Frederico Mendonça de Oliveira
Manoel realmente anda considerando a possibilidade de voltar a Lisboa, ou À Lisboa, como escrevem a torto e a direito os montanheses do arraialito e os bugres que infestam tudo no Brasil estupidificado pela mídia devastadora. Mas a completa falta de conteúdos na vida brasileira vai levando nosso herói ao completo desalento, e a saída mais natural seria o retorno às origens. Lisboa, por que não? Pois é. Os últimos acontecimentos no arraial andam pesando na vida de um lusitano que não está na face deste planeta para se transformar, depois de nascer homem, em macaco sem rabo, que anseia por voltar às árvores ou às cavernas, fazendo de novo do tacape a arma comum sempre à mão; afinal, se já saímos da pré-história, por que voltar a ela? Enter.
Pois o arraialito anda apresentando sinais de assunção da barbárie, e a pracita construída por uma autoridade começou um processo de degenerescência que anda pra lá de duro de engolir. Ocorreu, por exemplo, que tomou posse a nova Câmara, os novos vereadores eleitos no último pleito. Ao contrário da anterior, esta câmara apresenta perspectivas de enfrentamento do autoritarismo petista, que no arraial costuma usar de truculência para resolver tudo que lhe pareça incômodo. Assim, consta que foi destinada uma verba a um vereador da gestão anterior para deitar porrada em manifestações de campanha em oposição ao governo. Parece que foi coisa de R$500 para distribuir aos porradeiros arregimentados nas periferias. Pois eis que na posse da nova Câmara, enquanto decorria a cerimônia no plenário, um cidadão fazia protesto contra a falta de decoro na ação do Judiciário, que teria deixado passar um crime eleitoral gritante. O cara estava pacificamente postado à entrada do prédio, ao lado do portão, tendo pendurado no peito um banner com os dizeres: “Socorro! Nosso arraial está sem lei eleitoral!”, coisa assim. Ele não gritava nem abordava ninguém, apenas se deixava ficar expondo aqueles dizeres e tinha um chapéu ao pé da árvore com os dizeres “Para ir À Brasília”, e a turma deixava moedas lá, simbolicamente. Fora a crase imprópria, típica desse arraial, tudo estava leve e pacífico. Até que, inesperadamente, chegam dois macacos sem rabo numa moto, e um dos monstrinhos parte pra cima do manifestante com um canivete, e lá vem pancadaria, e o manifestante se defende dando porrada com o próprio pau que estica o banner, e tome corre-corre, e um jornalista que estava perto fotografou o agressor e o outro bugre, que ficara esperando na moto. Enter.
Barbárie seria um termo para definir a política atualmente em voga no arraial. A quem interessaria descer porrada em quem manifesta publicamente sua posição? Aos responsáveis pelo descalabro que reina solto no arraial? Pode ser; aliás, DEVE ser. Mas ficamos apenas na suposição, por não haver provas. De qualquer forma, manifestações públicas de posição política não são do feitio da mineirada, que trabalha em silêncio, na encolha, na malandragem, quando não na tocaia e na traição. Para os mineiros, existe o posicionamento expresso pelo ditado “Quem fala além da conta acaba dando bom dia a cavalo”. Mas isso não corresponde ao estilo político usual nas Minas: a coisa aqui é outra, é falar pouco e agir na encolha. Quanto a falar, o importante é sempre falar com segundas e terceiras intenções, nada disso de ser claro, direto, aberto e honesto, coisa mais pra carioca e baiano, ambos influenciados por portugueses. Então, pra mineiro até bom dia dá jogo político. E a coisa da mão mole no cumprimento é típica do espírito pouco sincero evidenciado no dia-a-dia. O mais interessante é que eles se orgulham de tudo isso, basta ver aquele texto “Ser mineiro”. Procure na internet. Enter.
Pois se na posse dos novos vereadores teve o evento paralelo da porrada no manifestante, na pracita perto da casa de Manoel a merda anda a mil. Agora é festa todo dia, porque a macacada ainda está de férias, e a descoberta de um espaço novo para descarregar burrice virou atração e coqueluche. É só propor uma porcaria sem valor como atividade e todos acorrem, especialmente se for algo fora da lei. Pois dias atrás reuniu-se uma imensa turma para desfrutar do lazer na pracita ilegal, teve desde criançada gritando e correndo enlouquecida até velhos pafúncios ridículos jogando bola, enquanto suas marocas e peruas fofocavam ou trocavam falas estúpidas fazendo pose de dondocas nos bancos. Manoel, que já sente náuseas dessas reuniões quando são pouco numerosas, quase vomitou de asco dessa multitudinária ralé entupida de rede globo até a medula. Seguramente encerraram a reunião para encher o bucho de comida, sentar o bufante na poltrona e assistir à sessão cavalar de merda global, começando pelo noticiário das oito e terminando no BBB. Saciados de bosta até o topo da faringe, desabam estupidamente no catre, e uma queca ocasional pode até saciar a bestialidade dos tipos, descarregando fisiologia. Pois Manoel “queimou no gorpe”, como dizem os arraialeiros, e pensa em inverter essa escatologia. Enter final.
Por exemplo: distribuir na cidade uma volante (ou um flyer?) convocando os arraialeiros para se reunir na pracita, onde se pode jogar futebol, gritar o mais possível, trepar na grama, fazer piquenique, descarregar estupidez. E, como falou uma “chita”, a praça é “púbrica”, mas é também iniciativa de particulares, então Manoel pensa em afixar em uma árvore uma “praça” com os dizeres: “Espaço de lazer púbrico-privada”. E que venham todos descarregar sua irracionalidade lúdica na pracita, que foi transformada em cenário de exibição da bestialidade. Fica mais uma vez demonstrado que no Brasil a corrupção é bem vinda e festejada. É o caso de pensar em voltar para Lisboa... onde ainda existe algum decoro. E viva Santo Expedito! Oremos. Bye, babes!
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
“A loucura é a lei!, ó Deus!”
Frederico Mendonça de Oliveira
Já assombrado com o que passou a verificar de loucuras nesta Pindorama abilolada, Manoel passou a ter idéia fixa sobre o que fazer da vida. Cogita em continuar no arraialito de montanheses irracionais, considera a possibilidade de se mudar para outro arraial embora correndo o risco de encontrar a mesma realidade ou algo pior ainda; pensa em se mudar de volta para Portugal, deixando o Brasil como um hospício que ficou apenas pendurado nas paredes de sua memória. Veio-lhe à cachimônia “Confidência de itabirano”, de Drummond: “Itabira hoje é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói!”, e Manoel pensou na bugraiada que hoje entregou a vida à TV e simplesmente ignora tudo relativo a cultura, seja poesia, seja música, seja cinema, seja pintura... Carlos Drummond, poeta que ele simplesmente leu, releu e tresleu, não é hoje apenas uma fotografia nas paredes da vida dos brasileiros: é, isto sim, alguém tão desconhecido como alguém que não tivesse jamais existido. É isso a “cultura” no Brasil de hoje: um chiqueiro onde refocilam criaturas abissais emitindo guais lancinantes e sem sentido senão como emissão de sonoridades deletérias para que multidões de milhares de imbecis chafurdem gritando como que tomadas de um delírio inexplicável, O DELÍRIO DO NADA VEZES NADA!!! Enter.
Pois vai Manoel pensando nas cenas da vida atual no arraialito de bonecos (mal) vestidos (não pela pobreza, mas pelo mau gosto), constata o completo descompromisso dessa ralé de classe média com valores e instituições, e quando dá por si já está ele abrindo o congelador de sua velha mas eficiente Cônsul, pela qual já passaram milhares de litros (só por esta já terão passado 15.330 litros) de cerveja, por baixo. E como já são 20h15, e o sol já se tenha posto mesmo sendo horário de verão, essa invenção de brasileiros loucos da ditadura, aliás daquele Aureliano Chaves, lá vem a primeira cerveja, e Manoel lembra um filme babaca visto há quase 30 anos em que uma personagem, indagada sobre se tomaria um trago numa hora difícil lá, responde:”Nunca antes que o sol se ponha!”. O filme titica valeu pela frase. E tilinta a registradora da AMBEV, que Manoel considera um cartel infernal, porque impede entrada de outras marcas que não as dela nas distribuidoras do arraial. Desce a lata inteira, geladézima, garganta abaixo, e Manoel emite um imenso e estremecedor arroto, que deve deixar os vizinhos, especialmente a produzidíssima esposa, dizendo: “Nojento!... Que nojento esse português!...”. Pois chegam o filho dele e amigos, e a conversa vai para a profundidade política e filosófica, terreno ali cultivado, e Manoel relata a destruição total das instituições através de uma cena que vivera na rua neste mesmo dia já anoitecido. A turma, bebendo e já degustando camarões, ouve. Enter.
