quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Das dúvidas de um lusitano na Pindorama

Frederico Mendonça de Oliveira

Manoel, nosso herói, teve sua juventude marcada pelos progressos admiráveis desta colônia, progressos e conquistas que ressoavam na Santa Terrinha, e ele quedava muito admirado com ver que, mesmo tendo eles o heróico Euzébio jogando pela camisa da seleção portuguesa, o Brasil apresentava outros nomes grandiosos para o futebol, destacando-se a figura do “rei” Pelé, que todos os humanos mentalmente sãos concordam quanto a ser o maior de todos os tempos. Pois naquele mesmo glorioso ano de 1958, tinha Manoel 13 anos e começou a ouvir em rádios de Lisboa uma nova forma de samba muito sofisticada e saborosa, que os brasileiros chamavam de Bossa Nova. Manoel se encantou especialmente com A Felicidade, abismado com os versos de Vinícius de Moraes – lá com respeito a poesia, os portugueses estão muito à vontade, com Camões e Fernando Pessoa como referências –, notadamente aqueles versos: “A felicidade é como a gota de orvalho numa pétala de flor/ brilha tranqüila, depois, de leve, oscila/ e cai como uma lágrima de amor”. “Que deslumbramento, ó pá!!!”, exclamava Manoel para seus patrícios também abestalhados com tanta beleza. “E pensar que foram nossos antepassados que despertaram essa terra com essa gente tão sensacional!!!”, diziam todos, e lá ia mais uma golada de um Dão, de um Porca de Mursa, de um Casal Garcia... com sardinha e tremoços, que ninguém é de ferro também naquela península cheia de encantos. Enter.
Pois a era da canção chamada MPB sucedeu a Bossa Nova, e nomes como Chico Buarque, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gonzaguinha, Ivan Lins e outros produziram uma safra de canções tão admirável que Manoel resolveu vir vivenciar isso in loco, especialmente porque estava muito admirado com o fato de os cantores/compositores/intérpretes brasileiros terem derrubado a ditadura militar, concomitantemente ao surgimento em Portugal do Socialismo da Rosa, com Mário Soares assim assim com os heróis brasileiros da canção. E lá veio Manoel, enquanto a classe média em Portugal se entregava às telenovelas da Globo, o que lhe deu mais alento ainda para sair da terrinha. “Que nós copiemos o que os brasileiros fazem de bom, isso é positivo”, dizia ele; “Mas assim é demais: copiar esse hábito estúpido de entregar nossos