Frederico Mendonça de Oliveira
Ê, Manoel danado! Depois de verificar tanta maluquice no Brasil, não sabe se volta pra Portugal ou se acha uma ilha no meio do Atlântico onde se isole desse mundo maluco! Mas a pracita continua lá, com putinhos irritantes que as mães mandam gritar e fazer barulho pra irritar o morador legalista, o que está até censurado pela Justiça pra não poder denunciar a “otoridade” do arraial que realizou a obra ilícita. Bom, a pracita tem seus dias contados, vai tudo voltar ao que era antes, mas o morador sacaneado pelos maratimbas sem cérebro anda sacaneando também: mete som alto, daqueles bem malucos – música contemporânea, aquelas sonoridades feias, gritantes, com estrondos, ruídos esquisitos – e sem melodia, harmonia e nem ritmo, e a caipirada sem miolos debanda geral. Enter.
E dizem que português é burro... pois chega um poderoso chefão que nem do arraial é, dá a ordem pro prefeito e pra Câmara pra fazer obra ilegal e tudo é feito sem nenhum senão! Que burrada! A Justiça é cega, surda e muda, mas um dia a casa cai, e o prefeito vai ter de responder por que fez a obra ilegal, e não é possível que ele ignorasse que incorria em crime de responsabilidade e improbidade administrativa, sem contar que ele e a outra “otoridade” também incorriam em crime de prevaricação! Se um cara de peito parte pra denunciar e pra acionar os canais da legalidade contra essa canalhice, o prefeito, pelo menos, cai da cavalgadura!... Ê brasileirada burra! E além dos malucos que fizeram a obra ilegal ainda tem o monte de bestas ignaras e/ou safadas que dão apoio à irregularidade, violando com isso as leis que protegem a eles mesmos! São os portugueses os burros? Hem?? Ou os brasileiros gostam de cagar na própria sorte? Enter.
Oito da noite, horário nobre, quando a brasileirada estúpida senta o bundão no sofá e liga a TV pra mais uma sessão de entrega da alma ao diabo.Diante dessa estupidez coletiva, a cachorrada, que os brasileiros querem ter pra cagar no quintal e latir estupidamente – parece que assim seus donos se dão conta de que estão vivos, mesmo estando apenas vegetando boçalmente –, entra em cadeia no bairro. São centenas de cães latindo uns para os outros numa comunicação paralela à descomunicação da rede de bestuntos em cadeia com os cornos na telinha da máquina de fazer imbecis. E o bairro entra em estado de inferno, justo como o diabo gosta, e a vida que se fornique, o que importa é ver carinhas de atores naquelas novelas que são as mesmas desde há 40 anos... Enter.
Manoel toma uma gelada à oito, quando gostaria de começar às nove, mas a cachorrada em cadeia não o deixa pensar, então a gelada ajuda. O morador perseguido deve fazer o mesmo, e deve ficar meio maluco ouvindo essa zoeira que é o reflexo da burrice geral, e ele, que é intelectual e pessoa pra lá de sensível, deve, nessa hora de horror sonoro e de manifestação de infelicidade coletiva, incluindo participação especial dos cães desassistidos, meter um fone de ouvido pra não morrer de desespero perante a irracionalidade malsã da macacada do arraial! “Haja fralda limpa!”, dizia minha avó quando via a garotada começando a chorar, e Manoel adapta a frase para sua nova situação: “Haja penico disponível!”, referindo-se a seus ouvidos, que vivem aturando merda o tempo inteiro, seja putinhos gritando, seja adolescentes fazendo altas zoeiras, seja cachorrada latindo loucamente... Enter final.
A coisa vai tão mal que Manoel até desenvolve uma esperança: não é possível que tanta maluquice possa prosseguir! “Algo vai mudar, porra!”, resmunga ele, e tudo se clareia quando se verifica uma reação da legalidade contra o prefeito aloprado, reação que pode valer ao maluquete um empichamento beleza. Quem partiu pra cima do cara já foi autoridade em gestões anteriores, conhece as manhas do poder, e lá veio um processo feio cortar a mesmice de deformidade vivida nestes últimos dois anos. Quem entrou conhece quem é quem, e sabe brigar bonito, atira no alvo certo, não dá bobeira e não engole sapo nem enrolação. “Vem merda na ventoinha!”, exulta Manoel, olhando para o ventilador que em Portugal é isso mesmo, ventoinha, e vai prelibando a hora da demolição da pracita, que vai deixar os aloprados e seus simpatizantes com cara de bunda pro resto da vida! “Brasileiros burros!!”, rosna Manoel, “Mas os inteligentes começaram a se mexer!”. E viva Santo Expedito! Oremos. Bye, babes!
sábado, 10 de janeiro de 2009
segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
Um lusitano e o Natal no Brasil
Frederico Mendonça de Oliveira
Manoel anda abestalhado, até mesmo atoleimado, também atarantado, parece que a idade lhe pesa estranhamente a partir da tal pracita que o transformou em motivo de gargalhadas – e até de uma bela brochada – quando andou investigando teores urbanísticos em Lisboa para elucidar suas dúvidas no arraialito em que se socou há 24 anos. Então, na azáfama de fim de ano, esse 2008 em que o Brasil naufragou mais ainda no oceano da incerteza e intensificou sua condição de terminalidade como país, eis Manoel perdido na multidão de arraialeiros bovinos, senão ovinos, senão muares, mas, seguramente, asininos. Vamos com Manoel às compras de Natal. Enter.
Preso numa fila de supermercado onde comprara mórteres (víveres são coisas do passado, quando os preços eram de manter a vida das pessoas) e bagulhos para curtição, como cerveja, algumas frutas, avelãs e coisas para a patroa fazer a festinha, eis que Manoel se sente aborrecido com alguma coisa insistente. Preso a suas divagações filosóficas mesmo que em fila de supermercado, ele é acordado de sua viagem por uma criança que grita como um capado ao sentir entrar o punhal em sua axila esquerda. Não se sabe o que levou o desgraçado putinho a tamanha birra. Pois a coisa se agrava quando outro putinho na mesma fila resolve pedir à “queopa” (riu) alguma coisa, mas a dondoca está muito ocupada em fofocar com a congênere desmiolada a seu lado, e o putinho, educado como um peido, insiste, chamando alto e insistente: “Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe!”, e a “queopa” (riu) nem aí. Os ouvidos dos outros, segundo ela, devem ser penicos, e os dela, arrolhados para qualquer coisa que não seja fofoca ou futilidade. Enfim, Manoel consegue sair do inferno, e prossegue seu percurso para comprar presentitos para seus (uns mais; outros, menos ou nada) filhos, amigos e para sua amada. E aí começou outro calvário, digamos... torturante. Enter.
Primeiro, conseguir caminhar pelo centro do arraial, em que os brasileiros se amontoam pelas calçadas deixando, entretanto, as lojas às moscas. Se não estão em condições de consumir, de que adianta ficar como bestas olhando vitrines? Pois ficam, e engarrafam as calçadas como gado catatônico, conversando como bobos sem rumo, e ele se recorda daquele conto maravilhoso de Edgar Alan Poe, “os Crimes da Rua Morgue”, em que, diante do primeiro crime, em que o corpo foi encontrado socado numa lareira chaminé acima com a cabeça para baixo, diante da casa se amontoou uma multidão revelando “curiosidade sem objetivo”. E ele se lembra também dos Rougon Maquart, de Zola, em que a marcha da Humanidade é comparada a gado em vagões de trem indo para o matadouro ignorando o que o espera. Pois Manoel escapole dessa turba ignara e consegue parar em frente a uma lojinha de bagulhitos bestas, coisas como bijuterias, bugigangas, perfumetes, essas coisas. Pois no que pára diante da vitrine para ver se algo pode lhe ajudar a minorar a lista de compras, sai célere de lá de dentro uma criatura – mulher, corpulenta, roupas apertadas revelando pneus, jeito másculo, coisas que ele viu num penetrante relance – e já ensaia o ignóbil e asqueroso “Posso lhe ajudar em alguma coisa?”, com que os desesperados vendedores lojistas neurotizados pela obsessão de empurrar vendas – e vivem tentando pegar os compradores a laço – nos assediam. Manoel foge esbaforido, e só ouve, por sorte, as primeiras sílabas da frase cínica. E vai tentar poder escolher algo em outra merda de loja sem que lhe aporrinhem a paciência com essa mania atual de assédio aos consumidores. Enter.
Pois ele encontra outra loja parecida... e adentra. Ao fazê-lo, toca automaticamente uma buzininha. E eis que ali ele tem de ser atendido, pois deseja um produto especial, uma pilha para seu telefone sem fio. A loja, que ele conhecia como sendo especializada em telefonia, só falta agora ser ao mesmo tempo joalheria, cutelaria, armarinho, bazar, bar, papelaria, café, empório de secos e molhados, quitanda, casa de aves e muito mais ainda. Pois nesta a coisa foi especial: estava a loja às moscas; e ao fundo, numa mesita, uma criatura que falava ao telefone ao telefone prosseguiu, ignorando a presença de nosso herói. Deu um minuto, nada; um minuto e meio, nada. Manoel considerou a deselegância e desistiu. E deixou a criatura pendurada ao telefone. Puta merda esses brasileiros! Em cada dez, nove avançam como piranhas sobre suas possíveis presas; uma, simplesmente, ignora o freguês que manifesta estar ali precisando ser atendido. Segundo Manoel vai constatando, uma coisa que desapareceu de vez da cuca dos brasileiros é sentido para as coisas. Enter.