“Estava eu a caminhar pelas ruas e constatei que a maioria das lojas hoje têm caixa de som à porta expelindo som miserável, essas nulidades luxuosas de hoje, essas Sangalos e que tais. Dobrei a oeste, lá estava outra loja com caixa de som à porta, esta com uma dupla de maratimbas em desconcerto gravado ao vivo, e ouviam-se sons de “macacas” respondendo ao que os bugres diziam e cantavam. Atravessei, mesmo continuando a ouvir aquilo, e vi que vinham na mesma calçada duas bugras adolescentes parecendo duas fêmeas de chimpanzé, e faziam uma ‘coreografia’ já conhecida para o som que vinha da maldita caixa. Ficaram com aspecto mais animalesco ainda, pareciam dois onagros de fisionomia deformada por uma alegria estúpida. Os caras falavam de bater mão, o auditório batia mão e falava igual; falavam de bater pé, todos respondiam o mesmo. “Puta merda, estão todos de deixando transformar em macacos ou cachorros de circo!”, horrorizou-se Manoel. “Será que estão todos nascendo sem cérebro??”. A rapaziada se agitou lembrando coisas semelhantes que vivem no estudo e no trabalho, e tome cervejas e camarões, que todos ali são filhos legítimos de Deus... Enter.
Nisso chega Maria Garcia, o amor de Manoel, toda feliz e sorridente com um radinho GE 1965 – já transistorizado – só de ondas médias e curtas, que Manoel achara numa lojita de conserto de eletrossonoros. E todos passaram ali a curtir programas de capitais, programas com excelente teor musical, com excelentes locutores, e eis rolando naquela copa-cozinha de grandes curtições uma sessão especial de cultura e crítica musical, coisa obrigatória naquela casa. Manoel cogita sobre o que “sentirão” os vizinhos se aqueles sons chegarem até eles. Será que “sentem” alguma coisa ainda, anestesiados e burrificados que estão de TV diária há décadas, bundas pregadas no sofá e olhos nas novelas e no futebol? E que dizer de se não abrirem mais livros em lugar nenhum desse bairro, desse arraial, desse estado, desse desgraçado país? Pois que os vizinhos adorem ou estranhem, problema deles. O que não pode acontecer é a burrice adentrar e ser admitida na casa deste lusitano das arábias! Enter final.
A noite já vai alta, a lua também, altíssima. De longe vêm os ruídos da “cidade”, motos de entregadores, carros de malucos fazendo cagadas ao volante, cães às centenas latindo em desespero por serem seus donos, insensíveis e ignaros, seres transformados em réplicas de seres, gente que não vê no cão senão um bicho que late pra amedrontar possíveis ladrões. Manoel pensa na imbecilidade difundida pelo arraial, compreende ser esse um problema da Humanidade, pensa nos estúpidos seres que compõem a vizinhança, seres agarrados ao desejo de possuir, seres hipócritas por opção, cínicos por necessidade de ocultar de imediato sua deformidade, seres que não arrotam sonoramente mas arrotam sem ruído terem dois carros, e que se escondem, entre vidros fumê de carros todos negros, da ralé passante que eles desprezam por preconceito de classe média. “Classe MÉRDIA é o que são! Não percebem que estão num cárcere, e que, como disse Huxley, “sentam-se na poltrona para apodrecer vivos mas confortavelmente”. “Que se forniquem, que se rocem nas paredes, que se esfreguem entre si, alimárias que são!”. E viva Santo Expedito! Oremos. ’Té mais, babes!
Já assombrado com o que passou a verificar de loucuras nesta Pindorama abilolada, Manoel passou a ter idéia fixa sobre o que fazer da vida. Cogita em continuar no arraialito de montanheses irracionais, considera a possibilidade de se mudar para outro arraial embora correndo o risco de encontrar a mesma realidade ou algo pior ainda; pensa em se mudar de volta para Portugal, deixando o Brasil como um hospício que ficou apenas pendurado nas paredes de sua memória. Veio-lhe à cachimônia “Confidência de itabirano”, de Drummond: “Itabira hoje é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói!”, e Manoel pensou na bugraiada que hoje entregou a vida à TV e simplesmente ignora tudo relativo a cultura, seja poesia, seja música, seja cinema, seja pintura... Carlos Drummond, poeta que ele simplesmente leu, releu e tresleu, não é hoje apenas uma fotografia nas paredes da vida dos brasileiros: é, isto sim, alguém tão desconhecido como alguém que não tivesse jamais existido. É isso a “cultura” no Brasil de hoje: um chiqueiro onde refocilam criaturas abissais emitindo guais lancinantes e sem sentido senão como emissão de sonoridades deletérias para que multidões de milhares de imbecis chafurdem gritando como que tomadas de um delírio inexplicável, O DELÍRIO DO NADA VEZES NADA!!! Enter.
Pois vai Manoel pensando nas cenas da vida atual no arraialito de bonecos (mal) vestidos (não pela pobreza, mas pelo mau gosto), constata o completo descompromisso dessa ralé de classe média com valores e instituições, e quando dá por si já está ele abrindo o congelador de sua velha mas eficiente Cônsul, pela qual já passaram milhares de litros (só por esta já terão passado 15.330 litros) de cerveja, por baixo. E como já são 20h15, e o sol já se tenha posto mesmo sendo horário de verão, essa invenção de brasileiros loucos da ditadura, aliás daquele Aureliano Chaves, lá vem a primeira cerveja, e Manoel lembra um filme babaca visto há quase 30 anos em que uma personagem, indagada sobre se tomaria um trago numa hora difícil lá, responde:”Nunca antes que o sol se ponha!”. O filme titica valeu pela frase. E tilinta a registradora da AMBEV, que Manoel considera um cartel infernal, porque impede entrada de outras marcas que não as dela nas distribuidoras do arraial. Desce a lata inteira, geladézima, garganta abaixo, e Manoel emite um imenso e estremecedor arroto, que deve deixar os vizinhos, especialmente a produzidíssima esposa, dizendo: “Nojento!... Que nojento esse português!...”. Pois chegam o filho dele e amigos, e a conversa vai para a profundidade política e filosófica, terreno ali cultivado, e Manoel relata a destruição total das instituições através de uma cena que vivera na rua neste mesmo dia já anoitecido. A turma, bebendo e já degustando camarões, ouve. Enter.
“Estava eu a caminhar pelas ruas e constatei que a maioria das lojas hoje têm caixa de som à porta expelindo som miserável, essas nulidades luxuosas de hoje, essas Sangalos e que tais. Dobrei a oeste, lá estava outra loja com caixa de som à porta, esta com uma dupla de maratimbas em desconcerto gravado ao vivo, e ouviam-se sons de “macacas” respondendo ao que os bugres diziam e cantavam. Atravessei, mesmo continuando a ouvir aquilo, e vi que vinham na mesma calçada duas bugras adolescentes parecendo duas fêmeas de chimpanzé, e faziam uma ‘coreografia’ já conhecida para o som que vinha da maldita caixa. Ficaram com aspecto mais animalesco ainda, pareciam dois onagros de fisionomia deformada por uma alegria estúpida. Os caras falavam de bater mão, o auditório batia mão e falava igual; falavam de bater pé, todos respondiam o mesmo. “Puta merda, estão todos de deixando transformar em macacos ou cachorros de circo!”, horrorizou-se Manoel. “Será que estão todos nascendo sem cérebro??”. A rapaziada se agitou lembrando coisas semelhantes que vivem no estudo e no trabalho, e tome cervejas e camarões, que todos ali são filhos legítimos de Deus... Enter.
Nisso chega Maria Garcia, o amor de Manoel, toda feliz e sorridente com um radinho GE 1965 – já transistorizado – só de ondas médias e curtas, que Manoel achara numa lojita de conserto de eletrossonoros. E todos passaram ali a curtir programas de capitais, programas com excelente teor musical, com excelentes locutores, e eis rolando naquela copa-cozinha de grandes curtições uma sessão especial de cultura e crítica musical, coisa obrigatória naquela casa. Manoel cogita sobre o que “sentirão” os vizinhos se aqueles sons chegarem até eles. Será que “sentem” alguma coisa ainda, anestesiados e burrificados que estão de TV diária há décadas, bundas pregadas no sofá e olhos nas novelas e no futebol? E que dizer de se não abrirem mais livros em lugar nenhum desse bairro, desse arraial, desse estado, desse desgraçado país? Pois que os vizinhos adorem ou estranhem, problema deles. O que não pode acontecer é a burrice adentrar e ser admitida na casa deste lusitano das arábias! Enter final.