cérebros a um aparelho que emite imagens, isso é coisa de silvícolas admirados com espelhinhos!”, resmungava Manoel, já muito bem inteirado das fraquezas de nossos aborígenes, por estudar isso em currículo no curso secundário em Lisboa. Pousou aqui, no Galeão, o guapo Manoel de Oliveira, veio de Boeing 707 da TAP. No cardápio de bordo, ironicamente, arroz de lulas. Enter.
Chegando ao Rio, passeando pela Cinelândia, foi logo assaltado e lhe levaram relógio, dinheiro, passaporte, e ainda deram no nobre alfacinha uns bofetes pesados. O Brasil visto de além-mar, como nosso herói percebeu em curto prazo, nada tinha a ver com a verdade vivida aqui, no seio da guerra civil absurda. Foi a primeira dúvida de Manoel: “Ora, pois! Se existe uma guerra, ela deve ser declarada, e devemos saber quem está de cada lado. Pois no Brasil a coisa é diversa: de um lado, o morro; de outro, a cidade e o poder constituído; o morro não quer tomar a cidade, e a cidade e o poder não querem tomar o morro. Vivem aos tiros e a se matar e ninguém tem objetivo, ó pá??? Estarão malucos ou serão todos uns burros orelhudos??”. E assim se desmontou em Manoel a ilusão que fazem lá fora de um Brasil avançado socialmente, com poetas, artistas militantes derrubando a ditadura militar, ou seja, “flores vencendo canhões”, como disse o cantor Vandré, que depois se assumiu maluco mesmo, e se uniu às Forças Armadas repressoras, até compondo a música “Fabiana” em homenagem à FAB (Força Aérea Brasileira). E assim foi Manoel compreendendo que viver no Rio era perigoso. Mudou-se para as montanhas do Sul de Minas, onde tinha família uma brasileirota com quem se amancebara. E instalou-se na casita ao lado da área onde resolveram fazer, da noite para o dia, uma praça ilegal... Enter final.
Manoel hoje vive o dilema drummondiano: “No elevador, penso na roça/ na roça, penso no elevador”, disse o mestre. Manoel agora vive a contradição: estando no Brasil, está em Portugal; estando em Portugal, tem que estar no Brasil. E enquanto sofre esta dicotomia conflitante, os cães da vizinhança ladram, ladram, ladram, porque os brasileiros, paranóicos e ignorantizados pela TV, querem cães apenas para tê-los, não para conviver com eles. Manoel começa a pensar que os brasileiros descobriram a burrice e a alimentam com estranho prazer. “E os portugueses é que são burros??” E viva Santo Expedito. Oremos. Té mais, babes!