Pois Manoel conseguiu fazer as compras, e chegou o Natal, encontrando-o exausto. Em torno de sua casa, nesse período de vagares, a macacada estúpida volta e meia se reúne para fazer algazarras imbecis, jogar futebol em área não apropriada, apenas parece que essas bestas precisam ouvir o som gritado de suas próprias vozes, porque nada têm a dizer... mesmo que tendo aprendido a falar um português assemelhado com suas bundas, tenham perdido seus rabos e não possam mais voltar às árvores. Exasperado com tanta boçalidade, Manoel enverga fones de ouvido tocando bom jazz e toma uma gelada pra despistar sua contrariedade diante dessa escrotidão que foi transformarem criminosamente uma área verde em espaço de recreio para desocupados e gente sem cérebro nem compromisso com urbanidade ou... ou... cidadania, sinal de uma civilização hoje perdida no passado. Enter final.
“Pois que se forniquem todos! Que se forniquem os corruptos, os simpatizantes e adeptos da corrupção, os pulhas, e que os pobres diabos que tentam viver nesse inferno de hoje, em que nada mais faz qualquer sentido, e em que o não fazer sentido virou o sentido do vegetar desses espantalhos, de boné ou lá o que seja, que estes recebam a piedade de Deus!, porque nada mais poderá ocorrer a favor deles neste sistema de violência em que nos meteram!”. “Ei, o pá!: esqueci-me de que é Natal! Então... feliz Natal!”. E viva Santo Expedito! Oremos. “E que o diabo carregue os estúpidos!”
Manoel anda abestalhado, até mesmo atoleimado, também atarantado, parece que a idade lhe pesa estranhamente a partir da tal pracita que o transformou em motivo de gargalhadas – e até de uma bela brochada – quando andou investigando teores urbanísticos em Lisboa para elucidar suas dúvidas no arraialito em que se socou há 24 anos. Então, na azáfama de fim de ano, esse 2008 em que o Brasil naufragou mais ainda no oceano da incerteza e intensificou sua condição de terminalidade como país, eis Manoel perdido na multidão de arraialeiros bovinos, senão ovinos, senão muares, mas, seguramente, asininos. Vamos com Manoel às compras de Natal. Enter.
Preso numa fila de supermercado onde comprara mórteres (víveres são coisas do passado, quando os preços eram de manter a vida das pessoas) e bagulhos para curtição, como cerveja, algumas frutas, avelãs e coisas para a patroa fazer a festinha, eis que Manoel se sente aborrecido com alguma coisa insistente. Preso a suas divagações filosóficas mesmo que em fila de supermercado, ele é acordado de sua viagem por uma criança que grita como um capado ao sentir entrar o punhal em sua axila esquerda. Não se sabe o que levou o desgraçado putinho a tamanha birra. Pois a coisa se agrava quando outro putinho na mesma fila resolve pedir à “queopa” (riu) alguma coisa, mas a dondoca está muito ocupada em fofocar com a congênere desmiolada a seu lado, e o putinho, educado como um peido, insiste, chamando alto e insistente: “Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe!”, e a “queopa” (riu) nem aí. Os ouvidos dos outros, segundo ela, devem ser penicos, e os dela, arrolhados para qualquer coisa que não seja fofoca ou futilidade. Enfim, Manoel consegue sair do inferno, e prossegue seu percurso para comprar presentitos para seus (uns mais; outros, menos ou nada) filhos, amigos e para sua amada. E aí começou outro calvário, digamos... torturante. Enter.
Primeiro, conseguir caminhar pelo centro do arraial, em que os brasileiros se amontoam pelas calçadas deixando, entretanto, as lojas às moscas. Se não estão em condições de consumir, de que adianta ficar como bestas olhando vitrines? Pois ficam, e engarrafam as calçadas como gado catatônico, conversando como bobos sem rumo, e ele se recorda daquele conto maravilhoso de Edgar Alan Poe, “os Crimes da Rua Morgue”, em que, diante do primeiro crime, em que o corpo foi encontrado socado numa lareira chaminé acima com a cabeça para baixo, diante da casa se amontoou uma multidão revelando “curiosidade sem objetivo”. E ele se lembra também dos Rougon Maquart, de Zola, em que a marcha da Humanidade é comparada a gado em vagões de trem indo para o matadouro ignorando o que o espera. Pois Manoel escapole dessa turba ignara e consegue parar em frente a uma lojinha de bagulhitos bestas, coisas como bijuterias, bugigangas, perfumetes, essas coisas. Pois no que pára diante da vitrine para ver se algo pode lhe ajudar a minorar a lista de compras, sai célere de lá de dentro uma criatura – mulher, corpulenta, roupas apertadas revelando pneus, jeito másculo, coisas que ele viu num penetrante relance – e já ensaia o ignóbil e asqueroso “Posso lhe ajudar em alguma coisa?”, com que os desesperados vendedores lojistas neurotizados pela obsessão de empurrar vendas – e vivem tentando pegar os compradores a laço – nos assediam. Manoel foge esbaforido, e só ouve, por sorte, as primeiras sílabas da frase cínica. E vai tentar poder escolher algo em outra merda de loja sem que lhe aporrinhem a paciência com essa mania atual de assédio aos consumidores. Enter.
Pois ele encontra outra loja parecida... e adentra. Ao fazê-lo, toca automaticamente uma buzininha. E eis que ali ele tem de ser atendido, pois deseja um produto especial, uma pilha para seu telefone sem fio. A loja, que ele conhecia como sendo especializada em telefonia, só falta agora ser ao mesmo tempo joalheria, cutelaria, armarinho, bazar, bar, papelaria, café, empório de secos e molhados, quitanda, casa de aves e muito mais ainda. Pois nesta a coisa foi especial: estava a loja às moscas; e ao fundo, numa mesita, uma criatura que falava ao telefone ao telefone prosseguiu, ignorando a presença de nosso herói. Deu um minuto, nada; um minuto e meio, nada. Manoel considerou a deselegância e desistiu. E deixou a criatura pendurada ao telefone. Puta merda esses brasileiros! Em cada dez, nove avançam como piranhas sobre suas possíveis presas; uma, simplesmente, ignora o freguês que manifesta estar ali precisando ser atendido. Segundo Manoel vai constatando, uma coisa que desapareceu de vez da cuca dos brasileiros é sentido para as coisas. Enter.
Pois Manoel conseguiu fazer as compras, e chegou o Natal, encontrando-o exausto. Em torno de sua casa, nesse período de vagares, a macacada estúpida volta e meia se reúne para fazer algazarras imbecis, jogar futebol em área não apropriada, apenas parece que essas bestas precisam ouvir o som gritado de suas próprias vozes, porque nada têm a dizer... mesmo que tendo aprendido a falar um português assemelhado com suas bundas, tenham perdido seus rabos e não possam mais voltar às árvores. Exasperado com tanta boçalidade, Manoel enverga fones de ouvido tocando bom jazz e toma uma gelada pra despistar sua contrariedade diante dessa escrotidão que foi transformarem criminosamente uma área verde em espaço de recreio para desocupados e gente sem cérebro nem compromisso com urbanidade ou... ou... cidadania, sinal de uma civilização hoje perdida no passado. Enter final.
“Pois que se forniquem todos! Que se forniquem os corruptos, os simpatizantes e adeptos da corrupção, os pulhas, e que os pobres diabos que tentam viver nesse inferno de hoje, em que nada mais faz qualquer sentido, e em que o não fazer sentido virou o sentido do vegetar desses espantalhos, de boné ou lá o que seja, que estes recebam a piedade de Deus!, porque nada mais poderá ocorrer a favor deles neste sistema de violência em que nos meteram!”. “Ei, o pá!: esqueci-me de que é Natal! Então... feliz Natal!”. E viva Santo Expedito! Oremos. “E que o diabo carregue os estúpidos!”
sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
Fatos contundentes oprimem um lusitano nas Alterosas
Frederico Mendonça de Oliveira
Desengano talvez não seja o termo preciso, mas é por aí. Não se pode minimizar os impactos sucessivos sofridos por Manoel nas montanhas sul-mineiras, e o fato de eles serem seguidos e fortes realmente faz com que levemos a sério este tão duro percurso. Dá-se que nosso herói não é lá muito apaixonado, a esta altura da vida, por putinhos alheios, especialmente porque os cinco rebentos que ele botou neste mundo já vivem suas vidas pra lá, já existe até uma netinha linda, filha do primeirão, que, sem intenção de rima, vive no Japão. Manoel aboletou-se nas montanhas para poder dar vazão a seus talentos, que ele manteve em suspensão para se dedicar por anos a formar a cuca da turma, preocupado com os “valores” da família de sua ex, do que tomou consciência ao longo do viver conjugal que se deteriorou de forma inevitável. Hoje são águas passadas, e os putos viraram adultos, e, incrível, o sacrifício de Manoel não vingou: os filhos foram “moldados” naqueles “valores” – mas Manoel tem a consciência tranqüila de ter batalhado duro, e considera serem águas passadas, e foi em frente, pois atrás vinha gente. Enter.