A noite já vai alta, a lua também, altíssima. De longe vêm os ruídos da “cidade”, motos de entregadores, carros de malucos fazendo cagadas ao volante, cães às centenas latindo em desespero por serem seus donos, insensíveis e ignaros, seres transformados em réplicas de seres, gente que não vê no cão senão um bicho que late pra amedrontar possíveis ladrões. Manoel pensa na imbecilidade difundida pelo arraial, compreende ser esse um problema da Humanidade, pensa nos estúpidos seres que compõem a vizinhança, seres agarrados ao desejo de possuir, seres hipócritas por opção, cínicos por necessidade de ocultar de imediato sua deformidade, seres que não arrotam sonoramente mas arrotam sem ruído terem dois carros, e que se escondem, entre vidros fumê de carros todos negros, da ralé passante que eles desprezam por preconceito de classe média. “Classe MÉRDIA é o que são! Não percebem que estão num cárcere, e que, como disse Huxley, “sentam-se na poltrona para apodrecer vivos mas confortavelmente”. “Que se forniquem, que se rocem nas paredes, que se esfreguem entre si, alimárias que são!”. E viva Santo Expedito! Oremos. ’Té mais, babes!
sábado, 10 de janeiro de 2009
Manoel perde o rumo nas Alterosas
Frederico Mendonça de Oliveira
Ê, Manoel danado! Depois de verificar tanta maluquice no Brasil, não sabe se volta pra Portugal ou se acha uma ilha no meio do Atlântico onde se isole desse mundo maluco! Mas a pracita continua lá, com putinhos irritantes que as mães mandam gritar e fazer barulho pra irritar o morador legalista, o que está até censurado pela Justiça pra não poder denunciar a “otoridade” do arraial que realizou a obra ilícita. Bom, a pracita tem seus dias contados, vai tudo voltar ao que era antes, mas o morador sacaneado pelos maratimbas sem cérebro anda sacaneando também: mete som alto, daqueles bem malucos – música contemporânea, aquelas sonoridades feias, gritantes, com estrondos, ruídos esquisitos – e sem melodia, harmonia e nem ritmo, e a caipirada sem miolos debanda geral. Enter.
E dizem que português é burro... pois chega um poderoso chefão que nem do arraial é, dá a ordem pro prefeito e pra Câmara pra fazer obra ilegal e tudo é feito sem nenhum senão! Que burrada! A Justiça é cega, surda e muda, mas um dia a casa cai, e o prefeito vai ter de responder por que fez a obra ilegal, e não é possível que ele ignorasse que incorria em crime de responsabilidade e improbidade administrativa, sem contar que ele e a outra “otoridade” também incorriam em crime de prevaricação! Se um cara de peito parte pra denunciar e pra acionar os canais da legalidade contra essa canalhice, o prefeito, pelo menos, cai da cavalgadura!... Ê brasileirada burra! E além dos malucos que fizeram a obra ilegal ainda tem o monte de bestas ignaras e/ou safadas que dão apoio à irregularidade, violando com isso as leis que protegem a eles mesmos! São os portugueses os burros? Hem?? Ou os brasileiros gostam de cagar na própria sorte? Enter.
Oito da noite, horário nobre, quando a brasileirada estúpida senta o bundão no sofá e liga a TV pra mais uma sessão de entrega da alma ao diabo.Diante dessa estupidez coletiva, a cachorrada, que os brasileiros querem ter pra cagar no quintal e latir estupidamente – parece que assim seus donos se dão conta de que estão vivos, mesmo estando apenas vegetando boçalmente –, entra em cadeia no bairro. São centenas de cães latindo uns para os outros numa comunicação paralela à descomunicação da rede de bestuntos em cadeia com os cornos na telinha da máquina de fazer imbecis. E o bairro entra em estado de inferno, justo como o diabo gosta, e a vida que se fornique, o que importa é ver carinhas de atores naquelas novelas que são as mesmas desde há 40 anos... Enter.
Manoel toma uma gelada à oito, quando gostaria de começar às nove, mas a cachorrada em cadeia não o deixa pensar, então a gelada ajuda. O morador perseguido deve fazer o mesmo, e deve ficar meio maluco ouvindo essa zoeira que é o reflexo da burrice geral, e ele, que é intelectual e pessoa pra lá de sensível, deve, nessa hora de horror sonoro e de manifestação de infelicidade coletiva, incluindo participação especial dos cães desassistidos, meter um fone de ouvido pra não morrer de desespero perante a irracionalidade malsã da macacada do arraial! “Haja fralda limpa!”, dizia minha avó quando via a garotada começando a chorar, e Manoel adapta a frase para sua nova situação: “Haja penico disponível!”, referindo-se a seus ouvidos, que vivem aturando merda o tempo inteiro, seja putinhos gritando, seja adolescentes fazendo altas zoeiras, seja cachorrada latindo loucamente... Enter final.
A coisa vai tão mal que Manoel até desenvolve uma esperança: não é possível que tanta maluquice possa prosseguir! “Algo vai mudar, porra!”, resmunga ele, e tudo se clareia quando se verifica uma reação da legalidade contra o prefeito aloprado, reação que pode valer ao maluquete um empichamento beleza. Quem partiu pra cima do cara já foi autoridade em gestões anteriores, conhece as manhas do poder, e lá veio um processo feio cortar a mesmice de deformidade vivida nestes últimos dois anos. Quem entrou conhece quem é quem, e sabe brigar bonito, atira no alvo certo, não dá bobeira e não engole sapo nem enrolação. “Vem merda na ventoinha!”, exulta Manoel, olhando para o ventilador que em Portugal é isso mesmo, ventoinha, e vai prelibando a hora da demolição da pracita, que vai deixar os aloprados e seus simpatizantes com cara de bunda pro resto da vida! “Brasileiros burros!!”, rosna Manoel, “Mas os inteligentes começaram a se mexer!”. E viva Santo Expedito! Oremos. Bye, babes!
Ê, Manoel danado! Depois de verificar tanta maluquice no Brasil, não sabe se volta pra Portugal ou se acha uma ilha no meio do Atlântico onde se isole desse mundo maluco! Mas a pracita continua lá, com putinhos irritantes que as mães mandam gritar e fazer barulho pra irritar o morador legalista, o que está até censurado pela Justiça pra não poder denunciar a “otoridade” do arraial que realizou a obra ilícita. Bom, a pracita tem seus dias contados, vai tudo voltar ao que era antes, mas o morador sacaneado pelos maratimbas sem cérebro anda sacaneando também: mete som alto, daqueles bem malucos – música contemporânea, aquelas sonoridades feias, gritantes, com estrondos, ruídos esquisitos – e sem melodia, harmonia e nem ritmo, e a caipirada sem miolos debanda geral. Enter.
E dizem que português é burro... pois chega um poderoso chefão que nem do arraial é, dá a ordem pro prefeito e pra Câmara pra fazer obra ilegal e tudo é feito sem nenhum senão! Que burrada! A Justiça é cega, surda e muda, mas um dia a casa cai, e o prefeito vai ter de responder por que fez a obra ilegal, e não é possível que ele ignorasse que incorria em crime de responsabilidade e improbidade administrativa, sem contar que ele e a outra “otoridade” também incorriam em crime de prevaricação! Se um cara de peito parte pra denunciar e pra acionar os canais da legalidade contra essa canalhice, o prefeito, pelo menos, cai da cavalgadura!... Ê brasileirada burra! E além dos malucos que fizeram a obra ilegal ainda tem o monte de bestas ignaras e/ou safadas que dão apoio à irregularidade, violando com isso as leis que protegem a eles mesmos! São os portugueses os burros? Hem?? Ou os brasileiros gostam de cagar na própria sorte? Enter.
Oito da noite, horário nobre, quando a brasileirada estúpida senta o bundão no sofá e liga a TV pra mais uma sessão de entrega da alma ao diabo.Diante dessa estupidez coletiva, a cachorrada, que os brasileiros querem ter pra cagar no quintal e latir estupidamente – parece que assim seus donos se dão conta de que estão vivos, mesmo estando apenas vegetando boçalmente –, entra em cadeia no bairro. São centenas de cães latindo uns para os outros numa comunicação paralela à descomunicação da rede de bestuntos em cadeia com os cornos na telinha da máquina de fazer imbecis. E o bairro entra em estado de inferno, justo como o diabo gosta, e a vida que se fornique, o que importa é ver carinhas de atores naquelas novelas que são as mesmas desde há 40 anos... Enter.
Manoel toma uma gelada à oito, quando gostaria de começar às nove, mas a cachorrada em cadeia não o deixa pensar, então a gelada ajuda. O morador perseguido deve fazer o mesmo, e deve ficar meio maluco ouvindo essa zoeira que é o reflexo da burrice geral, e ele, que é intelectual e pessoa pra lá de sensível, deve, nessa hora de horror sonoro e de manifestação de infelicidade coletiva, incluindo participação especial dos cães desassistidos, meter um fone de ouvido pra não morrer de desespero perante a irracionalidade malsã da macacada do arraial! “Haja fralda limpa!”, dizia minha avó quando via a garotada começando a chorar, e Manoel adapta a frase para sua nova situação: “Haja penico disponível!”, referindo-se a seus ouvidos, que vivem aturando merda o tempo inteiro, seja putinhos gritando, seja adolescentes fazendo altas zoeiras, seja cachorrada latindo loucamente... Enter final.