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Desventuras de um lusitano nas alterosas (II)

Frederico Mendonça de Oliveira

Pois o Manoel agora “pisou na trouxa” (expressão que no Brasil ganha diversas variantes: “se retou”, no Nordeste; “virou bicho” ou “chutou o pau da barraca” ou ainda “chutou o balde” no Rio; “queimou no golpe” em Minas, e por aí vai), porque a burrice que reina no Brasil o está fazendo duvidar de si mesmo. Começou com a pracita ao lado de sua casa, transformando um lugar pacato e uma vizinhança em que todos cordialmente se entendiam numa comunidade rachada e cheia de inimizades, em que passou a reinar a cizânia; depois, quando houve reação à praça, os que reclamavam o cumprimento da lei foram processados, tachados cinicamente de “criadores de caso” e passaram a ser moralmente linchados e perseguidos pelos arraialeiros que apóiam a obra ilegal – que transformou uma área verde para preservação ambiental em praça pública, parque de vizinhança e parque infantil, desrespeitando todas as legislações possíveis de serem desrespeitadas. “Que diabo é isto??”, pergunta-se perplexo o nosso Manoel, que se lembra de outros tempos em que o Brasil era respeitado no exterior, especialmente entre os pensadores de Portugal, tempos da Bossa Nova e do Cinema Novo, e veio-lhe à mente aquela coisa do filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol”: “O sertão vai virar mar/ e o mar vai virar sertão!”. Enter.
Estava tudo indo numa boa, estava a maré mansa no arraialito onde Manoel se instalara, até que esta aberração que em Portugal causou espécie e hilaridade até em Trás-os-Montes descerrou a cena da absoluta loucura que reina no Brasil. Manoel sabe do que ocorre no Rio de Janeiro, mas acreditava que aquilo era uma guerra civil localizada, da responsabilidade dos traficantes que se opunham ao poder concentrador, uma guerra resultante da discriminação e da marginalização impostas à gigantesca população carente favelada comprimida nos morros, obrigada a se valer de meios ilegais para prosseguir vivendo. Balas perdidas matando cidadãos inocentes, arrastões, massacres envolvendo até crianças, tudo isso não passaria de folclore maligno do Rio, por isso a escolha de um arraialito pacato nas montanhas sulmineiras para viver. Mas a pracita quebrou o encanto, e a maldade se manifestou de forma boçal, e agora fincou-se na cachimônia de Manoel a idéia de ficar voltando a Portugal para esclarecer vários pontos, inclusive considerar, entre seus patrícios, a possibilidade de estar ele embirutando ou começando precocemente a caducaire. Enter.
Pois a maluquice da pracita e a atitude insana dos que a apóiam fanaticamente, como se fosse ela uma bênção recebida de uma divindade, levaram Manoel a procurar autoridades que lhe justificassem a existência da aberração: na verdade, Manoel ficou curioso para saber como uma autoridade do meio-ambiente, por exemplo, explicaria por que não embargou a obra absurda, que causou grande estrago ambiental. E foi numa dessas que nosso herói atentou para a bandeira de Minas, que tem os tão badalados dizeres “Libertas quae sera tamen”. Manoel abestalhou-se: “Puta que pariu! Isto é Virgílio!”. Tendo estudado latim na juventude em Coimbra, a língua-mãe não tem para ele muitos segredos. E ele perguntou ao bacana que o recebia em gabinete refrigerado por que puseram aquele pedaço de verso das Églogas na bandeira de Minas Gerais. O bacana disse que sabia algo a respeito, que nascera vendo a bandeira assim, que ela fora criada em homenagem aos inconfidentes que se revoltaram contra os impostos cobrados pela coroa portuguesa e que estava escrito na bandeira em latim “liberdade ainda que tardia”. Manoel abestalhou-se, quase que abespinhou-se: “Mas isto não é o que está escrito ali, ora pois! A tradução destas palavras é ‘liberdade que, tardia, contudo’, e isto é apenas o começo do verso da primeira Égloga, que no todo é ‘Libertas quae sera tamen respexit inertem candidior postquam tondenti barba cadebat’, que significa ‘liberdade que, tardia, contudo viu-me ocioso quando, ao fazer minha barba, esta já caía branca’”! Enter final.
Manoel saiu do encontro com a autoridade bufando de indignação com tamanha estupidez! Vai ele ao funcionário bacana e constata que até na bandeira de um estado brasileiro escreve-se uma burrice tamanha! Chegou a casa resolvido a tomar muita cerveja para aliviar a putice. Lá estavam na pracita vizinhos com putinhos barulhentos, os adultos olhando torto para ele. E ali mesmo, na copa-cozinha, de caneco na mão, pegou do telefone, ligou para seu patrício que trabalha na agência da TAP em São Paulo e solicitou reserva imediata de passagem para Lisboa. “Ora, pois! Além de burros são malucos, os brasileiros!”, desabafava nosso herói a bebeire a geladíssima cerveja. E viva santo Expedito! Oremos. Bye, babes!