A tal pracita toma hoje muito do tempo de Manoel: sem que ele quisesse, a bosta virou uma queda de braço. Alguns mineiros cínicos perguntam, com hipocrisia típica, por que ele estaria brigando com os figurões que fizeram a coisa. Manoel, já emputecido, os manda à merda entre dentes, enquanto responde claramente que não é ele que está brigando contra porra nenhuma, o que acontece é que invadiram-lhe a casa. Os interlocutores safados calam, sem argumento, mas a pergunta de canalhas fica no ar, e a fisionomia dos estúpidos mantém a pergunta, como se a resposta de nada valesse como esclarecimento. Picardia de pilantras, jogo de cínicos, a que o sangue lusitano não se adapta NUNCA! E a degenerescência prossegue, com a vizinhança adaptada ao crime como vermes juntinhos na bicheira, aquele asco. O coração de nosso herói é forte, mas mesmo sem sinais de risco Manoel começa a temer o infarto ou o AVC, tanto lhe sobe o sangue à cabeça. O último incidente foi escrotíssimo. Enter.
Nesta fase de águas dezembrinas, as dondocas que se reúnem com seus putinhos na pracita batiam em retirada para casa com crianças, carrinhos e tudo quando cruzaram com Manoel e o morador mais perseguido na história. Eles chegavam do centro, e a chuva ameaçava cair pesado. Viu que o morador observou feliz a saída daqueles seres, as mães e babás por serem consolidadoras do ilícito ao freqüentar religiosamente o espaço em litígio; os putinhos, por serem instrumentos de uma perseguição torpe e de uma adesão a um crime depravado. Pois uma das dondocas, mais saída, provocou o morador, falando para seu putinho: “Pula, pula! Faz barulho! Faz barulho!”. A revolta subiu à cabeça de Manoel quando viu o morador ser insultado assim, mas não pelo insulto em si: pela deformidade da índole daquela mocréia (embora jovem e até, vá lá, bela), que não hesita em usar seu putinho para causar mal estar ao já idoso morador decente, um legalista que acabou sozinho contra os safados que desfrutam do crime. O pobre-diabinho já é instrumento para os instintos deformados daquela alma desnaturada, usado para causar mal estar contra alguém que não faz mal a ninguém, apenas discorda do ilícito de que a maluca faz uso com cinismo e acinte assumidos! A que ponto chega a estupidez malsã dessa “gente”! “Puta que pariu!”, como disse Graciliano Ramos à página 51 do seu Angústia, edição de 1953, que Manoel leu em Coimbra. Indignado, Manoel verificou a consternação batendo no espírito humanista do amigo, que quedava abestalhado. Enter.
“Terei cervejas no congelador??”, pergunta-se Manoel já preocupado com fazer descer pela goela, com a ajuda de uma geladézima, a afronta daquela criatura de caráter tão deformado. “Ah, tem aquelas que sobraram de domingo!, claro!”, e Manoel se despede do meio esverdeado amigo, cuja coloração se deverá à bile que lhe subiu aos miolos depois da afronta fútil e escrota. E, já em sua copa, a cerveja branca de neve salta para a mesa, e eis nosso herói socando goles goela abaixo, para diluir a estupefação que se transformou em pedra em sua garganta. Enter final.
“Posso ajudar em alguma coisa?”, pergunta a sirigaita a Manoel, que passa os olhos pelas prateleiras de uma loja em busca de uma porcaria de que está precisando. “SIM! PODE! VÁ PRO DIABO QUE A CARREGUE! AJUDAR DIABO DE MERDA NENHUMA! ESTOU A OLHAIRE E SEI O QUE QUERO!! MERDA! PORRA!”, pensa Manoel olhado para a pobre coitada. “Os brasileiros endoidaram de vez!”, resmunga consigo. E viva Santo Expedito! Oremos. “Posso ajudaire em alguma coisa?”
Desengano talvez não seja o termo preciso, mas é por aí. Não se pode minimizar os impactos sucessivos sofridos por Manoel nas montanhas sul-mineiras, e o fato de eles serem seguidos e fortes realmente faz com que levemos a sério este tão duro percurso. Dá-se que nosso herói não é lá muito apaixonado, a esta altura da vida, por putinhos alheios, especialmente porque os cinco rebentos que ele botou neste mundo já vivem suas vidas pra lá, já existe até uma netinha linda, filha do primeirão, que, sem intenção de rima, vive no Japão. Manoel aboletou-se nas montanhas para poder dar vazão a seus talentos, que ele manteve em suspensão para se dedicar por anos a formar a cuca da turma, preocupado com os “valores” da família de sua ex, do que tomou consciência ao longo do viver conjugal que se deteriorou de forma inevitável. Hoje são águas passadas, e os putos viraram adultos, e, incrível, o sacrifício de Manoel não vingou: os filhos foram “moldados” naqueles “valores” – mas Manoel tem a consciência tranqüila de ter batalhado duro, e considera serem águas passadas, e foi em frente, pois atrás vinha gente. Enter.
A tal pracita toma hoje muito do tempo de Manoel: sem que ele quisesse, a bosta virou uma queda de braço. Alguns mineiros cínicos perguntam, com hipocrisia típica, por que ele estaria brigando com os figurões que fizeram a coisa. Manoel, já emputecido, os manda à merda entre dentes, enquanto responde claramente que não é ele que está brigando contra porra nenhuma, o que acontece é que invadiram-lhe a casa. Os interlocutores safados calam, sem argumento, mas a pergunta de canalhas fica no ar, e a fisionomia dos estúpidos mantém a pergunta, como se a resposta de nada valesse como esclarecimento. Picardia de pilantras, jogo de cínicos, a que o sangue lusitano não se adapta NUNCA! E a degenerescência prossegue, com a vizinhança adaptada ao crime como vermes juntinhos na bicheira, aquele asco. O coração de nosso herói é forte, mas mesmo sem sinais de risco Manoel começa a temer o infarto ou o AVC, tanto lhe sobe o sangue à cabeça. O último incidente foi escrotíssimo. Enter.
Nesta fase de águas dezembrinas, as dondocas que se reúnem com seus putinhos na pracita batiam em retirada para casa com crianças, carrinhos e tudo quando cruzaram com Manoel e o morador mais perseguido na história. Eles chegavam do centro, e a chuva ameaçava cair pesado. Viu que o morador observou feliz a saída daqueles seres, as mães e babás por serem consolidadoras do ilícito ao freqüentar religiosamente o espaço em litígio; os putinhos, por serem instrumentos de uma perseguição torpe e de uma adesão a um crime depravado. Pois uma das dondocas, mais saída, provocou o morador, falando para seu putinho: “Pula, pula! Faz barulho! Faz barulho!”. A revolta subiu à cabeça de Manoel quando viu o morador ser insultado assim, mas não pelo insulto em si: pela deformidade da índole daquela mocréia (embora jovem e até, vá lá, bela), que não hesita em usar seu putinho para causar mal estar ao já idoso morador decente, um legalista que acabou sozinho contra os safados que desfrutam do crime. O pobre-diabinho já é instrumento para os instintos deformados daquela alma desnaturada, usado para causar mal estar contra alguém que não faz mal a ninguém, apenas discorda do ilícito de que a maluca faz uso com cinismo e acinte assumidos! A que ponto chega a estupidez malsã dessa “gente”! “Puta que pariu!”, como disse Graciliano Ramos à página 51 do seu Angústia, edição de 1953, que Manoel leu em Coimbra. Indignado, Manoel verificou a consternação batendo no espírito humanista do amigo, que quedava abestalhado. Enter.
“Terei cervejas no congelador??”, pergunta-se Manoel já preocupado com fazer descer pela goela, com a ajuda de uma geladézima, a afronta daquela criatura de caráter tão deformado. “Ah, tem aquelas que sobraram de domingo!, claro!”, e Manoel se despede do meio esverdeado amigo, cuja coloração se deverá à bile que lhe subiu aos miolos depois da afronta fútil e escrota. E, já em sua copa, a cerveja branca de neve salta para a mesa, e eis nosso herói socando goles goela abaixo, para diluir a estupefação que se transformou em pedra em sua garganta. Enter final.
“Posso ajudar em alguma coisa?”, pergunta a sirigaita a Manoel, que passa os olhos pelas prateleiras de uma loja em busca de uma porcaria de que está precisando. “SIM! PODE! VÁ PRO DIABO QUE A CARREGUE! AJUDAR DIABO DE MERDA NENHUMA! ESTOU A OLHAIRE E SEI O QUE QUERO!! MERDA! PORRA!”, pensa Manoel olhado para a pobre coitada. “Os brasileiros endoidaram de vez!”, resmunga consigo. E viva Santo Expedito! Oremos. “Posso ajudaire em alguma coisa?”