A coisa vai tão mal que Manoel até desenvolve uma esperança: não é possível que tanta maluquice possa prosseguir! “Algo vai mudar, porra!”, resmunga ele, e tudo se clareia quando se verifica uma reação da legalidade contra o prefeito aloprado, reação que pode valer ao maluquete um empichamento beleza. Quem partiu pra cima do cara já foi autoridade em gestões anteriores, conhece as manhas do poder, e lá veio um processo feio cortar a mesmice de deformidade vivida nestes últimos dois anos. Quem entrou conhece quem é quem, e sabe brigar bonito, atira no alvo certo, não dá bobeira e não engole sapo nem enrolação. “Vem merda na ventoinha!”, exulta Manoel, olhando para o ventilador que em Portugal é isso mesmo, ventoinha, e vai prelibando a hora da demolição da pracita, que vai deixar os aloprados e seus simpatizantes com cara de bunda pro resto da vida! “Brasileiros burros!!”, rosna Manoel, “Mas os inteligentes começaram a se mexer!”. E viva Santo Expedito! Oremos. Bye, babes!
segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
Um lusitano e o Natal no Brasil
Frederico Mendonça de Oliveira
Manoel anda abestalhado, até mesmo atoleimado, também atarantado, parece que a idade lhe pesa estranhamente a partir da tal pracita que o transformou em motivo de gargalhadas – e até de uma bela brochada – quando andou investigando teores urbanísticos em Lisboa para elucidar suas dúvidas no arraialito em que se socou há 24 anos. Então, na azáfama de fim de ano, esse 2008 em que o Brasil naufragou mais ainda no oceano da incerteza e intensificou sua condição de terminalidade como país, eis Manoel perdido na multidão de arraialeiros bovinos, senão ovinos, senão muares, mas, seguramente, asininos. Vamos com Manoel às compras de Natal. Enter.
Preso numa fila de supermercado onde comprara mórteres (víveres são coisas do passado, quando os preços eram de manter a vida das pessoas) e bagulhos para curtição, como cerveja, algumas frutas, avelãs e coisas para a patroa fazer a festinha, eis que Manoel se sente aborrecido com alguma coisa insistente. Preso a suas divagações filosóficas mesmo que em fila de supermercado, ele é acordado de sua viagem por uma criança que grita como um capado ao sentir entrar o punhal em sua axila esquerda. Não se sabe o que levou o desgraçado putinho a tamanha birra. Pois a coisa se agrava quando outro putinho na mesma fila resolve pedir à “queopa” (riu) alguma coisa, mas a dondoca está muito ocupada em fofocar com a congênere desmiolada a seu lado, e o putinho, educado como um peido, insiste, chamando alto e insistente: “Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe!”, e a “queopa” (riu) nem aí. Os ouvidos dos outros, segundo ela, devem ser penicos, e os dela, arrolhados para qualquer coisa que não seja fofoca ou futilidade. Enfim, Manoel consegue sair do inferno, e prossegue seu percurso para comprar presentitos para seus (uns mais; outros, menos ou nada) filhos, amigos e para sua amada. E aí começou outro calvário, digamos... torturante. Enter.
Primeiro, conseguir caminhar pelo centro do arraial, em que os brasileiros se amontoam pelas calçadas deixando, entretanto, as lojas às moscas. Se não estão em condições de consumir, de que adianta ficar como bestas olhando vitrines? Pois ficam, e engarrafam as calçadas como gado catatônico, conversando como bobos sem rumo, e ele se recorda daquele conto maravilhoso de Edgar Alan Poe, “os Crimes da Rua Morgue”, em que, diante do primeiro crime, em que o corpo foi encontrado socado numa lareira chaminé acima com a cabeça para baixo, diante da casa se amontoou uma multidão revelando “curiosidade sem objetivo”. E ele se lembra também dos Rougon Maquart, de Zola, em que a marcha da Humanidade é comparada a gado em vagões de trem indo para o matadouro ignorando o que o espera. Pois Manoel escapole dessa turba ignara e consegue parar em frente a uma lojinha de bagulhitos bestas, coisas como bijuterias, bugigangas, perfumetes, essas coisas. Pois no que pára diante da vitrine para ver se algo pode lhe ajudar a minorar a lista de compras, sai célere de lá de dentro uma criatura – mulher, corpulenta, roupas apertadas revelando pneus, jeito másculo, coisas que ele viu num penetrante relance – e já ensaia o ignóbil e asqueroso “Posso lhe ajudar em alguma coisa?”, com que os desesperados vendedores lojistas neurotizados pela obsessão de empurrar vendas – e vivem tentando pegar os compradores a laço – nos assediam. Manoel foge esbaforido, e só ouve, por sorte, as primeiras sílabas da frase cínica. E vai tentar poder escolher algo em outra merda de loja sem que lhe aporrinhem a paciência com essa mania atual de assédio aos consumidores. Enter.
Pois ele encontra outra loja parecida... e adentra. Ao fazê-lo, toca automaticamente uma buzininha. E eis que ali ele tem de ser atendido, pois deseja um produto especial, uma pilha para seu telefone sem fio. A loja, que ele conhecia como sendo especializada em telefonia, só falta agora ser ao mesmo tempo joalheria, cutelaria, armarinho, bazar, bar, papelaria, café, empório de secos e molhados, quitanda, casa de aves e muito mais ainda. Pois nesta a coisa foi especial: estava a loja às moscas; e ao fundo, numa mesita, uma criatura que falava ao telefone ao telefone prosseguiu, ignorando a presença de nosso herói. Deu um minuto, nada; um minuto e meio, nada. Manoel considerou a deselegância e desistiu. E deixou a criatura pendurada ao telefone. Puta merda esses brasileiros! Em cada dez, nove avançam como piranhas sobre suas possíveis presas; uma, simplesmente, ignora o freguês que manifesta estar ali precisando ser atendido. Segundo Manoel vai constatando, uma coisa que desapareceu de vez da cuca dos brasileiros é sentido para as coisas. Enter.
Pois Manoel conseguiu fazer as compras, e chegou o Natal, encontrando-o exausto. Em torno de sua casa, nesse período de vagares, a macacada estúpida volta e meia se reúne para fazer algazarras imbecis, jogar futebol em área não apropriada, apenas parece que essas bestas precisam ouvir o som gritado de suas próprias vozes, porque nada têm a dizer... mesmo que tendo aprendido a falar um português assemelhado com suas bundas, tenham perdido seus rabos e não possam mais voltar às árvores. Exasperado com tanta boçalidade, Manoel enverga fones de ouvido tocando bom jazz e toma uma gelada pra despistar sua contrariedade diante dessa escrotidão que foi transformarem criminosamente uma área verde em espaço de recreio para desocupados e gente sem cérebro nem compromisso com urbanidade ou... ou... cidadania, sinal de uma civilização hoje perdida no passado. Enter final.
“Pois que se forniquem todos! Que se forniquem os corruptos, os simpatizantes e adeptos da corrupção, os pulhas, e que os pobres diabos que tentam viver nesse inferno de hoje, em que nada mais faz qualquer sentido, e em que o não fazer sentido virou o sentido do vegetar desses espantalhos, de boné ou lá o que seja, que estes recebam a piedade de Deus!, porque nada mais poderá ocorrer a favor deles neste sistema de violência em que nos meteram!”. “Ei, o pá!: esqueci-me de que é Natal! Então... feliz Natal!”. E viva Santo Expedito! Oremos. “E que o diabo carregue os estúpidos!”
Manoel anda abestalhado, até mesmo atoleimado, também atarantado, parece que a idade lhe pesa estranhamente a partir da tal pracita que o transformou em motivo de gargalhadas – e até de uma bela brochada – quando andou investigando teores urbanísticos em Lisboa para elucidar suas dúvidas no arraialito em que se socou há 24 anos. Então, na azáfama de fim de ano, esse 2008 em que o Brasil naufragou mais ainda no oceano da incerteza e intensificou sua condição de terminalidade como país, eis Manoel perdido na multidão de arraialeiros bovinos, senão ovinos, senão muares, mas, seguramente, asininos. Vamos com Manoel às compras de Natal. Enter.
Preso numa fila de supermercado onde comprara mórteres (víveres são coisas do passado, quando os preços eram de manter a vida das pessoas) e bagulhos para curtição, como cerveja, algumas frutas, avelãs e coisas para a patroa fazer a festinha, eis que Manoel se sente aborrecido com alguma coisa insistente. Preso a suas divagações filosóficas mesmo que em fila de supermercado, ele é acordado de sua viagem por uma criança que grita como um capado ao sentir entrar o punhal em sua axila esquerda. Não se sabe o que levou o desgraçado putinho a tamanha birra. Pois a coisa se agrava quando outro putinho na mesma fila resolve pedir à “queopa” (riu) alguma coisa, mas a dondoca está muito ocupada em fofocar com a congênere desmiolada a seu lado, e o putinho, educado como um peido, insiste, chamando alto e insistente: “Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe!”, e a “queopa” (riu) nem aí. Os ouvidos dos outros, segundo ela, devem ser penicos, e os dela, arrolhados para qualquer coisa que não seja fofoca ou futilidade. Enfim, Manoel consegue sair do inferno, e prossegue seu percurso para comprar presentitos para seus (uns mais; outros, menos ou nada) filhos, amigos e para sua amada. E aí começou outro calvário, digamos... torturante. Enter.