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Desventuras de um lusitano nas alterosas

Frederico Mendonça de Oliveira

Pois o Manoel, nosso herói, começou a não entender mais nada do que se passa no arraialito onde fixou residência. Primeiro, faz-se uma pracita num local onde antes existia um sistema de preservação ambiental, e a obra causou um fuzuê dos diabos: uns se aboletaram nos bancos levando cachorro, papagaio, mulher, filhos e netos, fazendo do espaço um prolongamento de suas dependências residenciais, com isso expondo aos outros seus hábitos que deveriam manter dentro de seus espaços; num certo fim de semana penduraram rede entre duas árvores e se ajuntaram como um bando de retirantes, como se estivessem em sua sala de convivência; de outra feita, armaram até tenda de camping para as crianças “acamparem”, levando farnel e o diabo. Pelas manhãs, especialmente aos sábados, reúne-se uma criançada desgraçadamente barulhenta, brincando como um bando de diabinhos enlouquecidos mortificando com gritos finos e altíssimos os ouvidos de seres educados e sensíveis que moram colados à pracita. As babás e mamães que acompanham esses infelizezitos simplesmente ignoram os putinhos, ocupando-se em palrar entre si sobre sabe-se lá que besteiras, que elas chamam de “assuntos”. E como se plantou grama no espaço, volta e meia aparecem malucas e malucos com farnéis e armam piqueniques com toalha de mesa e tudo mais: biscoutos, pets de refrigerante, sanduíches e tal, e a turma dos que são aqui no Brasil chamados de baixinhos se esparrama fazendo algazarra, para estourar os ouvidos dos moradores no entorno. Enter.
E foi aí que o Manoel começou a dar tratos à bola, especialmente considerando que o negócio de os brasileiros dizerem que portugueses são burros não está lá muito certo... porque portugueses não fazem esse tipo de maluquice como a que os brasileiros fazem, coisas como essa pracita. Pior ficou ainda quando o Manoel soube que um prefeito no Nordeste vendeu uma praça pública para um cidadão construir nela seu negócio, por sinal uma lanchonete. E mais impressionante ainda ficou quando deu na TV – que os brasileiros usam como sendo o oratório de suas casas no caso de serem católicos praticantes, o que os emburrece, esta forma de usar a TV, crescentemente, coisa que eles, parece, não notam – que um morador de uma cidade mineira, Juiz de Fora, construiu sua casa numa área verde como a que foi transformada em praça perto da casa dele, fato que deu notícia em âmbito nacional, embora pareça que isso vai virando moda nas montanhas de Minas e fora delas. Danou-se tudo no bestunto de nosso querido Manoel quando foi verificado que, no extremo oeste da área verde que virou praça em seu arraialito, também foi construída uma casa, que toma quase toda a largura do espaço, deixando apenas uma passagem para algum pedestre que por ali se desloque – isto sem contar que no outro extremo, a leste, a área é inacreditavelmente usada como estacionamento de carros para o clube cuja portaria fica bem em frente. Enter.
Queres mais, ó pá? Bem, Manoel já anda querendo voltar a Portugal para comentar sobre tudo isso, só evitando falar com a Maria se os dois estiverem realizando quecas em tardes de cio e vagares. Outra broxada, lá isto não! Mas que tem certeza de que vai fazer sucesso entre seus amigos e circunstantes contando as “modas” do Brasil, lá isto não há negar... especialmente se souberem que os que defendem a lei – não só os que habitam as montanhas onde fica o arraialito, mas no Brasil como um todo – são perseguidos de todas as maneiras, inclusive sendo proibidos de falar sobre o assunto. Haja vinho, bacalhau, sardinha e tremoços para agüentar tanta maluquice!... associada a burrice! Enter final.
Manoel já anda pensando em afivelar as malas e pegar um TAP (Transportes Aéreos Portugueses), companhia que no Brasil chamam de “tamancos aéreos portugueses”, sem contar que até locutores de TV falam “compania”, os intelijumentos – êpa! Já está o Manoel a dizeire que os brasileiros são burros!... –, e cruzaire o Atlântico para ouvir falas civilizadas, já que as últimas experiências no arraialito são de fazer levantar as orelhas de uma besta quadrada. Não se vá atribuir ao Brasil aquilo que não se deve, outrossim: se elegeram Lula presidente, Clodovil deputado e Severino Cavalcante presidente do Congresso, e se Lula está cercado de corruptos que pintam os canecos e ele jura que de nada sabe, admitamos que podemos considerar os brasileiros uns refinados quadrúpedes... embora saibamos que ainda exista vida inteligente entre o Oiapoque e o Chuí – mas isto anda muito escasso!... E viva Santo Expedito! Oremos. Bye, babes!