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
Desventuras de um lusitano nas montanhas de Minas
Frederico Mendonça de Oliveira
Premido por circunstâncias negativas diversas no arraialito onde se acoitou há 24 anos fugindo das maluquices do Rio, Manoel se decidiu pela radicalização. Consciente do colapso da civilização em todos os sentidos – colapso de significados, de instituições, de condições positivas de vida do homem em harmonia com a Natureza, colapso de sentimentos, de tudo” –, Manoel começa a ver no total desprezo à matéria e ao “convívio social” a única saída para estar vivo neste mundo. A ação dos globalizadores corrompeu as almas dos seres humanos comuns, depois de corromper os Estados através do golpe de misericórdia dos Aliados ao fim da II Guerra, depois vindo Coréia, Vietnam, agora Oriente Médio – Afeganistão e Iraque, sem contar o horror da ação de Israel sobre os palestinos –, e não há qualquer perspectiva de reversão desse quadro. Some-se a isso a ação fatal dos meios de comunicação, câncer que começou com Hollywood operando contra a tradição católica ocidental e se aprofundou quando do advento da TV, que penetrou nos lares para estupidificar os seres e desagregar as famílias praticando acintosa intervenção intradoméstica. Enter.
O quadro é devastador, e Manoel ouve a todo momento o cricrilar espantoso dos Gryllus Assimilis, no Brasil chamados simplesmente de grilos, onde quer que esteja, onde quer que vá. Nas ruas, seres transformados em objetos deambulam flatulentos e paquidérmicos entupindo lojas e calçadas, impedindo o simples deslocar-se de seres conscientes, que ocorrem no cenário urbano em proporção de um para cada dez mil bugres vestidos. Ou macacos sem rabo, como quiser, amigo. Se se pega o telefone para ligar para alguém, o maldito intermediário nos submete a um interrogatório normalmente sórdido, não permitindo a ele escapar de uma sabatina safada tanto quanto absolutamente desnecessária. Entra-se numa loja e lá vem a sirigaita ou o bibazito – e isso ocorre do Oiapoque ao Chuí – arremetendo contra o possível otário para obrigá-lo a desembolsar, perguntando estupidamente: “Posso ajudar em alguma coisa?”, e Manoel por dentro se contorce de desconforto, e grita consigo: “Cínicos! Esses brasileiros não passam de uns cínicos!!!”. Não se pode mais entrar numa porra de loja pra olhar alguma besteira, para ter o prazer de encontrar algo interessante – ou não: muitas vezes entramos numa loja para NÃO COMPRAR, para unicamente ver, com isso buscando apenas uma rápida distração, às vezes para escapar a um congestionamento de bestas palradeiras que obstruem as calçadas. Enter.
Dirigir nas ruas do arraialito, nem pensar. Manoel se desfez de seu Dodge Polara de estimação porque o desgosto de dirigir entre bugres o estava estressando a ponto de perder o sono e tender a beber mais que o natural. Manoel não entende por que, para dobrar uma esquina, os motoristas destas montanhas ficam a 45 graus parados na esquina olhando para um lado e para outro. “NÃO VEM NINGUÉM, PORRA!!, pra que parar dessa maneira, ó pá??? Como é que tu tiraste a carteira, alimária???”. A dificuldade que os arraialeiros de ordinário encontram para conseguir tomar a iniciativa de dobrar uma esquina é semelhante a eles cagarem um velocípede daqueles antigos, de lata – não os rechonchudos velotróis de hoje. O mesmo se dá quando em um cruzamento: se tem placa de Pare, os arraialeiros não param; se não tem, param. O que são os brasileiros? Malucos emburrecidos ou burros amalucados? Lembrando Graciliano Ramos, escritor brasileiro que Manoel leu em Coimbra na juventude – e que os brasileiros de hoje desconhecem!... – na página 51 de Angústia, onde se lê “Que sujeito burro! Puta que o pariu!”, Manoel converte em literatura sua estupefação diante do caos em que se vê metido. Enter.
Certo de que dirigir não dá mais, Manoel se decide por comprar um... burro. Sim: um BURRO. E já sabe o nome que dará ao orelhudo asinino: Excelência. Isto porque o poder no Brasil chegou à dimensão de ter um ser de mentalidade de verdureiro na presidência da República e um bando de quadrupedâncias solertes ocupando toda a esfera de poder – salvo as exceções de praxe, óbvio. “Como pode um país fazer qualquer sentido se conduzido para o abismo por tamanha malta de néscios e velhacos??”, questiona Manoel engasgando com o gole de cerveja. Então, que venha Excelência, uma boa companhia – os arraialeiros e mesmo os locutores de rádio e TV dizem “compania”, os toupeiras –, se considerado o fato de os brasileiros estarem se impondo descer à condição de burros mas conseguindo ser em tudo burros no mau sentido. Pelo menos Excelência não dirá nem fará asneiras, não perguntará se pode ajudar em alguma coisa, não ficará bostejando cretinices no passeio com outros muares obstando o ir e vir de outrem, não dirigirá como um bruaqueiro maratimba, não ficará abestalhado diante da TV assistindo a novelas porcas ou a Sílvio Santos cantando “A pipa do vovô não sobe mais”, canção miserável que o apresentador de merdas fez para um carnaval aí. Enter final.
Então Manoel vai comprar tudo: arreio, baixeiro, freio, cabresto, peitoral, rabicho, e vai alugar um terreno perto de sua casa – tem um quase em frente, cheio de capim – para arranchar Excelência. Melhor ainda: Manoel não terá de pagar IPVA, não gastará combustível, não terá problemas com a manutenção de seu veículo. E andará em alto estilo pelas ruas do arraial, na verdade feitas para quadrúpedes. E pela primeira vez em anos Manoel sente que algo faz sentido em sua vida. A pracita será demolida, mas um burro agora vem a calhar. Excelência lhe fará boa companhia, lhe trará sentido para esta vida entre decadentes assumidos. E viva Santo Expedito! Oremos. Bye, babes!
Premido por circunstâncias negativas diversas no arraialito onde se acoitou há 24 anos fugindo das maluquices do Rio, Manoel se decidiu pela radicalização. Consciente do colapso da civilização em todos os sentidos – colapso de significados, de instituições, de condições positivas de vida do homem em harmonia com a Natureza, colapso de sentimentos, de tudo” –, Manoel começa a ver no total desprezo à matéria e ao “convívio social” a única saída para estar vivo neste mundo. A ação dos globalizadores corrompeu as almas dos seres humanos comuns, depois de corromper os Estados através do golpe de misericórdia dos Aliados ao fim da II Guerra, depois vindo Coréia, Vietnam, agora Oriente Médio – Afeganistão e Iraque, sem contar o horror da ação de Israel sobre os palestinos –, e não há qualquer perspectiva de reversão desse quadro. Some-se a isso a ação fatal dos meios de comunicação, câncer que começou com Hollywood operando contra a tradição católica ocidental e se aprofundou quando do advento da TV, que penetrou nos lares para estupidificar os seres e desagregar as famílias praticando acintosa intervenção intradoméstica. Enter.
O quadro é devastador, e Manoel ouve a todo momento o cricrilar espantoso dos Gryllus Assimilis, no Brasil chamados simplesmente de grilos, onde quer que esteja, onde quer que vá. Nas ruas, seres transformados em objetos deambulam flatulentos e paquidérmicos entupindo lojas e calçadas, impedindo o simples deslocar-se de seres conscientes, que ocorrem no cenário urbano em proporção de um para cada dez mil bugres vestidos. Ou macacos sem rabo, como quiser, amigo. Se se pega o telefone para ligar para alguém, o maldito intermediário nos submete a um interrogatório normalmente sórdido, não permitindo a ele escapar de uma sabatina safada tanto quanto absolutamente desnecessária. Entra-se numa loja e lá vem a sirigaita ou o bibazito – e isso ocorre do Oiapoque ao Chuí – arremetendo contra o possível otário para obrigá-lo a desembolsar, perguntando estupidamente: “Posso ajudar em alguma coisa?”, e Manoel por dentro se contorce de desconforto, e grita consigo: “Cínicos! Esses brasileiros não passam de uns cínicos!!!”. Não se pode mais entrar numa porra de loja pra olhar alguma besteira, para ter o prazer de encontrar algo interessante – ou não: muitas vezes entramos numa loja para NÃO COMPRAR, para unicamente ver, com isso buscando apenas uma rápida distração, às vezes para escapar a um congestionamento de bestas palradeiras que obstruem as calçadas. Enter.