Primeiro, conseguir caminhar pelo centro do arraial, em que os brasileiros se amontoam pelas calçadas deixando, entretanto, as lojas às moscas. Se não estão em condições de consumir, de que adianta ficar como bestas olhando vitrines? Pois ficam, e engarrafam as calçadas como gado catatônico, conversando como bobos sem rumo, e ele se recorda daquele conto maravilhoso de Edgar Alan Poe, “os Crimes da Rua Morgue”, em que, diante do primeiro crime, em que o corpo foi encontrado socado numa lareira chaminé acima com a cabeça para baixo, diante da casa se amontoou uma multidão revelando “curiosidade sem objetivo”. E ele se lembra também dos Rougon Maquart, de Zola, em que a marcha da Humanidade é comparada a gado em vagões de trem indo para o matadouro ignorando o que o espera. Pois Manoel escapole dessa turba ignara e consegue parar em frente a uma lojinha de bagulhitos bestas, coisas como bijuterias, bugigangas, perfumetes, essas coisas. Pois no que pára diante da vitrine para ver se algo pode lhe ajudar a minorar a lista de compras, sai célere de lá de dentro uma criatura – mulher, corpulenta, roupas apertadas revelando pneus, jeito másculo, coisas que ele viu num penetrante relance – e já ensaia o ignóbil e asqueroso “Posso lhe ajudar em alguma coisa?”, com que os desesperados vendedores lojistas neurotizados pela obsessão de empurrar vendas – e vivem tentando pegar os compradores a laço – nos assediam. Manoel foge esbaforido, e só ouve, por sorte, as primeiras sílabas da frase cínica. E vai tentar poder escolher algo em outra merda de loja sem que lhe aporrinhem a paciência com essa mania atual de assédio aos consumidores. Enter.
Pois ele encontra outra loja parecida... e adentra. Ao fazê-lo, toca automaticamente uma buzininha. E eis que ali ele tem de ser atendido, pois deseja um produto especial, uma pilha para seu telefone sem fio. A loja, que ele conhecia como sendo especializada em telefonia, só falta agora ser ao mesmo tempo joalheria, cutelaria, armarinho, bazar, bar, papelaria, café, empório de secos e molhados, quitanda, casa de aves e muito mais ainda. Pois nesta a coisa foi especial: estava a loja às moscas; e ao fundo, numa mesita, uma criatura que falava ao telefone ao telefone prosseguiu, ignorando a presença de nosso herói. Deu um minuto, nada; um minuto e meio, nada. Manoel considerou a deselegância e desistiu. E deixou a criatura pendurada ao telefone. Puta merda esses brasileiros! Em cada dez, nove avançam como piranhas sobre suas possíveis presas; uma, simplesmente, ignora o freguês que manifesta estar ali precisando ser atendido. Segundo Manoel vai constatando, uma coisa que desapareceu de vez da cuca dos brasileiros é sentido para as coisas. Enter.
Pois Manoel conseguiu fazer as compras, e chegou o Natal, encontrando-o exausto. Em torno de sua casa, nesse período de vagares, a macacada estúpida volta e meia se reúne para fazer algazarras imbecis, jogar futebol em área não apropriada, apenas parece que essas bestas precisam ouvir o som gritado de suas próprias vozes, porque nada têm a dizer... mesmo que tendo aprendido a falar um português assemelhado com suas bundas, tenham perdido seus rabos e não possam mais voltar às árvores. Exasperado com tanta boçalidade, Manoel enverga fones de ouvido tocando bom jazz e toma uma gelada pra despistar sua contrariedade diante dessa escrotidão que foi transformarem criminosamente uma área verde em espaço de recreio para desocupados e gente sem cérebro nem compromisso com urbanidade ou... ou... cidadania, sinal de uma civilização hoje perdida no passado. Enter final.
“Pois que se forniquem todos! Que se forniquem os corruptos, os simpatizantes e adeptos da corrupção, os pulhas, e que os pobres diabos que tentam viver nesse inferno de hoje, em que nada mais faz qualquer sentido, e em que o não fazer sentido virou o sentido do vegetar desses espantalhos, de boné ou lá o que seja, que estes recebam a piedade de Deus!, porque nada mais poderá ocorrer a favor deles neste sistema de violência em que nos meteram!”. “Ei, o pá!: esqueci-me de que é Natal! Então... feliz Natal!”. E viva Santo Expedito! Oremos. “E que o diabo carregue os estúpidos!”
sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
Fatos contundentes oprimem um lusitano nas Alterosas
Frederico Mendonça de Oliveira
Desengano talvez não seja o termo preciso, mas é por aí. Não se pode minimizar os impactos sucessivos sofridos por Manoel nas montanhas sul-mineiras, e o fato de eles serem seguidos e fortes realmente faz com que levemos a sério este tão duro percurso. Dá-se que nosso herói não é lá muito apaixonado, a esta altura da vida, por putinhos alheios, especialmente porque os cinco rebentos que ele botou neste mundo já vivem suas vidas pra lá, já existe até uma netinha linda, filha do primeirão, que, sem intenção de rima, vive no Japão. Manoel aboletou-se nas montanhas para poder dar vazão a seus talentos, que ele manteve em suspensão para se dedicar por anos a formar a cuca da turma, preocupado com os “valores” da família de sua ex, do que tomou consciência ao longo do viver conjugal que se deteriorou de forma inevitável. Hoje são águas passadas, e os putos viraram adultos, e, incrível, o sacrifício de Manoel não vingou: os filhos foram “moldados” naqueles “valores” – mas Manoel tem a consciência tranqüila de ter batalhado duro, e considera serem águas passadas, e foi em frente, pois atrás vinha gente. Enter.
A tal pracita toma hoje muito do tempo de Manoel: sem que ele quisesse, a bosta virou uma queda de braço. Alguns mineiros cínicos perguntam, com hipocrisia típica, por que ele estaria brigando com os figurões que fizeram a coisa. Manoel, já emputecido, os manda à merda entre dentes, enquanto responde claramente que não é ele que está brigando contra porra nenhuma, o que acontece é que invadiram-lhe a casa. Os interlocutores safados calam, sem argumento, mas a pergunta de canalhas fica no ar, e a fisionomia dos estúpidos mantém a pergunta, como se a resposta de nada valesse como esclarecimento. Picardia de pilantras, jogo de cínicos, a que o sangue lusitano não se adapta NUNCA! E a degenerescência prossegue, com a vizinhança adaptada ao crime como vermes juntinhos na bicheira, aquele asco. O coração de nosso herói é forte, mas mesmo sem sinais de risco Manoel começa a temer o infarto ou o AVC, tanto lhe sobe o sangue à cabeça. O último incidente foi escrotíssimo. Enter.
Nesta fase de águas dezembrinas, as dondocas que se reúnem com seus putinhos na pracita batiam em retirada para casa com crianças, carrinhos e tudo quando cruzaram com Manoel e o morador mais perseguido na história. Eles chegavam do centro, e a chuva ameaçava cair pesado. Viu que o morador observou feliz a saída daqueles seres, as mães e babás por serem consolidadoras do ilícito ao freqüentar religiosamente o espaço em litígio; os putinhos, por serem instrumentos de uma perseguição torpe e de uma adesão a um crime depravado. Pois uma das dondocas, mais saída, provocou o morador, falando para seu putinho: “Pula, pula! Faz barulho! Faz barulho!”. A revolta subiu à cabeça de Manoel quando viu o morador ser insultado assim, mas não pelo insulto em si: pela deformidade da índole daquela mocréia (embora jovem e até, vá lá, bela), que não hesita em usar seu putinho para causar mal estar ao já idoso morador decente, um legalista que acabou sozinho contra os safados que desfrutam do crime. O pobre-diabinho já é instrumento para os instintos deformados daquela alma desnaturada, usado para causar mal estar contra alguém que não faz mal a ninguém, apenas discorda do ilícito de que a maluca faz uso com cinismo e acinte assumidos! A que ponto chega a estupidez malsã dessa “gente”! “Puta que pariu!”, como disse Graciliano Ramos à página 51 do seu Angústia, edição de 1953, que Manoel leu em Coimbra. Indignado, Manoel verificou a consternação batendo no espírito humanista do amigo, que quedava abestalhado. Enter.
“Terei cervejas no congelador??”, pergunta-se Manoel já preocupado com fazer descer pela goela, com a ajuda de uma geladézima, a afronta daquela criatura de caráter tão deformado. “Ah, tem aquelas que sobraram de domingo!, claro!”, e Manoel se despede do meio esverdeado amigo, cuja coloração se deverá à bile que lhe subiu aos miolos depois da afronta fútil e escrota. E, já em sua copa, a cerveja branca de neve salta para a mesa, e eis nosso herói socando goles goela abaixo, para diluir a estupefação que se transformou em pedra em sua garganta. Enter final.
“Posso ajudar em alguma coisa?”, pergunta a sirigaita a Manoel, que passa os olhos pelas prateleiras de uma loja em busca de uma porcaria de que está precisando. “SIM! PODE! VÁ PRO DIABO QUE A CARREGUE! AJUDAR DIABO DE MERDA NENHUMA! ESTOU A OLHAIRE E SEI O QUE QUERO!! MERDA! PORRA!”, pensa Manoel olhado para a pobre coitada. “Os brasileiros endoidaram de vez!”, resmunga consigo. E viva Santo Expedito! Oremos. “Posso ajudaire em alguma coisa?”
