso herói ao solo não foi nada além da enorme léria que prossegue ocorrendo sob a influência dos globalizadores, e isso pede parágrafo especial. Enter.
Que diabo foi o “fenômeno” Michael Jackson? Um produto bem trabalhado pelos venenos do marketing? Uma ocorrência cármica igual a tantas outras, em que um ser humano é deificado a ponto de gerar romarias de adoradores e de “fiéis”? E que diabo de Neverland é aquilo, um lugar como outros tantos mas que vira um local sagrado para.... otários? Pois a partir dessas digressões Manoel volta a outra Terra do Nunca, a do Peter Pan, e reconsidera que suas práticas no território de Onã muitas vezes teriam sido inspiradas pelas lindas pernoquinhas nuas – ah, aquelas coxinhas rolicinhas!...- da fadinha Sininho, que era apaixonada pelo valente e estúpido Peter Pan, assexuado e fantasioso, na verdade um veneno para crianças. Pois Peter Pan e Michael Jackson têm muito em comum: nenhum dos dois queria saber de crescer (Jackson morreu infantil aos 50 anos...), não se interessavam realmente por fêmeas e eram cheios de truques. E, na esteira dessa associação de Jackson & Pan, Manoel topa com o universo Disney (José Guinao de batismo), que tanta merda rala lhe enfiou na cabeça e na alma. Personagens como Pato Donald e Mickey – que não se uniam devidamente a Margarida e Minie, ficando a relação sempre no ar –; Tio Patinhas, um Rockfeller desprovido de qualquer sombra de afetividade ou libido; e mais o Pateta, homem-cachorro aludindo aos negros, ops!, afrodescendentes americanos, lhe vêm á mente como ícones de referência intangível, como parâmetros, e de tudo aflora uma incrível perplexidade. Como se pôde enfiar tanta titica em tantas mentes e tantas searas culturais de tantos povos, e isso não ter sido até hoje sequer questionado? Realmente, uma terrível minoria maligna, um câncer que assola a vida dos povos, responde por quê. É que o projeto era transformar, através do cinema, das revistinhas em quadrinhos, do rádio e depois através da TV – este o instrumento de maior poder de devastação já conhecido – o mundo em uma Terra do Nunca, ficando para eles, os conquistadores, depois de subjugada a Humanidade, a Terra do Sempre. “Eis o que se pode chamar de verdadeiro “ardente nacionalismo tribal”, conjetura Manoel a respeito dos filhos de Mefistófeles e de Babalon, entrando nisso, em participação especial, Baphomet, enquanto Maria chega toda feminina, cheirosa e linda trazendo-lhe um segundo cafezinho para esquentar o dia de inverno. “Que porra de Sininho cacete nenhum!”, decide Manoel, que cresceu de verdade e se dirige para uma velhice lúcida e digna ao lado de sua verdadeira fada, Maria, em comparação com quem qualquer criação da Disney não passa de safada qualquer. “E pensar que engoli tanta porcaria vida afora!”, considera. Enter.
Reavaliando tudo isso, Manoel retira como que cirurgicamente de sua mente esses resquícios de valores não cozidos, não digeridos, apenas introjetados por força da máquina de burrificação que envolve o planeta desde tempos imemoriais e que é manejada pela já citada minoria demoníaca obcecada por dominar a Humanidade e submetê-la a seus pés. E a Terra do Nunca se desfaz em fumaça, levando para a lixeira os Disneys de ontem – os de hoje são inaceitáveis, e só servem para literalmente foder com a cabeça da criançada, como Xuxas e que tais – e os Michael Jackson de hoje, debelando a ação bacteriana e viral dessas fantasias estúpidas. Enter final.
Pois tem Caetano de volta: quem quiser ver a cena, basta buscar no Kibeloco “o tombo de Caetano’, ou “o estabaco de Caetano”. Ele cantava para um bando de estúpidos sua chatérrima composição Força Estranha, e os babaquaras babavam diante disso como se assistissem à aparição de Santo Expedito, e essa sessão de oligofrenia acabou virando tombo. “Metafórico, isso!”, pensa Manoel, por sinal experimentando alívio ao verificar que o amigo nada sofreu. “Muito bem, muito bem: a força estranha se manifestou jogando o cara embaixo, pois aquilo tudo era um episódio sobre o que outro baiano, Gregório de Mattos, consideraria como “Tudo somado é nada!”. “E o Brasil, este lugar malfadado, é a verdadeira Terra do Nunca!”, pensa Manoel: “nunca melhora, nunca vence a pobreza, o analfabetismo, a fome, o tráfico e a guerra civil, nunca se livra da corrupção, nunca alcança a maioridade como nação, nunca vira país!”. E assim Manoel queda, consolado por sua Maria, anjo. E viva Santo Expedito! Oremos. Bye, babes!