Dirigir nas ruas do arraialito, nem pensar. Manoel se desfez de seu Dodge Polara de estimação porque o desgosto de dirigir entre bugres o estava estressando a ponto de perder o sono e tender a beber mais que o natural. Manoel não entende por que, para dobrar uma esquina, os motoristas destas montanhas ficam a 45 graus parados na esquina olhando para um lado e para outro. “NÃO VEM NINGUÉM, PORRA!!, pra que parar dessa maneira, ó pá??? Como é que tu tiraste a carteira, alimária???”. A dificuldade que os arraialeiros de ordinário encontram para conseguir tomar a iniciativa de dobrar uma esquina é semelhante a eles cagarem um velocípede daqueles antigos, de lata – não os rechonchudos velotróis de hoje. O mesmo se dá quando em um cruzamento: se tem placa de Pare, os arraialeiros não param; se não tem, param. O que são os brasileiros? Malucos emburrecidos ou burros amalucados? Lembrando Graciliano Ramos, escritor brasileiro que Manoel leu em Coimbra na juventude – e que os brasileiros de hoje desconhecem!... – na página 51 de Angústia, onde se lê “Que sujeito burro! Puta que o pariu!”, Manoel converte em literatura sua estupefação diante do caos em que se vê metido. Enter.
Certo de que dirigir não dá mais, Manoel se decide por comprar um... burro. Sim: um BURRO. E já sabe o nome que dará ao orelhudo asinino: Excelência. Isto porque o poder no Brasil chegou à dimensão de ter um ser de mentalidade de verdureiro na presidência da República e um bando de quadrupedâncias solertes ocupando toda a esfera de poder – salvo as exceções de praxe, óbvio. “Como pode um país fazer qualquer sentido se conduzido para o abismo por tamanha malta de néscios e velhacos??”, questiona Manoel engasgando com o gole de cerveja. Então, que venha Excelência, uma boa companhia – os arraialeiros e mesmo os locutores de rádio e TV dizem “compania”, os toupeiras –, se considerado o fato de os brasileiros estarem se impondo descer à condição de burros mas conseguindo ser em tudo burros no mau sentido. Pelo menos Excelência não dirá nem fará asneiras, não perguntará se pode ajudar em alguma coisa, não ficará bostejando cretinices no passeio com outros muares obstando o ir e vir de outrem, não dirigirá como um bruaqueiro maratimba, não ficará abestalhado diante da TV assistindo a novelas porcas ou a Sílvio Santos cantando “A pipa do vovô não sobe mais”, canção miserável que o apresentador de merdas fez para um carnaval aí. Enter final.
Então Manoel vai comprar tudo: arreio, baixeiro, freio, cabresto, peitoral, rabicho, e vai alugar um terreno perto de sua casa – tem um quase em frente, cheio de capim – para arranchar Excelência. Melhor ainda: Manoel não terá de pagar IPVA, não gastará combustível, não terá problemas com a manutenção de seu veículo. E andará em alto estilo pelas ruas do arraial, na verdade feitas para quadrúpedes. E pela primeira vez em anos Manoel sente que algo faz sentido em sua vida. A pracita será demolida, mas um burro agora vem a calhar. Excelência lhe fará boa companhia, lhe trará sentido para esta vida entre decadentes assumidos. E viva Santo Expedito! Oremos. Bye, babes!
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
Agruras e queixumes de um lusitano nas montanhas de Minas
Frederico Mendonça de Oliveira
"Ora ora!, pois pois!, que os diabos me levem se estou a perder a noção de mim mesmo, ó pá!", vive resmungando Manoel, nosso herói, pelos cantos ou andando pelas ruas abarrotadas de macacos sem rabo andando sem rumo – já que o rumo das árvores para onde essa choldra tende a voltar está perdido, seria perigoso reabitá-las sem apêndice caudal. Manoel contempla os brasileiros vendo-os degenerar não abestalhados ou pasmos, mas tomados de um tipo inconcebível de delícia mórbida... mas desde a criação daquela maldita pracita que Manoel vai considerando que os brasileiros andam a perder sua própria idéia de vida, de tudo. Basta ver os parlamentares e governantes que elegem, vide o maluquete que ocupa a presidência... Enter.
"Gostas de merda, ó pá? Pois estou a chafurdar nela, e não vejo como voltar a Portugal por agora, mas a burrice neste país faz dele um hospício dos mais loucos que possa conceber a imaginação mais delirante!", comenta Manoel como se falasse a amigos, mas ruminando consigo mesmo, vendo as aberrações mais absurdas ocorrendo à solta. Conversando com uma finíssima pessoa sobre a pracita, soube que uma outra pessoa influente nos meios universitários da cidade criticou um morador que vem sendo massacrado por resistir, em nome da lei (!!!), à aberração urbanística. Esta criatura influente dizia a seus alunos que "o morador é meio maluco (por exigir cumprir-se a lei??) e que a pracita é uma belezita, que ficou tão agradável a vista dela tão bem tratadinha"... "Sim, sim", replicou um aluno depois da aula, "mas é ilegal e tremendamente prejudicial ao bairro, à cidade e às instituições, especialmente porque rasga a lei federal que protege o espaço e o faz intocável e porque mija na Lei Orgânica do Município". A tal figura influente desconversou, como convém aos cínicos... Enter.
"Não entendo como os brasileiros podem gostar de se comportar como mulas!", desabafa Manoel em relação a essa figura influente que ou está a desandar a cabeça de seus alunos para agradar a corruptos poderosos ou trata-se ela mesma de um exemplar asinino vestido de belos panos. Ele, que estudou em Coimbra como o poeta baiano Gregório de Matos, não pode esquecer o que este disse sobre o Brasil degenerado já em tempos idos do século XVII: "Adeus, praia; adeus, cidade,/ e agora me deverás,/
velhaca, dar eu a Deus/ a quem devo ao demo dar", recita meio que rugindo nosso herói de fígado amargurado, e a tal ponto que nem uma cerveja brasileira, que dizem ser "paixão nacional" pode aplacar. Condoído por ver o retrocesso social galopante e maligno em que está inserido até dele poder se desvencilhar, Manoel começa a roer a alma. E prossegue lembrando os versos de Gregório de Matos, um dos poucos homens nesta terra que viu e denunciou a merda que o cercava. Lembrou-se do poeta definindo sua cidade, Salvador: o mote é "De dois ff se compõe/ esta cidade a meu ver/ um, furtar; outro, foder"; a glosa é: "Provo a conjetura já/ prontamente como um brinco:/ Bahia tem letras cinco/ que são BAHIA,/ logo ninguém me dirá/ que dois ff chega a ter/ pois nenhum contém sequer,/ salvo se em boa verdade/ são os ff da cidade/ um furtar, outro, foder". E Manoel suspira ao considerar que um autor como este, cuja obra encarta também uma linda parte religiosa em que seus sonetos ao Cristo até hoje comovem com raro impacto, sequer é lembrado no Brasil senão em salas de aula de Literatura, mas que os que o tomam o fazem por obrigação ou interesse material, e logo está de novo esquecido. Que dizer da turba ignara, em que se inserem até mesmo professores e dentistas!... A estes, Manoel, amargando seu exílio, seja local seja em ultramar, declama com fúria o mesmo Gregório de Matos que ele tanto admira: "Adeus, prolixas escolas/ com lentes, bedéis, secretários/ que tudo somado é NADA!". Enter.
E assim se vai preparando Manoel para cruzar de novo – “e sem volta!!”, exclama ele com seus botões – o Atlântico, oceano que os arraialeiros aqui, como ele passou a vê-los, chamam de “Atrântico’, e que mal sabem o que significa, senão que é longe e grande. Como não sabem, os arraialeiros, o porquê de um feriado que parou o país – embora já esteja parado desde 1964 –, mas que os fez trabalhar mesmo assim, e putos da vida, mas obedecendo, para não ficar sem o feijão na barriga depois peidante. O feriado era 15 de Novembro, proclamação da República, que os arraialeiros ignoram, mas que, obrigados a palrar esse nome, dizem: “Pocramação da Repúbrica”. Enter final.
E o coração de Manoel se aperta quando lembra o também poeta Carlos Drummond de Andrade, que verseja sobre o si mesmo desolado pela perda das perspectivas neste Brasil desonrado e desgraçado, da mesma forma que Manoel agora sofre: “Quer voltar pra Minas/ Minas não há mais”. Sofre Manoel pelo sofrimento de Carlos Drummond, que se pergunta “E agora, José?” da mesma forma que Manoel se indaga de si. O oceano azul profundo o salvará? E viva Santo Expedito! Oremos. ’Té pra semana, babes!
"Ora ora!, pois pois!, que os diabos me levem se estou a perder a noção de mim mesmo, ó pá!", vive resmungando Manoel, nosso herói, pelos cantos ou andando pelas ruas abarrotadas de macacos sem rabo andando sem rumo – já que o rumo das árvores para onde essa choldra tende a voltar está perdido, seria perigoso reabitá-las sem apêndice caudal. Manoel contempla os brasileiros vendo-os degenerar não abestalhados ou pasmos, mas tomados de um tipo inconcebível de delícia mórbida... mas desde a criação daquela maldita pracita que Manoel vai considerando que os brasileiros andam a perder sua própria idéia de vida, de tudo. Basta ver os parlamentares e governantes que elegem, vide o maluquete que ocupa a presidência... Enter.