Desengano talvez não seja o termo preciso, mas é por aí. Não se pode minimizar os impactos sucessivos sofridos por Manoel nas montanhas sul-mineiras, e o fato de eles serem seguidos e fortes realmente faz com que levemos a sério este tão duro percurso. Dá-se que nosso herói não é lá muito apaixonado, a esta altura da vida, por putinhos alheios, especialmente porque os cinco rebentos que ele botou neste mundo já vivem suas vidas pra lá, já existe até uma netinha linda, filha do primeirão, que, sem intenção de rima, vive no Japão. Manoel aboletou-se nas montanhas para poder dar vazão a seus talentos, que ele manteve em suspensão para se dedicar por anos a formar a cuca da turma, preocupado com os “valores” da família de sua ex, do que tomou consciência ao longo do viver conjugal que se deteriorou de forma inevitável. Hoje são águas passadas, e os putos viraram adultos, e, incrível, o sacrifício de Manoel não vingou: os filhos foram “moldados” naqueles “valores” – mas Manoel tem a consciência tranqüila de ter batalhado duro, e considera serem águas passadas, e foi em frente, pois atrás vinha gente. Enter.
A tal pracita toma hoje muito do tempo de Manoel: sem que ele quisesse, a bosta virou uma queda de braço. Alguns mineiros cínicos perguntam, com hipocrisia típica, por que ele estaria brigando com os figurões que fizeram a coisa. Manoel, já emputecido, os manda à merda entre dentes, enquanto responde claramente que não é ele que está brigando contra porra nenhuma, o que acontece é que invadiram-lhe a casa. Os interlocutores safados calam, sem argumento, mas a pergunta de canalhas fica no ar, e a fisionomia dos estúpidos mantém a pergunta, como se a resposta de nada valesse como esclarecimento. Picardia de pilantras, jogo de cínicos, a que o sangue lusitano não se adapta NUNCA! E a degenerescência prossegue, com a vizinhança adaptada ao crime como vermes juntinhos na bicheira, aquele asco. O coração de nosso herói é forte, mas mesmo sem sinais de risco Manoel começa a temer o infarto ou o AVC, tanto lhe sobe o sangue à cabeça. O último incidente foi escrotíssimo. Enter.
Nesta fase de águas dezembrinas, as dondocas que se reúnem com seus putinhos na pracita batiam em retirada para casa com crianças, carrinhos e tudo quando cruzaram com Manoel e o morador mais perseguido na história. Eles chegavam do centro, e a chuva ameaçava cair pesado. Viu que o morador observou feliz a saída daqueles seres, as mães e babás por serem consolidadoras do ilícito ao freqüentar religiosamente o espaço em litígio; os putinhos, por serem instrumentos de uma perseguição torpe e de uma adesão a um crime depravado. Pois uma das dondocas, mais saída, provocou o morador, falando para seu putinho: “Pula, pula! Faz barulho! Faz barulho!”. A revolta subiu à cabeça de Manoel quando viu o morador ser insultado assim, mas não pelo insulto em si: pela deformidade da índole daquela mocréia (embora jovem e até, vá lá, bela), que não hesita em usar seu putinho para causar mal estar ao já idoso morador decente, um legalista que acabou sozinho contra os safados que desfrutam do crime. O pobre-diabinho já é instrumento para os instintos deformados daquela alma desnaturada, usado para causar mal estar contra alguém que não faz mal a ninguém, apenas discorda do ilícito de que a maluca faz uso com cinismo e acinte assumidos! A que ponto chega a estupidez malsã dessa “gente”! “Puta que pariu!”, como disse Graciliano Ramos à página 51 do seu Angústia, edição de 1953, que Manoel leu em Coimbra. Indignado, Manoel verificou a consternação batendo no espírito humanista do amigo, que quedava abestalhado. Enter.
“Terei cervejas no congelador??”, pergunta-se Manoel já preocupado com fazer descer pela goela, com a ajuda de uma geladézima, a afronta daquela criatura de caráter tão deformado. “Ah, tem aquelas que sobraram de domingo!, claro!”, e Manoel se despede do meio esverdeado amigo, cuja coloração se deverá à bile que lhe subiu aos miolos depois da afronta fútil e escrota. E, já em sua copa, a cerveja branca de neve salta para a mesa, e eis nosso herói socando goles goela abaixo, para diluir a estupefação que se transformou em pedra em sua garganta. Enter final.
“Posso ajudar em alguma coisa?”, pergunta a sirigaita a Manoel, que passa os olhos pelas prateleiras de uma loja em busca de uma porcaria de que está precisando. “SIM! PODE! VÁ PRO DIABO QUE A CARREGUE! AJUDAR DIABO DE MERDA NENHUMA! ESTOU A OLHAIRE E SEI O QUE QUERO!! MERDA! PORRA!”, pensa Manoel olhado para a pobre coitada. “Os brasileiros endoidaram de vez!”, resmunga consigo. E viva Santo Expedito! Oremos. “Posso ajudaire em alguma coisa?”
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
Desventuras de um lusitano nas montanhas de Minas
Frederico Mendonça de Oliveira
Premido por circunstâncias negativas diversas no arraialito onde se acoitou há 24 anos fugindo das maluquices do Rio, Manoel se decidiu pela radicalização. Consciente do colapso da civilização em todos os sentidos – colapso de significados, de instituições, de condições positivas de vida do homem em harmonia com a Natureza, colapso de sentimentos, de tudo” –, Manoel começa a ver no total desprezo à matéria e ao “convívio social” a única saída para estar vivo neste mundo. A ação dos globalizadores corrompeu as almas dos seres humanos comuns, depois de corromper os Estados através do golpe de misericórdia dos Aliados ao fim da II Guerra, depois vindo Coréia, Vietnam, agora Oriente Médio – Afeganistão e Iraque, sem contar o horror da ação de Israel sobre os palestinos –, e não há qualquer perspectiva de reversão desse quadro. Some-se a isso a ação fatal dos meios de comunicação, câncer que começou com Hollywood operando contra a tradição católica ocidental e se aprofundou quando do advento da TV, que penetrou nos lares para estupidificar os seres e desagregar as famílias praticando acintosa intervenção intradoméstica. Enter.
O quadro é devastador, e Manoel ouve a todo momento o cricrilar espantoso dos Gryllus Assimilis, no Brasil chamados simplesmente de grilos, onde quer que esteja, onde quer que vá. Nas ruas, seres transformados em objetos deambulam flatulentos e paquidérmicos entupindo lojas e calçadas, impedindo o simples deslocar-se de seres conscientes, que ocorrem no cenário urbano em proporção de um para cada dez mil bugres vestidos. Ou macacos sem rabo, como quiser, amigo. Se se pega o telefone para ligar para alguém, o maldito intermediário nos submete a um interrogatório normalmente sórdido, não permitindo a ele escapar de uma sabatina safada tanto quanto absolutamente desnecessária. Entra-se numa loja e lá vem a sirigaita ou o bibazito – e isso ocorre do Oiapoque ao Chuí – arremetendo contra o possível otário para obrigá-lo a desembolsar, perguntando estupidamente: “Posso ajudar em alguma coisa?”, e Manoel por dentro se contorce de desconforto, e grita consigo: “Cínicos! Esses brasileiros não passam de uns cínicos!!!”. Não se pode mais entrar numa porra de loja pra olhar alguma besteira, para ter o prazer de encontrar algo interessante – ou não: muitas vezes entramos numa loja para NÃO COMPRAR, para unicamente ver, com isso buscando apenas uma rápida distração, às vezes para escapar a um congestionamento de bestas palradeiras que obstruem as calçadas. Enter.
Dirigir nas ruas do arraialito, nem pensar. Manoel se desfez de seu Dodge Polara de estimação porque o desgosto de dirigir entre bugres o estava estressando a ponto de perder o sono e tender a beber mais que o natural. Manoel não entende por que, para dobrar uma esquina, os motoristas destas montanhas ficam a 45 graus parados na esquina olhando para um lado e para outro. “NÃO VEM NINGUÉM, PORRA!!, pra que parar dessa maneira, ó pá??? Como é que tu tiraste a carteira, alimária???”. A dificuldade que os arraialeiros de ordinário encontram para conseguir tomar a iniciativa de dobrar uma esquina é semelhante a eles cagarem um velocípede daqueles antigos, de lata – não os rechonchudos velotróis de hoje. O mesmo se dá quando em um cruzamento: se tem placa de Pare, os arraialeiros não param; se não tem, param. O que são os brasileiros? Malucos emburrecidos ou burros amalucados? Lembrando Graciliano Ramos, escritor brasileiro que Manoel leu em Coimbra na juventude – e que os brasileiros de hoje desconhecem!... – na página 51 de Angústia, onde se lê “Que sujeito burro! Puta que o pariu!”, Manoel converte em literatura sua estupefação diante do caos em que se vê metido. Enter.