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

As desventuras de um lusitano imigrado

Frederico Mendonça de Oliveira

Ainda traumatizado pela disfunção erétil na última queca tentada com sua gentilíssima, alvíssima e rechonchuda Maria naquela tarde invernal em Lisboa, Manuel chegou a sua casita no arraialito entre as montanhas sul-mineiras e encontrou mais problemas ainda que os que deixara ao partir para sua viagem de avaliação urbanística consultando gênios de ultramar na especialidade. Ele, que voltou bastante confuso, agora realmente não podia entender o que pretendem os montanheses no arraial, especialmente por se negar a admitir que se meteu numa região onde crescentemente vai se instalando uma burrice e uma falta de honestidade sesquipedais... e que a grande maioria dos cidadãos adere ao que possa haver de pior em se tratando de coisas que compõem a vida em comunidade. Enter.
Começou a estranheza quando viu que o espaço passou a ser usado, pelas manhãs, como ponto de reunião de amas com fedelhos d'outros ventres, e mesmo com putinhos (meninitos, em Portugal) e as que os pariram de verdade. As criaturas se instalavam nos bancos a conversar e seguramente falar da vida alheia, especialmente das vidas nas casas das patroas – no caso das amas – ou dos problemas das amigas – no caso das mães de verdade. Os fedelhitos, por sua vez, se esparramam pela grama e por entre as árvores a gritaire como loucos, como se estivessem sob a ameaça de tomar uma pica (injeção) no cu (não é chulo, mas lusitanismo para bunda) ou levar pontos sem anestesia em algum talho feio. “Por que diabos estes putinhos gritam como que enlouquecidos de horroire?”, pergunta-se o Manuel com dor de cabeça gerada pela gritaria infantil. Chegou-se ao jardim e perguntou às criaturas adultas se não podiam conter a gritaria infernal dos putos, ao que foi recebido com desdém pelas recalcitrantes, como se fosse um louco inconveniente que estivesse incomodando a alegria alheia. Enter.
Mais impressionado ficou quando uma tarde verificou que chegava um maluquete de baixa estatura – todo baixinho é f*– comandando um bando de adolescentes e trazendo uma montoeira de balões amarelos que foram pendurados nas árvores para dar clima de festa. Demoraram-se por lá horas, fazendo um esporro dos diabos, especialmente porque algumas das raparigas subiam e desciam a passarela de patins, e gritavam besteiras umas para as outras, e aquilo estava virando um inferno. Acabou que se foram, os imbecis sem local para farra, e a calma voltou ao espaço. Dias depois, o mesmo baixinho meio abestalhado chegou com petrechos para brincadeiras, e reuniram-se dezena e pouco de crianças, e o sujeitinho conduziu brincadeiras como corridas de sacos, pique-cola e outras atrações – só que promovendo uma gritaria infernal entre os fedelhos estupidificados pela excitação. Esta sessão de gritarias começou às duas da tarde. Manoel saiu de casa às 18h30 e a coisa ainda estava ocorrendo. Pois Manoel ligou sua guitarra portuguesa eletrificada e tocou fados altíssimo, para fazer frente à algazarra infernal. Quando saiu, foi alvo de troças e acusações. Ignorou e seguiu seu caminho. Enter.
Numa terceira ocasião, eis que numa sexta-feira, chegava ele a sua casa quando verificou que chegava também o baixinho e outro bando de fedelhos todos fantasiados. Manoel gelou, mas ocorreu-lhe de ligar para um advogado amigo a quem tinha já relatado os fatos, e este advogado sugeriu que nosso herói fotografasse a reunião, para possíveis posteriores iniciativas. No que Manuel despistadamente tentou tirar fotos por entre a folhagem de seu jardim, viu-se alvo de vitupérios, insultos, vaias, o que o fez sair à rua e fotografar abertamente o baixote e os fedelhos todos fantasiados. O baixote até lhe dirigiu insultos diretamente, quando Manuel, subindo-lhe o sangue ao quengo, reagiu, perguntando ao baixote, às mães, e a quem pudesse ouvir, se eles não tinham o que fazer, se não tinham casas e se não tinham percebido que o carnaval acabara na quarta-feira de cinzas, que fora dois dias antes. Pois o baixinho e as cabeludas se reuniram num bolo de conluio, houve até quem perguntasse a respeito de o Manuel poder fotografá-los assim. E dissolveu-se a baderna. Enter final.
Semana que vem, mais um episódio de “As desventuras de um lusitano imigrado”, que deve ser lido, para maior desfrute de legitimidade, em sotaque lusitano. E viva Santo Expedito! Oremos, pois. Adeuzinho, gajos e saloias!