"Gostas de merda, ó pá? Pois estou a chafurdar nela, e não vejo como voltar a Portugal por agora, mas a burrice neste país faz dele um hospício dos mais loucos que possa conceber a imaginação mais delirante!", comenta Manoel como se falasse a amigos, mas ruminando consigo mesmo, vendo as aberrações mais absurdas ocorrendo à solta. Conversando com uma finíssima pessoa sobre a pracita, soube que uma outra pessoa influente nos meios universitários da cidade criticou um morador que vem sendo massacrado por resistir, em nome da lei (!!!), à aberração urbanística. Esta criatura influente dizia a seus alunos que "o morador é meio maluco (por exigir cumprir-se a lei??) e que a pracita é uma belezita, que ficou tão agradável a vista dela tão bem tratadinha"... "Sim, sim", replicou um aluno depois da aula, "mas é ilegal e tremendamente prejudicial ao bairro, à cidade e às instituições, especialmente porque rasga a lei federal que protege o espaço e o faz intocável e porque mija na Lei Orgânica do Município". A tal figura influente desconversou, como convém aos cínicos... Enter.
"Não entendo como os brasileiros podem gostar de se comportar como mulas!", desabafa Manoel em relação a essa figura influente que ou está a desandar a cabeça de seus alunos para agradar a corruptos poderosos ou trata-se ela mesma de um exemplar asinino vestido de belos panos. Ele, que estudou em Coimbra como o poeta baiano Gregório de Matos, não pode esquecer o que este disse sobre o Brasil degenerado já em tempos idos do século XVII: "Adeus, praia; adeus, cidade,/ e agora me deverás,/
velhaca, dar eu a Deus/ a quem devo ao demo dar", recita meio que rugindo nosso herói de fígado amargurado, e a tal ponto que nem uma cerveja brasileira, que dizem ser "paixão nacional" pode aplacar. Condoído por ver o retrocesso social galopante e maligno em que está inserido até dele poder se desvencilhar, Manoel começa a roer a alma. E prossegue lembrando os versos de Gregório de Matos, um dos poucos homens nesta terra que viu e denunciou a merda que o cercava. Lembrou-se do poeta definindo sua cidade, Salvador: o mote é "De dois ff se compõe/ esta cidade a meu ver/ um, furtar; outro, foder"; a glosa é: "Provo a conjetura já/ prontamente como um brinco:/ Bahia tem letras cinco/ que são BAHIA,/ logo ninguém me dirá/ que dois ff chega a ter/ pois nenhum contém sequer,/ salvo se em boa verdade/ são os ff da cidade/ um furtar, outro, foder". E Manoel suspira ao considerar que um autor como este, cuja obra encarta também uma linda parte religiosa em que seus sonetos ao Cristo até hoje comovem com raro impacto, sequer é lembrado no Brasil senão em salas de aula de Literatura, mas que os que o tomam o fazem por obrigação ou interesse material, e logo está de novo esquecido. Que dizer da turba ignara, em que se inserem até mesmo professores e dentistas!... A estes, Manoel, amargando seu exílio, seja local seja em ultramar, declama com fúria o mesmo Gregório de Matos que ele tanto admira: "Adeus, prolixas escolas/ com lentes, bedéis, secretários/ que tudo somado é NADA!". Enter.
E assim se vai preparando Manoel para cruzar de novo – “e sem volta!!”, exclama ele com seus botões – o Atlântico, oceano que os arraialeiros aqui, como ele passou a vê-los, chamam de “Atrântico’, e que mal sabem o que significa, senão que é longe e grande. Como não sabem, os arraialeiros, o porquê de um feriado que parou o país – embora já esteja parado desde 1964 –, mas que os fez trabalhar mesmo assim, e putos da vida, mas obedecendo, para não ficar sem o feijão na barriga depois peidante. O feriado era 15 de Novembro, proclamação da República, que os arraialeiros ignoram, mas que, obrigados a palrar esse nome, dizem: “Pocramação da Repúbrica”. Enter final.
E o coração de Manoel se aperta quando lembra o também poeta Carlos Drummond de Andrade, que verseja sobre o si mesmo desolado pela perda das perspectivas neste Brasil desonrado e desgraçado, da mesma forma que Manoel agora sofre: “Quer voltar pra Minas/ Minas não há mais”. Sofre Manoel pelo sofrimento de Carlos Drummond, que se pergunta “E agora, José?” da mesma forma que Manoel se indaga de si. O oceano azul profundo o salvará? E viva Santo Expedito! Oremos. ’Té pra semana, babes!
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
Agruras de um lusitano nas Alterosas
Frederico Mendonça de Oliveira
"Enquanto o pau vai e vem, o lombo descansa", eis o ditado que Manoel começou a recordar constantemente nas montanhas sul-mineiras, tantas as cacetadas que passou a levar desde que construíram a pracita ao lado de sua propriedade. Educado na cartilha lusa, em que os exemplos para a conduta moral ou para os perigos e as curvas da vida são passados através de ditados (adágios, provérbios) populares, Manoel via que só por isso já estava em severo exílio entre os montanheses no meio dos quais se imiscuiu. Não que aqui não se exerça algo até parecido, embora muito diluído, mas é que aqui a TV assumiu a dianteira da vida social de tal forma que a coisa do ditado, característica e prerrogativa da família, hoje em colapso, não tem nem mais a sombra longínqua daquela solidez, daquela tradição. No Rio, onde passou tempos ouvindo zunidos de balas perdidas e sons de tiros tanto longe como perto, ainda restava algum viço daquela prática, pelo fato de ainda haver muito de lusitanismo na vida carioca, praticado pelos seus patrícios que lá estão – mas que formaram comunidade coesa e à parte, tentando preservar os conteúdos da Santa Terrinha em solo tupiniquim. Enter.
"Tantas vezes vai o gato ao moinho que uma vez lá lhe fica o focinho". Amigo dos bichanos, Manoel desde menino parava pra pensar no gato indo ao moinho apanhar os ratos que viviam ali e um dia, dando bobeira por se sentir seguro demais sendo gato e por se ver à vontade perto do mó, seu focinho lindo leva uma pancada feia da pedra rotativa... mas até que essa história começou a lhe causar certo desconforto: aqui no Brasil os ratos infestam os moinhos do poder, e os gatos, transformados em vilões nesta conjuntura acética brasileira, que parece tudo querer corromper, NUNCA, NUNCA levam a traulitada corretiva a que alude o ditado que abriu este parágrafo. Aqui, gatos e ratos são gatunos, são do mal, e convivem de forma harmônica e a salvo de intervenções do cosmo regenerador, ou das instituições de defesa da saúde social. Enter.
E, falando em gatos, é impressionante os brasileiros serem tão envolvidos com cachorros, parece que virou algo tão indispensável quanto a novela das oito ou o gesto de ligar a televisão. Queres casa? Primeira coisa: providenciar a TV e o (s) cachorro (s). E tanto a TV bosteja seu áudio com aquela tagarelice interminável e caótica quanto os cachorros latem, latem, latem, dias inteiros, horas a fio, parecendo que os dois "equipamentos" são interligados, como que acoplados à vida dos brasileiros e indispensáveis como o poluído ar que respiram (mal, por sinal). Neste exato momento em que são escritas estas mal traçadas, ocorre um comprido estouro de latidos e uivos na vizinhança, trata-se de um canil (proibido por lei em área urbana, mas, e daí? "Foda-se a lei", dizem eles!) a oeste da casa de Manoel, já houve até processo contra o dono, mas o canil está aí, continua, como ainda mais outro, ao sul, que ocupa um terreno inteiro, e nada o erradica. A lei dizia que haver três cães numa casa já configura canil. A Prefeitura ampliou isso para sete, para escapar da responsabilidade de ter de coibir. Pois um dos canis a que Manoel se refere chega a ter mais de 40 cães... e fica por isso mesmo. Os vizinhos que arranquem as calças pela cabeça. E a coisa é pra lá de maluca: "Cachorros, aqui", reclama o Manoel, "são preferência nacional, como cerveja, que os brasileiros bebem como que desejando explodir suas barrigas". Além de existirem cães aos montes a ponto de serem população comparável ou superior à de humanos, existem também os de rua, em grande quantidade, formando outra imensa população. Quando as cadelas de rua entram no cio, vêem-se grupos de dezenas de cães seguindo-as, e o espetáculo que fornecem, combinando a constrangedora cópula e a posterior fase engatada a combates feíssimos, medonhos, às vezes até interrompendo tráfego de veículos em avenidas, é desprezível, beirando, quando não alcançando, o dantesco. E diante disso os mineiros laconicamente comentam: "É complicado!...", e a degenerescência vai se consolidando sob olhares lenientes, condescendentes, até cúmplices. “Eles chamam isso de ‘jeitinho brasileiro!’”, brada Manoel para consigo, implodindo indignação, e nesse momento ele pensa numa cerveja, fazer o quê? Enter.