Certo de que dirigir não dá mais, Manoel se decide por comprar um... burro. Sim: um BURRO. E já sabe o nome que dará ao orelhudo asinino: Excelência. Isto porque o poder no Brasil chegou à dimensão de ter um ser de mentalidade de verdureiro na presidência da República e um bando de quadrupedâncias solertes ocupando toda a esfera de poder – salvo as exceções de praxe, óbvio. “Como pode um país fazer qualquer sentido se conduzido para o abismo por tamanha malta de néscios e velhacos??”, questiona Manoel engasgando com o gole de cerveja. Então, que venha Excelência, uma boa companhia – os arraialeiros e mesmo os locutores de rádio e TV dizem “compania”, os toupeiras –, se considerado o fato de os brasileiros estarem se impondo descer à condição de burros mas conseguindo ser em tudo burros no mau sentido. Pelo menos Excelência não dirá nem fará asneiras, não perguntará se pode ajudar em alguma coisa, não ficará bostejando cretinices no passeio com outros muares obstando o ir e vir de outrem, não dirigirá como um bruaqueiro maratimba, não ficará abestalhado diante da TV assistindo a novelas porcas ou a Sílvio Santos cantando “A pipa do vovô não sobe mais”, canção miserável que o apresentador de merdas fez para um carnaval aí. Enter final.
Então Manoel vai comprar tudo: arreio, baixeiro, freio, cabresto, peitoral, rabicho, e vai alugar um terreno perto de sua casa – tem um quase em frente, cheio de capim – para arranchar Excelência. Melhor ainda: Manoel não terá de pagar IPVA, não gastará combustível, não terá problemas com a manutenção de seu veículo. E andará em alto estilo pelas ruas do arraial, na verdade feitas para quadrúpedes. E pela primeira vez em anos Manoel sente que algo faz sentido em sua vida. A pracita será demolida, mas um burro agora vem a calhar. Excelência lhe fará boa companhia, lhe trará sentido para esta vida entre decadentes assumidos. E viva Santo Expedito! Oremos. Bye, babes!
Premido por circunstâncias negativas diversas no arraialito onde se acoitou há 24 anos fugindo das maluquices do Rio, Manoel se decidiu pela radicalização. Consciente do colapso da civilização em todos os sentidos – colapso de significados, de instituições, de condições positivas de vida do homem em harmonia com a Natureza, colapso de sentimentos, de tudo” –, Manoel começa a ver no total desprezo à matéria e ao “convívio social” a única saída para estar vivo neste mundo. A ação dos globalizadores corrompeu as almas dos seres humanos comuns, depois de corromper os Estados através do golpe de misericórdia dos Aliados ao fim da II Guerra, depois vindo Coréia, Vietnam, agora Oriente Médio – Afeganistão e Iraque, sem contar o horror da ação de Israel sobre os palestinos –, e não há qualquer perspectiva de reversão desse quadro. Some-se a isso a ação fatal dos meios de comunicação, câncer que começou com Hollywood operando contra a tradição católica ocidental e se aprofundou quando do advento da TV, que penetrou nos lares para estupidificar os seres e desagregar as famílias praticando acintosa intervenção intradoméstica. Enter.
O quadro é devastador, e Manoel ouve a todo momento o cricrilar espantoso dos Gryllus Assimilis, no Brasil chamados simplesmente de grilos, onde quer que esteja, onde quer que vá. Nas ruas, seres transformados em objetos deambulam flatulentos e paquidérmicos entupindo lojas e calçadas, impedindo o simples deslocar-se de seres conscientes, que ocorrem no cenário urbano em proporção de um para cada dez mil bugres vestidos. Ou macacos sem rabo, como quiser, amigo. Se se pega o telefone para ligar para alguém, o maldito intermediário nos submete a um interrogatório normalmente sórdido, não permitindo a ele escapar de uma sabatina safada tanto quanto absolutamente desnecessária. Entra-se numa loja e lá vem a sirigaita ou o bibazito – e isso ocorre do Oiapoque ao Chuí – arremetendo contra o possível otário para obrigá-lo a desembolsar, perguntando estupidamente: “Posso ajudar em alguma coisa?”, e Manoel por dentro se contorce de desconforto, e grita consigo: “Cínicos! Esses brasileiros não passam de uns cínicos!!!”. Não se pode mais entrar numa porra de loja pra olhar alguma besteira, para ter o prazer de encontrar algo interessante – ou não: muitas vezes entramos numa loja para NÃO COMPRAR, para unicamente ver, com isso buscando apenas uma rápida distração, às vezes para escapar a um congestionamento de bestas palradeiras que obstruem as calçadas. Enter.
Dirigir nas ruas do arraialito, nem pensar. Manoel se desfez de seu Dodge Polara de estimação porque o desgosto de dirigir entre bugres o estava estressando a ponto de perder o sono e tender a beber mais que o natural. Manoel não entende por que, para dobrar uma esquina, os motoristas destas montanhas ficam a 45 graus parados na esquina olhando para um lado e para outro. “NÃO VEM NINGUÉM, PORRA!!, pra que parar dessa maneira, ó pá??? Como é que tu tiraste a carteira, alimária???”. A dificuldade que os arraialeiros de ordinário encontram para conseguir tomar a iniciativa de dobrar uma esquina é semelhante a eles cagarem um velocípede daqueles antigos, de lata – não os rechonchudos velotróis de hoje. O mesmo se dá quando em um cruzamento: se tem placa de Pare, os arraialeiros não param; se não tem, param. O que são os brasileiros? Malucos emburrecidos ou burros amalucados? Lembrando Graciliano Ramos, escritor brasileiro que Manoel leu em Coimbra na juventude – e que os brasileiros de hoje desconhecem!... – na página 51 de Angústia, onde se lê “Que sujeito burro! Puta que o pariu!”, Manoel converte em literatura sua estupefação diante do caos em que se vê metido. Enter.
Certo de que dirigir não dá mais, Manoel se decide por comprar um... burro. Sim: um BURRO. E já sabe o nome que dará ao orelhudo asinino: Excelência. Isto porque o poder no Brasil chegou à dimensão de ter um ser de mentalidade de verdureiro na presidência da República e um bando de quadrupedâncias solertes ocupando toda a esfera de poder – salvo as exceções de praxe, óbvio. “Como pode um país fazer qualquer sentido se conduzido para o abismo por tamanha malta de néscios e velhacos??”, questiona Manoel engasgando com o gole de cerveja. Então, que venha Excelência, uma boa companhia – os arraialeiros e mesmo os locutores de rádio e TV dizem “compania”, os toupeiras –, se considerado o fato de os brasileiros estarem se impondo descer à condição de burros mas conseguindo ser em tudo burros no mau sentido. Pelo menos Excelência não dirá nem fará asneiras, não perguntará se pode ajudar em alguma coisa, não ficará bostejando cretinices no passeio com outros muares obstando o ir e vir de outrem, não dirigirá como um bruaqueiro maratimba, não ficará abestalhado diante da TV assistindo a novelas porcas ou a Sílvio Santos cantando “A pipa do vovô não sobe mais”, canção miserável que o apresentador de merdas fez para um carnaval aí. Enter final.
Então Manoel vai comprar tudo: arreio, baixeiro, freio, cabresto, peitoral, rabicho, e vai alugar um terreno perto de sua casa – tem um quase em frente, cheio de capim – para arranchar Excelência. Melhor ainda: Manoel não terá de pagar IPVA, não gastará combustível, não terá problemas com a manutenção de seu veículo. E andará em alto estilo pelas ruas do arraial, na verdade feitas para quadrúpedes. E pela primeira vez em anos Manoel sente que algo faz sentido em sua vida. A pracita será demolida, mas um burro agora vem a calhar. Excelência lhe fará boa companhia, lhe trará sentido para esta vida entre decadentes assumidos. E viva Santo Expedito! Oremos. Bye, babes!
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
Agruras e queixumes de um lusitano nas montanhas de Minas
Frederico Mendonça de Oliveira
"Ora ora!, pois pois!, que os diabos me levem se estou a perder a noção de mim mesmo, ó pá!", vive resmungando Manoel, nosso herói, pelos cantos ou andando pelas ruas abarrotadas de macacos sem rabo andando sem rumo – já que o rumo das árvores para onde essa choldra tende a voltar está perdido, seria perigoso reabitá-las sem apêndice caudal. Manoel contempla os brasileiros vendo-os degenerar não abestalhados ou pasmos, mas tomados de um tipo inconcebível de delícia mórbida... mas desde a criação daquela maldita pracita que Manoel vai considerando que os brasileiros andam a perder sua própria idéia de vida, de tudo. Basta ver os parlamentares e governantes que elegem, vide o maluquete que ocupa a presidência... Enter.
"Gostas de merda, ó pá? Pois estou a chafurdar nela, e não vejo como voltar a Portugal por agora, mas a burrice neste país faz dele um hospício dos mais loucos que possa conceber a imaginação mais delirante!", comenta Manoel como se falasse a amigos, mas ruminando consigo mesmo, vendo as aberrações mais absurdas ocorrendo à solta. Conversando com uma finíssima pessoa sobre a pracita, soube que uma outra pessoa influente nos meios universitários da cidade criticou um morador que vem sendo massacrado por resistir, em nome da lei (!!!), à aberração urbanística. Esta criatura influente dizia a seus alunos que "o morador é meio maluco (por exigir cumprir-se a lei??) e que a pracita é uma belezita, que ficou tão agradável a vista dela tão bem tratadinha"... "Sim, sim", replicou um aluno depois da aula, "mas é ilegal e tremendamente prejudicial ao bairro, à cidade e às instituições, especialmente porque rasga a lei federal que protege o espaço e o faz intocável e porque mija na Lei Orgânica do Município". A tal figura influente desconversou, como convém aos cínicos... Enter.