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Urbanismo à brasileira*

Frederico Mendonça de Oliveira

Um certo bom português de nome Manoel, vindo lá das bandas de Trás-os-Montes, de onde os lisboetas dizem provir a tão decantada suposta burrice lusitana que os brasileiros gozam há séculos, estando aqui nas montanhas do sul de Minas tentando viveire feliz mesmo que sem o seu bacalhau, suas batatas, seu azeite e seu vinho degustados no clima em que os degustava por lá, deparou com uma certa praça pública que julgou ser algo de outra categoria urbanística que aquela que seus bons e velhos olhos de homem viajado conhecera até estes dias de balas perdidas, outra inovação brasileira que lhe causa certa estupefação. Enter.
Vendo que a tal praça causava uma razoável pendenga na cidade e mais especialmente entre os moradores que a cercam, resolveu dar um pulo a Portugal, mais especialmente a Trás-os-Montes, sua terrinha natal, para investigar se por lá poderia haver algo parecido com a inovadora pracinha daquele arraialito espetado nas montanhas sul-mineiras, especialmente porque o deixou muito intrigado a discórdia que cercava o inusitado logradouro em questão. Afinal, se agora estava envolvido com a terra para a qual emigrara, seria de bom alvitre que nada nesta sua nova condição de cidadão ficasse sem explicação razoável, e uma pesquisa pela Santa Terrinha de Portugal poderia pôr fim a este tão estranho enigma encontrado nas montanhas alterosas em que agora vivia. Enter.
Nada encontrou parecido por lá, nem na linda e velha Lisboa de outras eras nem nos diversos povoados que percorreu em busca de dar com os olhos em algo naquele estilo sul-mineiro. Pois ocorreu-lhe realizar uma pesquisa do tipo que os brasileiros chamam de ibope. Passou a indagar a seus amigos ibéricos a respeito da curiosa obra urbanística, e logo o admirou que falar da pracinha, descrevendo-a de início apenas por suas características, provocava reação semelhante com quem quer que ele falasse: primeiro, uma estupefação associada a incredulidade; logo em seguida, uma explosão de gargalhadas muito parecida com as que sucedem as piadas que contam no Brasil sobre seus patrícios. Pois deu-se que, no percurso de sua pesquisa, a questão se alastrou entre seus congêneres lusitanos como uma nova e impagável anedota, coisa que mais e mais muito o admirava – ele não entendia a razão de tanta hilaridade, pois apenas pesquisava uma característica urbanística sul-mineira, não uma excentricidade tal que levava os conterrâneos portugueses a tal reação. Enter.
Pois já começando a arrumar as malas de volta para o arraialito em que agora residia nas montanhas sul-mineiras, resolveu, para ver se entendia de forma clara e eficiente o enigma de falar sobre a questão causar tamanha espécie e tanta explosão de risos, buscar aconselhamento íntimo com a sua velha namorada Maria, com quem promoveu na mesma alcova de outros tempos uma sessão flash-back sobre alvos lençóis de linho perfumados de alecrim, e, claro, ambos em trajes de Adão e Eva... Enter.
A primeira foi ótima, e eles fumavam entre arrulhos com saudades do passado e já se iam excitando para a segunda quando nosso Manoel lembrou de abrir a questão antes de partirem pra nova queca (em Portugal, assim eles se referem ao ato de fusão de corpos). Pois eis que a Maria o olhou espantada e pediu que ele explicasse melhor que diabo era aquilo. Ele então falou, a contragosto e já meio que bufando de desejo, que “fizeram uma pracinha, no arraialito onde ele agora residia, que não tinha ruas em volta dela, uma pracinha que estava diretamente ligada às residências que a cercavam, e que os moradores se dividiram, uns contra e outros a favoire, e que por causa da pracinha saíram processos na Justiça e debates encarniçados no jornalito local que fez reportagem sobre a inovação, que quase saía porrada e que deu até censura a um certo moradoire tido como o encrenqueiro por não aderir ao cordão dos puxa-sacos” e tal. Enter final.
Maria explodiu em gargalhadas, e nada a fazia parar, e mais ria ainda ao ver o Manoel e seu bigodão enfeitando a cara chapada de estupefação, e mais ainda ao constatar que fora-se a excitação do parceiro, cujo membro caíra em disfunção erétil, encolhidito, e assim se encerrou a pesquisa do tipo ibope brasileiro que nosso Manoel foi fazer em Portugal. Voltou pro arraialito, e lá estavam a praça e a pendenga, e ele soube que o tal moradoire encrenqueiro jogou em protesto óleo queimado nos bancos da praça, e que nova polêmica acirrada rolava no jornalito local. Manoel ainda se perguntava por que seus patrícios riam tanto e por que o assunto tinha virado, na Santa Terrinha de Portugal, uma nova e palpitante... piada de brasileiro. E viva Santo Expedito! Oremos. ’Bye, babes!
* - Leia em sotaque lusitano, para melhor compreensão e efeito