Mais maluco ainda é o fato de as pessoas que têm gato serem tidas como excêntricas!... Gatos são, até por herança católica de Portugal, bichos de bruxas e capetas. Manoel observa que os brasileiros, por outro lado, não sabem trocar afeto com seres conscientes e assumidos, como são os gatos. Cães são obedientes, quando não subservientes, servis. Gatos, não: sua dignidade felina determina uma relação obedecendo a quesitos de respeito e confiabilidade trabalhada. Para espanto de Manoel, os brasileiros parece que só se entendem sob a égide da subserviência. Aqueles que manifestam sua individualidade assumida são tidos, especialmente pelos mineiros, como “sistemáticos”, até mesmo “criadores de caso”. E como os gatos de Manoel circulam digníssimos pela pracita hetera, motivo de sérias dores de cabeça, eis que os seres que a freqüentam, quase todos tendendo a voltar à copa das árvores que abundam (êpa!) na pracita (parece que não o fazem por terem perdido o rabo nesta “evolução” de milênios por que passaram, ou, melhor, foram passados), lançam para Manoel – e para os mui impolutos e belos gatos deste – olhares de repúdio e desprezo. “Intelijumentos!”, rosna consigo Manoel, já sentindo humores dispépticos, o ácido clorídrico querendo fazer estragos em sua mucosa gástrica. Enter final.
“Tantas vezes vai o cântaro à fonte que um dia se quebra”, vociferava a voz da avó de Manoel, egressa da quase costeira Torres Vedras, ao norte de Lisboa. “Só se quebra se for lá em Portugal”, tritura consigo nosso herói: ele já estava no Brasil quando defenestraram Collor, quando estourou o escândalo dos anões do Orçamento, quando prenderam o deputado Hildebrando Motosserra e o juiz Lalau e sua quadrilha. “Estão todos soltos ou vivendo numa boa!”, impreca nosso portuga, “hoje acontece pior que tudo aquilo, direto, e o cântaro não se quebra!”. Manoel sente-se como Pessoa em seu “Aniversário”: “Sobrevivente a mim mesmo como um fósforo frio”. E lá está a praça cheia de babás, mamãs e seus putinhos. E viva Santo Expedito! Oremos. Ciao, babes!
"Enquanto o pau vai e vem, o lombo descansa", eis o ditado que Manoel começou a recordar constantemente nas montanhas sul-mineiras, tantas as cacetadas que passou a levar desde que construíram a pracita ao lado de sua propriedade. Educado na cartilha lusa, em que os exemplos para a conduta moral ou para os perigos e as curvas da vida são passados através de ditados (adágios, provérbios) populares, Manoel via que só por isso já estava em severo exílio entre os montanheses no meio dos quais se imiscuiu. Não que aqui não se exerça algo até parecido, embora muito diluído, mas é que aqui a TV assumiu a dianteira da vida social de tal forma que a coisa do ditado, característica e prerrogativa da família, hoje em colapso, não tem nem mais a sombra longínqua daquela solidez, daquela tradição. No Rio, onde passou tempos ouvindo zunidos de balas perdidas e sons de tiros tanto longe como perto, ainda restava algum viço daquela prática, pelo fato de ainda haver muito de lusitanismo na vida carioca, praticado pelos seus patrícios que lá estão – mas que formaram comunidade coesa e à parte, tentando preservar os conteúdos da Santa Terrinha em solo tupiniquim. Enter.
"Tantas vezes vai o gato ao moinho que uma vez lá lhe fica o focinho". Amigo dos bichanos, Manoel desde menino parava pra pensar no gato indo ao moinho apanhar os ratos que viviam ali e um dia, dando bobeira por se sentir seguro demais sendo gato e por se ver à vontade perto do mó, seu focinho lindo leva uma pancada feia da pedra rotativa... mas até que essa história começou a lhe causar certo desconforto: aqui no Brasil os ratos infestam os moinhos do poder, e os gatos, transformados em vilões nesta conjuntura acética brasileira, que parece tudo querer corromper, NUNCA, NUNCA levam a traulitada corretiva a que alude o ditado que abriu este parágrafo. Aqui, gatos e ratos são gatunos, são do mal, e convivem de forma harmônica e a salvo de intervenções do cosmo regenerador, ou das instituições de defesa da saúde social. Enter.
E, falando em gatos, é impressionante os brasileiros serem tão envolvidos com cachorros, parece que virou algo tão indispensável quanto a novela das oito ou o gesto de ligar a televisão. Queres casa? Primeira coisa: providenciar a TV e o (s) cachorro (s). E tanto a TV bosteja seu áudio com aquela tagarelice interminável e caótica quanto os cachorros latem, latem, latem, dias inteiros, horas a fio, parecendo que os dois "equipamentos" são interligados, como que acoplados à vida dos brasileiros e indispensáveis como o poluído ar que respiram (mal, por sinal). Neste exato momento em que são escritas estas mal traçadas, ocorre um comprido estouro de latidos e uivos na vizinhança, trata-se de um canil (proibido por lei em área urbana, mas, e daí? "Foda-se a lei", dizem eles!) a oeste da casa de Manoel, já houve até processo contra o dono, mas o canil está aí, continua, como ainda mais outro, ao sul, que ocupa um terreno inteiro, e nada o erradica. A lei dizia que haver três cães numa casa já configura canil. A Prefeitura ampliou isso para sete, para escapar da responsabilidade de ter de coibir. Pois um dos canis a que Manoel se refere chega a ter mais de 40 cães... e fica por isso mesmo. Os vizinhos que arranquem as calças pela cabeça. E a coisa é pra lá de maluca: "Cachorros, aqui", reclama o Manoel, "são preferência nacional, como cerveja, que os brasileiros bebem como que desejando explodir suas barrigas". Além de existirem cães aos montes a ponto de serem população comparável ou superior à de humanos, existem também os de rua, em grande quantidade, formando outra imensa população. Quando as cadelas de rua entram no cio, vêem-se grupos de dezenas de cães seguindo-as, e o espetáculo que fornecem, combinando a constrangedora cópula e a posterior fase engatada a combates feíssimos, medonhos, às vezes até interrompendo tráfego de veículos em avenidas, é desprezível, beirando, quando não alcançando, o dantesco. E diante disso os mineiros laconicamente comentam: "É complicado!...", e a degenerescência vai se consolidando sob olhares lenientes, condescendentes, até cúmplices. “Eles chamam isso de ‘jeitinho brasileiro!’”, brada Manoel para consigo, implodindo indignação, e nesse momento ele pensa numa cerveja, fazer o quê? Enter.
Mais maluco ainda é o fato de as pessoas que têm gato serem tidas como excêntricas!... Gatos são, até por herança católica de Portugal, bichos de bruxas e capetas. Manoel observa que os brasileiros, por outro lado, não sabem trocar afeto com seres conscientes e assumidos, como são os gatos. Cães são obedientes, quando não subservientes, servis. Gatos, não: sua dignidade felina determina uma relação obedecendo a quesitos de respeito e confiabilidade trabalhada. Para espanto de Manoel, os brasileiros parece que só se entendem sob a égide da subserviência. Aqueles que manifestam sua individualidade assumida são tidos, especialmente pelos mineiros, como “sistemáticos”, até mesmo “criadores de caso”. E como os gatos de Manoel circulam digníssimos pela pracita hetera, motivo de sérias dores de cabeça, eis que os seres que a freqüentam, quase todos tendendo a voltar à copa das árvores que abundam (êpa!) na pracita (parece que não o fazem por terem perdido o rabo nesta “evolução” de milênios por que passaram, ou, melhor, foram passados), lançam para Manoel – e para os mui impolutos e belos gatos deste – olhares de repúdio e desprezo. “Intelijumentos!”, rosna consigo Manoel, já sentindo humores dispépticos, o ácido clorídrico querendo fazer estragos em sua mucosa gástrica. Enter final.
“Tantas vezes vai o cântaro à fonte que um dia se quebra”, vociferava a voz da avó de Manoel, egressa da quase costeira Torres Vedras, ao norte de Lisboa. “Só se quebra se for lá em Portugal”, tritura consigo nosso herói: ele já estava no Brasil quando defenestraram Collor, quando estourou o escândalo dos anões do Orçamento, quando prenderam o deputado Hildebrando Motosserra e o juiz Lalau e sua quadrilha. “Estão todos soltos ou vivendo numa boa!”, impreca nosso portuga, “hoje acontece pior que tudo aquilo, direto, e o cântaro não se quebra!”. Manoel sente-se como Pessoa em seu “Aniversário”: “Sobrevivente a mim mesmo como um fósforo frio”. E lá está a praça cheia de babás, mamãs e seus putinhos. E viva Santo Expedito! Oremos. Ciao, babes!
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
Das dúvidas de um lusitano na Pindorama
Frederico Mendonça de Oliveira
Manoel, nosso herói, teve sua juventude marcada pelos progressos admiráveis desta colônia, progressos e conquistas que ressoavam na Santa Terrinha, e ele quedava muito admirado com ver que, mesmo tendo eles o heróico Euzébio jogando pela camisa da seleção portuguesa, o Brasil apresentava outros nomes grandiosos para o futebol, destacando-se a figura do “rei” Pelé, que todos os humanos mentalmente sãos concordam quanto a ser o maior de todos os tempos. Pois naquele mesmo glorioso ano de 1958, tinha Manoel 13 anos e começou a ouvir em rádios de Lisboa uma nova forma de samba muito sofisticada e saborosa, que os brasileiros chamavam de Bossa Nova. Manoel se encantou especialmente com A Felicidade, abismado com os versos de Vinícius de Moraes – lá com respeito a poesia, os portugueses estão muito à vontade, com Camões e Fernando Pessoa como referências –, notadamente aqueles versos: “A felicidade é como a gota de orvalho numa pétala de flor/ brilha tranqüila, depois, de leve, oscila/ e cai como uma lágrima de amor”. “Que deslumbramento, ó pá!!!”, exclamava Manoel para seus patrícios também abestalhados com tanta beleza. “E pensar que foram nossos antepassados que despertaram essa terra com essa gente tão sensacional!!!”, diziam todos, e lá ia mais uma golada de um Dão, de um Porca de Mursa, de um Casal Garcia... com sardinha e tremoços, que ninguém é de ferro também naquela península cheia de encantos. Enter.