"Não entendo como os brasileiros podem gostar de se comportar como mulas!", desabafa Manoel em relação a essa figura influente que ou está a desandar a cabeça de seus alunos para agradar a corruptos poderosos ou trata-se ela mesma de um exemplar asinino vestido de belos panos. Ele, que estudou em Coimbra como o poeta baiano Gregório de Matos, não pode esquecer o que este disse sobre o Brasil degenerado já em tempos idos do século XVII: "Adeus, praia; adeus, cidade,/ e agora me deverás,/
velhaca, dar eu a Deus/ a quem devo ao demo dar", recita meio que rugindo nosso herói de fígado amargurado, e a tal ponto que nem uma cerveja brasileira, que dizem ser "paixão nacional" pode aplacar. Condoído por ver o retrocesso social galopante e maligno em que está inserido até dele poder se desvencilhar, Manoel começa a roer a alma. E prossegue lembrando os versos de Gregório de Matos, um dos poucos homens nesta terra que viu e denunciou a merda que o cercava. Lembrou-se do poeta definindo sua cidade, Salvador: o mote é "De dois ff se compõe/ esta cidade a meu ver/ um, furtar; outro, foder"; a glosa é: "Provo a conjetura já/ prontamente como um brinco:/ Bahia tem letras cinco/ que são BAHIA,/ logo ninguém me dirá/ que dois ff chega a ter/ pois nenhum contém sequer,/ salvo se em boa verdade/ são os ff da cidade/ um furtar, outro, foder". E Manoel suspira ao considerar que um autor como este, cuja obra encarta também uma linda parte religiosa em que seus sonetos ao Cristo até hoje comovem com raro impacto, sequer é lembrado no Brasil senão em salas de aula de Literatura, mas que os que o tomam o fazem por obrigação ou interesse material, e logo está de novo esquecido. Que dizer da turba ignara, em que se inserem até mesmo professores e dentistas!... A estes, Manoel, amargando seu exílio, seja local seja em ultramar, declama com fúria o mesmo Gregório de Matos que ele tanto admira: "Adeus, prolixas escolas/ com lentes, bedéis, secretários/ que tudo somado é NADA!". Enter.
E assim se vai preparando Manoel para cruzar de novo – “e sem volta!!”, exclama ele com seus botões – o Atlântico, oceano que os arraialeiros aqui, como ele passou a vê-los, chamam de “Atrântico’, e que mal sabem o que significa, senão que é longe e grande. Como não sabem, os arraialeiros, o porquê de um feriado que parou o país – embora já esteja parado desde 1964 –, mas que os fez trabalhar mesmo assim, e putos da vida, mas obedecendo, para não ficar sem o feijão na barriga depois peidante. O feriado era 15 de Novembro, proclamação da República, que os arraialeiros ignoram, mas que, obrigados a palrar esse nome, dizem: “Pocramação da Repúbrica”. Enter final.
E o coração de Manoel se aperta quando lembra o também poeta Carlos Drummond de Andrade, que verseja sobre o si mesmo desolado pela perda das perspectivas neste Brasil desonrado e desgraçado, da mesma forma que Manoel agora sofre: “Quer voltar pra Minas/ Minas não há mais”. Sofre Manoel pelo sofrimento de Carlos Drummond, que se pergunta “E agora, José?” da mesma forma que Manoel se indaga de si. O oceano azul profundo o salvará? E viva Santo Expedito! Oremos. ’Té pra semana, babes!
"Ora ora!, pois pois!, que os diabos me levem se estou a perder a noção de mim mesmo, ó pá!", vive resmungando Manoel, nosso herói, pelos cantos ou andando pelas ruas abarrotadas de macacos sem rabo andando sem rumo – já que o rumo das árvores para onde essa choldra tende a voltar está perdido, seria perigoso reabitá-las sem apêndice caudal. Manoel contempla os brasileiros vendo-os degenerar não abestalhados ou pasmos, mas tomados de um tipo inconcebível de delícia mórbida... mas desde a criação daquela maldita pracita que Manoel vai considerando que os brasileiros andam a perder sua própria idéia de vida, de tudo. Basta ver os parlamentares e governantes que elegem, vide o maluquete que ocupa a presidência... Enter.
"Gostas de merda, ó pá? Pois estou a chafurdar nela, e não vejo como voltar a Portugal por agora, mas a burrice neste país faz dele um hospício dos mais loucos que possa conceber a imaginação mais delirante!", comenta Manoel como se falasse a amigos, mas ruminando consigo mesmo, vendo as aberrações mais absurdas ocorrendo à solta. Conversando com uma finíssima pessoa sobre a pracita, soube que uma outra pessoa influente nos meios universitários da cidade criticou um morador que vem sendo massacrado por resistir, em nome da lei (!!!), à aberração urbanística. Esta criatura influente dizia a seus alunos que "o morador é meio maluco (por exigir cumprir-se a lei??) e que a pracita é uma belezita, que ficou tão agradável a vista dela tão bem tratadinha"... "Sim, sim", replicou um aluno depois da aula, "mas é ilegal e tremendamente prejudicial ao bairro, à cidade e às instituições, especialmente porque rasga a lei federal que protege o espaço e o faz intocável e porque mija na Lei Orgânica do Município". A tal figura influente desconversou, como convém aos cínicos... Enter.
"Não entendo como os brasileiros podem gostar de se comportar como mulas!", desabafa Manoel em relação a essa figura influente que ou está a desandar a cabeça de seus alunos para agradar a corruptos poderosos ou trata-se ela mesma de um exemplar asinino vestido de belos panos. Ele, que estudou em Coimbra como o poeta baiano Gregório de Matos, não pode esquecer o que este disse sobre o Brasil degenerado já em tempos idos do século XVII: "Adeus, praia; adeus, cidade,/ e agora me deverás,/
velhaca, dar eu a Deus/ a quem devo ao demo dar", recita meio que rugindo nosso herói de fígado amargurado, e a tal ponto que nem uma cerveja brasileira, que dizem ser "paixão nacional" pode aplacar. Condoído por ver o retrocesso social galopante e maligno em que está inserido até dele poder se desvencilhar, Manoel começa a roer a alma. E prossegue lembrando os versos de Gregório de Matos, um dos poucos homens nesta terra que viu e denunciou a merda que o cercava. Lembrou-se do poeta definindo sua cidade, Salvador: o mote é "De dois ff se compõe/ esta cidade a meu ver/ um, furtar; outro, foder"; a glosa é: "Provo a conjetura já/ prontamente como um brinco:/ Bahia tem letras cinco/ que são BAHIA,/ logo ninguém me dirá/ que dois ff chega a ter/ pois nenhum contém sequer,/ salvo se em boa verdade/ são os ff da cidade/ um furtar, outro, foder". E Manoel suspira ao considerar que um autor como este, cuja obra encarta também uma linda parte religiosa em que seus sonetos ao Cristo até hoje comovem com raro impacto, sequer é lembrado no Brasil senão em salas de aula de Literatura, mas que os que o tomam o fazem por obrigação ou interesse material, e logo está de novo esquecido. Que dizer da turba ignara, em que se inserem até mesmo professores e dentistas!... A estes, Manoel, amargando seu exílio, seja local seja em ultramar, declama com fúria o mesmo Gregório de Matos que ele tanto admira: "Adeus, prolixas escolas/ com lentes, bedéis, secretários/ que tudo somado é NADA!". Enter.
E assim se vai preparando Manoel para cruzar de novo – “e sem volta!!”, exclama ele com seus botões – o Atlântico, oceano que os arraialeiros aqui, como ele passou a vê-los, chamam de “Atrântico’, e que mal sabem o que significa, senão que é longe e grande. Como não sabem, os arraialeiros, o porquê de um feriado que parou o país – embora já esteja parado desde 1964 –, mas que os fez trabalhar mesmo assim, e putos da vida, mas obedecendo, para não ficar sem o feijão na barriga depois peidante. O feriado era 15 de Novembro, proclamação da República, que os arraialeiros ignoram, mas que, obrigados a palrar esse nome, dizem: “Pocramação da Repúbrica”. Enter final.
E o coração de Manoel se aperta quando lembra o também poeta Carlos Drummond de Andrade, que verseja sobre o si mesmo desolado pela perda das perspectivas neste Brasil desonrado e desgraçado, da mesma forma que Manoel agora sofre: “Quer voltar pra Minas/ Minas não há mais”. Sofre Manoel pelo sofrimento de Carlos Drummond, que se pergunta “E agora, José?” da mesma forma que Manoel se indaga de si. O oceano azul profundo o salvará? E viva Santo Expedito! Oremos. ’Té pra semana, babes!
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