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

A barafunda é o estado normal das coisas

Frederico Mendonça de Oliveira

Semana de festejos de aniversário de um arraial do sul de Minas, e lá vêm os ícones da mídia de merda, indústria de bugres aos milhares por dia, “animar as festa”. No cardápio, pagode, breganojo e pop asinino. Em suma: imbecilidade em dose pra elefante nenhum ficar por perto. Assim querem os globalizadores: que sejamos o país – país?? Porra nenhuma! Isso aqui é apenas hoje um lugar, aliás quinto dos infernos!! – da imbecilidade generalizada, a barafunda onde os boçais sejam o padrão médio da população; sob eles, os mais boçais ainda; sobre eles, os menos boçais um pouco. E assim se estabeleceu a semana de festejos do arraial das Bagas, o município onde a corrupção é legalizada e festejada. Enter.
A população pobre simplesmente entupiu a praça central, onde os boçais cantantes, simples cavalgaduras canoras, apresentaram sua titica musical para semblantes abestalhados de tamanha estupefação midiática a que foram condenados. Um motoqueiro que fez entrega em minha casa disse que a praça estava tão cheia que não passava nem papel entre os presentes, de tão duro de gente. Falou isso com estupefação, como a questionar tamanha acorrência, e fiquei eu pensando com meus parcos botões sobre se isso tem reversibilidade algum dia. Enter.
Não, queridos incertos leitores: NÃO TEM MAIS. Para que tivesse, deveria ou descer dos céus um Cristo que não se deixasse mais crucificar e mandasse todos os cães globalizadores para um campo de concentração no inferno... ou que o tal planeta Xis viesse mesmo, não ficando só na profecias de Nostradamus e citações no Evangelho, até da letra cantada (??) pela patética e sesquipedal Cássia Eller. Porque depois que os seres são abestalhados, reduzidos a intelijumentos ou a macacos sem rabo, não há como desabestalhá-los. Enter.
Será essa aí a humanidade do Cristo? Deus nos livre! Adoradores de maratimbas e cajetilhas estúpidos (que por sua vez crêem mesmo que MERECEM o que lhes pagam e dirigem de idolatria) não podem mais, pelo menos nesta vida, retomar a consciência, porque já foram drogados por esse ópio maligno ao âmbito da irreversibilidade do estrago em alcance físico, mental e espiritual. Auscultei a abissal voz do povo, que hoje é a voz do diabo em todas as suas manifestações: Babalon, Belphegor, Baphomet, Mefistófeles, formas do mal em abomináveis entidades, e o que ouvi foi a sonoridade deletéria dessas manifestações infernais. Dizer que os que deambulam pelas ruas hoje são pessoas é no mínimo exibir doença mental: pelas ruas hoje circulam macacos sem rabo – que por terem perdido o apêndice caudal não conseguem mais voltar às árvores –, objetos vestidos do Sistema, bonecos palradores repetindo fórmulas verbais de que não conhecem o sentido. Como disse Lima Barreto lá pra 1915, “Se nós tivéssemos sempre a opinião da maioria, estaríamos ainda no Cro-Magnon e não teríamos saído das cavernas”. Pois voltamos a elas, sim senhores. A abjeção e a degradação chegaram a tal profundidade que andar pelas ruas hoje dá medo, mesmo em pacatos arraiais sem balas perdidas como este, que trouxe para seu aniversário de mais de cem anos três manifestações da mais refinada boçalidade que a história da canção brasileira registra. È pra sentar no meio-fio e chorar de... de... INDIGNAÇÃO DIANTE DE NOSSA IRREVERSÍVEL IMPOTÊNCIA DIANTE DE TAMANHA CANALHICE E DEPRAVAÇÃO INSTITUÍDAS EM TODOS OS SENTIDOS POSSÍVEIS E IMAGINÁVEIS!! Enter final.
Pois é aqui mesmo que se rasgam as leis, se defeca no direito dos cidadãos, se cospe na cara de pessoas dignas. Essa história já andou publicada, mas deixa isso pra lá, porque, embora Xenofonte defendesse que “as bestas se amansam com delicadeza”, me dou o direito de discordar disso, porque ele viveu tempo de bestas de quatro patas; hoje elas têm só duas, mas não há delicadeza ou violência que as detenha... porque tomaram o gosto da deformidade, do diabólico, do imundo, de tudo quanto possa haver de degradante e de porco! Em suas veias torpes corre pus, e só podemos pedir a Deus por essas monstruosidades vestidas que habitam a superfície do planeta neste lugar desgraçado e miserável chamado Brasil, “um país de todos”... os que forem patifes, canalhas, degenerados e imundos de alma e espírito. Bom proveito, cães degeneradores e seres amestrados por eles: a lei de ação e reação está em curso. E por mais que nos doa profundamente ver tudo isso, adeus!!! E viva Santo Expedito! Oremos. ’Té mais, babes!