Pois a era da canção chamada MPB sucedeu a Bossa Nova, e nomes como Chico Buarque, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gonzaguinha, Ivan Lins e outros produziram uma safra de canções tão admirável que Manoel resolveu vir vivenciar isso in loco, especialmente porque estava muito admirado com o fato de os cantores/compositores/intérpretes brasileiros terem derrubado a ditadura militar, concomitantemente ao surgimento em Portugal do Socialismo da Rosa, com Mário Soares assim assim com os heróis brasileiros da canção. E lá veio Manoel, enquanto a classe média em Portugal se entregava às telenovelas da Globo, o que lhe deu mais alento ainda para sair da terrinha. “Que nós copiemos o que os brasileiros fazem de bom, isso é positivo”, dizia ele; “Mas assim é demais: copiar esse hábito estúpido de entregar nossos cérebros a um aparelho que emite imagens, isso é coisa de silvícolas admirados com espelhinhos!”, resmungava Manoel, já muito bem inteirado das fraquezas de nossos aborígenes, por estudar isso em currículo no curso secundário em Lisboa. Pousou aqui, no Galeão, o guapo Manoel de Oliveira, veio de Boeing 707 da TAP. No cardápio de bordo, ironicamente, arroz de lulas. Enter.
Chegando ao Rio, passeando pela Cinelândia, foi logo assaltado e lhe levaram relógio, dinheiro, passaporte, e ainda deram no nobre alfacinha uns bofetes pesados. O Brasil visto de além-mar, como nosso herói percebeu em curto prazo, nada tinha a ver com a verdade vivida aqui, no seio da guerra civil absurda. Foi a primeira dúvida de Manoel: “Ora, pois! Se existe uma guerra, ela deve ser declarada, e devemos saber quem está de cada lado. Pois no Brasil a coisa é diversa: de um lado, o morro; de outro, a cidade e o poder constituído; o morro não quer tomar a cidade, e a cidade e o poder não querem tomar o morro. Vivem aos tiros e a se matar e ninguém tem objetivo, ó pá??? Estarão malucos ou serão todos uns burros orelhudos??”. E assim se desmontou em Manoel a ilusão que fazem lá fora de um Brasil avançado socialmente, com poetas, artistas militantes derrubando a ditadura militar, ou seja, “flores vencendo canhões”, como disse o cantor Vandré, que depois se assumiu maluco mesmo, e se uniu às Forças Armadas repressoras, até compondo a música “Fabiana” em homenagem à FAB (Força Aérea Brasileira). E assim foi Manoel compreendendo que viver no Rio era perigoso. Mudou-se para as montanhas do Sul de Minas, onde tinha família uma brasileirota com quem se amancebara. E instalou-se na casita ao lado da área onde resolveram fazer, da noite para o dia, uma praça ilegal... Enter final.
Manoel hoje vive o dilema drummondiano: “No elevador, penso na roça/ na roça, penso no elevador”, disse o mestre. Manoel agora vive a contradição: estando no Brasil, está em Portugal; estando em Portugal, tem que estar no Brasil. E enquanto sofre esta dicotomia conflitante, os cães da vizinhança ladram, ladram, ladram, porque os brasileiros, paranóicos e ignorantizados pela TV, querem cães apenas para tê-los, não para conviver com eles. Manoel começa a pensar que os brasileiros descobriram a burrice e a alimentam com estranho prazer. “E os portugueses é que são burros??” E viva Santo Expedito. Oremos. Té mais, babes!
Manoel, nosso herói, teve sua juventude marcada pelos progressos admiráveis desta colônia, progressos e conquistas que ressoavam na Santa Terrinha, e ele quedava muito admirado com ver que, mesmo tendo eles o heróico Euzébio jogando pela camisa da seleção portuguesa, o Brasil apresentava outros nomes grandiosos para o futebol, destacando-se a figura do “rei” Pelé, que todos os humanos mentalmente sãos concordam quanto a ser o maior de todos os tempos. Pois naquele mesmo glorioso ano de 1958, tinha Manoel 13 anos e começou a ouvir em rádios de Lisboa uma nova forma de samba muito sofisticada e saborosa, que os brasileiros chamavam de Bossa Nova. Manoel se encantou especialmente com A Felicidade, abismado com os versos de Vinícius de Moraes – lá com respeito a poesia, os portugueses estão muito à vontade, com Camões e Fernando Pessoa como referências –, notadamente aqueles versos: “A felicidade é como a gota de orvalho numa pétala de flor/ brilha tranqüila, depois, de leve, oscila/ e cai como uma lágrima de amor”. “Que deslumbramento, ó pá!!!”, exclamava Manoel para seus patrícios também abestalhados com tanta beleza. “E pensar que foram nossos antepassados que despertaram essa terra com essa gente tão sensacional!!!”, diziam todos, e lá ia mais uma golada de um Dão, de um Porca de Mursa, de um Casal Garcia... com sardinha e tremoços, que ninguém é de ferro também naquela península cheia de encantos. Enter.
Pois a era da canção chamada MPB sucedeu a Bossa Nova, e nomes como Chico Buarque, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gonzaguinha, Ivan Lins e outros produziram uma safra de canções tão admirável que Manoel resolveu vir vivenciar isso in loco, especialmente porque estava muito admirado com o fato de os cantores/compositores/intérpretes brasileiros terem derrubado a ditadura militar, concomitantemente ao surgimento em Portugal do Socialismo da Rosa, com Mário Soares assim assim com os heróis brasileiros da canção. E lá veio Manoel, enquanto a classe média em Portugal se entregava às telenovelas da Globo, o que lhe deu mais alento ainda para sair da terrinha. “Que nós copiemos o que os brasileiros fazem de bom, isso é positivo”, dizia ele; “Mas assim é demais: copiar esse hábito estúpido de entregar nossos cérebros a um aparelho que emite imagens, isso é coisa de silvícolas admirados com espelhinhos!”, resmungava Manoel, já muito bem inteirado das fraquezas de nossos aborígenes, por estudar isso em currículo no curso secundário em Lisboa. Pousou aqui, no Galeão, o guapo Manoel de Oliveira, veio de Boeing 707 da TAP. No cardápio de bordo, ironicamente, arroz de lulas. Enter.
Chegando ao Rio, passeando pela Cinelândia, foi logo assaltado e lhe levaram relógio, dinheiro, passaporte, e ainda deram no nobre alfacinha uns bofetes pesados. O Brasil visto de além-mar, como nosso herói percebeu em curto prazo, nada tinha a ver com a verdade vivida aqui, no seio da guerra civil absurda. Foi a primeira dúvida de Manoel: “Ora, pois! Se existe uma guerra, ela deve ser declarada, e devemos saber quem está de cada lado. Pois no Brasil a coisa é diversa: de um lado, o morro; de outro, a cidade e o poder constituído; o morro não quer tomar a cidade, e a cidade e o poder não querem tomar o morro. Vivem aos tiros e a se matar e ninguém tem objetivo, ó pá??? Estarão malucos ou serão todos uns burros orelhudos??”. E assim se desmontou em Manoel a ilusão que fazem lá fora de um Brasil avançado socialmente, com poetas, artistas militantes derrubando a ditadura militar, ou seja, “flores vencendo canhões”, como disse o cantor Vandré, que depois se assumiu maluco mesmo, e se uniu às Forças Armadas repressoras, até compondo a música “Fabiana” em homenagem à FAB (Força Aérea Brasileira). E assim foi Manoel compreendendo que viver no Rio era perigoso. Mudou-se para as montanhas do Sul de Minas, onde tinha família uma brasileirota com quem se amancebara. E instalou-se na casita ao lado da área onde resolveram fazer, da noite para o dia, uma praça ilegal... Enter final.
Manoel hoje vive o dilema drummondiano: “No elevador, penso na roça/ na roça, penso no elevador”, disse o mestre. Manoel agora vive a contradição: estando no Brasil, está em Portugal; estando em Portugal, tem que estar no Brasil. E enquanto sofre esta dicotomia conflitante, os cães da vizinhança ladram, ladram, ladram, porque os brasileiros, paranóicos e ignorantizados pela TV, querem cães apenas para tê-los, não para conviver com eles. Manoel começa a pensar que os brasileiros descobriram a burrice e a alimentam com estranho prazer. “E os portugueses é que são burros??” E viva Santo Expedito. Oremos. Té mais, babes!
Assinar:
Postagens (Atom)