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

A morte de um gênio esquecido

Frederico Mendonça de Oliveira

Minha orquestra de violões e guitarras vai trabalhando comigo e
aprendendo coisas que jamais sonharia saber não fosse esse convívio
tão opositivo: eles quase todos teen, eu sessentão. Minhas aulas não
se limitam a fórmulas musicais e técnicas instrumentais e/ou teorias e
teorices: estuda-se a música em seu todo, sua evolução, sua
essência, estuda-se a vibração básica e essencial, a gênese do
som, a nota no espaço - quando passa um carro ou uma moto emitindo
uma nota, paramos para localizar a nota, o mesmo quando a cadeira
arrastada emite um som musical - e tudo que se relacione com música.
E adjacências, claro: a política mortífera imposta à música real e
a grana monumental investida nas formas sonoras miserabilizantes, desgraçantes,
regressivas e patogênicas. E foi numa dessas que lembrei Dorival Caymmi,
que morrera há dias. Enter.
Pois é. NINGUÉM sabia quem era Dorival Caymmi. Bem, dá pra entender:
são jovens perdidos num turbilhão de merda midiática e que só têm
referência de um passado musical recente pelo que pais e avós
mencionam, ou pelo que ouvem de viés, acidentalmente. Pois tratei de
cantar as coisas do velho Dorival para a turma, tudo garotada em torno
e abaixo dos 15, e foi assombroso ver como eles se abriram para a
realidade musical brasileira daquelas canções admiráveis que
trouxeram a Bahia verdadeira para o Sul ainda Maravilha. Impressionado
mesmo fiquei eu ao perceber que houve, por parte de adolescentes
púberes, grande assimilação daquela maravilha. Foi incrível cantar,
envenenando pesado a harmonia no violão e para pares de olhos vidrados
e profundamente atentos, canções como Dora, É Doce Morrer no Mar,
Marina, Suíte dos Pescadores e mais outros detalhes disso e daquilo,
inclusive lembrando Amazon River, do filho mais velho de Dorival, o
gênio Dori Caymmi, que vive coo que exilado em Los Angeles há mais de duas décadas.
E daí deu pra explicar coisas esquisitas como o completo
desconhecimento de um homem de tamanha estatura musical e da absurda
negação, por parte da mídia maligna dos globalizadores, de espaço
para trabalhos geniais e grandiosos como o de Dori Caymmi, o filho
ungido do velho baiano e um dos mais importantes compositores modernos
brasileiros, que figura no topo de nosso cancioneiro desde que este
existe como tal. Enter.
Pois é: o velho foi-se com quase 100 nas costas. Declinou
biologicamente, desfez-se deste corpo material com o qual viveu muito
bem tantos anos, e deixou este puteiro, de que falou Cazuza, com sereno
distanciamento, mas levou consigo toda a magia da Bahia que ele soube
ensinar aos brasileiros. Levou com ele as ondas verdes do mar, os
coqueiros e areias de Itapoã, a água negra do Abaeté, o vatapá, o
caruru, o munguzá, as moças do Jaguaribe que choravam de fazer dó,
porque a jangada que saiu com Chico, Ferreira e Bento voltou só... E
saiu sob uma incelença para entrar no paraíso, dando adeus aos
irmãos "'té o dia do Juízo". Enter.
O Brasil até foi cortado pela notícia, deu até durante um jogo de
vôlei da seleção do Bernardinho, com Giba e tudo, mas soou como um
pé de vento num deserto. O Brasil está desgraçadamente esquecido de
si, vitimado por uma alienação maligna, aquilo que era nosso povo é
hoje uma legião de quase duzentos milhões de zumbis... É que vigora
hoje a noção de que amar a pátria ou tê-la como valor é grave
perversão. "A burguesia fede", letrou o pobre Cazuza, mas falou
certo: a burguesia responde pelo estraçalhamento de nosso país e de
nossas vidas, porque ela é a classe dominante completamente curvada e
servil aos interesses dos globalizadores genocidas. Quanta
abjeção, quanta podridão, quanto excremento lançado sobre um povo
indefeso! Enter final.
O corpo do velho Dorival foi velado e enterrado no Rio, mas deveria ser
mandado para sua querida terra, teria de ser velado e enterrado na
Bahia, claro, como seu conterrâneo e contemporâneo Jorge Amado.
Estiveram ao lado de seu corpo uma meia dúzia de palermas da canção
brasileira, enfeiando a saída do grande ícone. Dori, que veio de Los
Angeles para enterrar o pai, soltou os cachorros nessa podridão toda
que vivemos. E não poderia ser diferente: deve ter doído em seu
coração de gênio ouvir os políticos falando de seu pai, desde a voz
roufenha e asquerosamente cínica de Lula até os César Maia da vida
bostejando asnices sobre algo que definitivamente não alcançam, mas
que até desprezaram sempre. Dori falou tudo - mas a mídia dos cães
deletou. É que a fala dele é pra gente, não pra zumbis. E viva Santo
Expedito! Oremos. ?Té a próxima, babes!